Cinquenta anos depois da independência, Cabo Verde apresenta indicadores de saúde que o colocam entre os países africanos com melhor desempenho na área.

A transformação não é apenas estatística. É estrutural.

Numa entrevista concedida ao Estrategizando e à Diáspora, o Ministro da Saúde, Dr. Jorge Figueiredo traçou um balanço claro do percurso feito e das prioridades que irão orientar o sistema nacional de saúde nos próximos anos. O discurso revelou responsabilidade histórica, consciência dos desafios e compromisso com resultados concretos.

Em 1975, a mortalidade infantil rondava os 110 por mil e a esperança média de vida situava-se perto dos 50 anos. Hoje, a mortalidade infantil oscila entre 10 e 12 por mil, a mortalidade materna ronda 38,8 por 10.000 e a esperança média de vida atinge os 71 anos.

São números que traduzem consistência de políticas públicas.

Um arquipélago que transforma desafios em estratégia

Cabo Verde não é apenas um país. É um arquipélago disperso pelo Atlântico, com nove ilhas habitadas. A geografia impõe custos logísticos, complexidade na gestão de infraestruturas e desafios permanentes de equidade no acesso aos serviços.

Transformar essa realidade numa vantagem estratégica tem sido parte do percurso.

O país investe hoje cerca de 12% do Orçamento Geral do Estado na saúde, com a meta de atingir 15% até 2030. Cerca de 90% do financiamento já é assegurado por recursos internos, reforçando autonomia e estabilidade.

Formação interna: o capital humano como prioridade

A primeira prioridade estratégica é clara: formar médicos, enfermeiros e técnicos de saúde em Cabo Verde. Durante décadas, a formação ocorria essencialmente no exterior. O novo ciclo aposta na capacitação interna, reduzindo o êxodo e fortalecendo o sistema com profissionais enraizados na realidade nacional.

A diáspora, com centenas de médicos em Portugal, Estados Unidos, França e Luxemburgo, é vista como parceira estratégica na transmissão de conhecimento e especialização. É uma visão que combina pertença global com compromisso local. 

Hospital Nacional de Referência: reforçar soberania sanitária

A construção de um hospital nacional de referência constitui a segunda grande prioridade. Oncologia, cardiologia, ortotraumatologia e oftalmologia estão entre as áreas estratégicas. Reduzir evacuações externas em 50% poderá significar uma poupança superior a 10 milhões de contos, recursos esses que poderão ser reinvestidos em prevenção e cuidados primários.

Mais do que infraestrutura, trata-se de consolidar capacidade técnica interna e reduzir dependências. 

Telemedicina e digitalização: equidade através da tecnologia


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Num território fragmentado pelo mar, a tecnologia assume papel estruturante. Com 24 pontos de telemedicina já operacionais, médicos em ilhas como Brava, Maio ou São Nicolau podem aceder a especialistas nos hospitais centrais sem necessidade de deslocações dispendiosas.

A digitalização inclui prontuários clínicos eletrónicos, exames integrados e prescrição informatizada, reduzindo custos, duplicações e tempos de espera. Trata-se de democratizar o acesso e otimizar recursos.

Prevenção como eixo central

As doenças crónicas não transmissíveis representam hoje cerca de 75% das causas de mortalidade no país. Cancro, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares são os principais desafios.

Segundo o Ministro da Saúde, a meta até 2030 é reduzir significativamente a carga destas patologias através de diagnóstico precoce, reorganização da rede de cuidados e reforço da prevenção. O foco deixa de ser apenas tratar e passa a ser antecipar.

Liderança como serviço público

Questionado sobre o legado que pretende deixar, o ministro utilizou a metáfora da corrida de estafeta: cada responsável deve entregar o testemunho em melhores condições do que o recebeu. Não se trata de protagonismo individual, mas de continuidade institucional.

Num contexto internacional instável, deixou ainda um apelo à união entre os que estão no país e os que vivem na diáspora, sublinhando que Cabo Verde, enquanto pequeno Estado insular, é particularmente sensível a perturbações externas.

Cabo Verde entra assim numa nova etapa da sua política de saúde: mais estruturada, mais tecnológica, mais autónoma e orientada para a prevenção. Os desafios permanecem, mas a estratégia está definida.

O leitor poderá ver a entrevista na íntegra aqui em baixo e retirar as suas próprias conclusões e, como afirmou Nelson Mandela"It always seems impossible until it’s done." 

Talvez seja essa a essência do percurso da saúde em Cabo Verde, transformar o que parecia impossível em realidade concreta.