A votação decorreu durante a sessão constitutiva da XI Legislatura, na Praia. Candidata única ao cargo — por prerrogativa do PAICV, força vencedora das eleições de 17 de maio —, Janira Hopffer Almada foi eleita com 63 votos a favor, cinco contra, três abstenções e um voto em branco, num universo de 72 deputados. Sucede a Austelino Correia, do Movimento para a Democracia (MpD), o partido que governou o arquipélago durante a última década.
A escolha decorre da nova configuração saída das urnas. Nas legislativas de 17 de maio, a Comissão Nacional de Eleições proclamou o PAICV vencedor com 48,04% dos votos válidos e 37 dos 72 assentos parlamentares, contra 33 do MpD e dois da UCID — uma maioria absoluta, ainda que curta, que devolveu o partido ao poder e levou à indigitação de Francisco Carvalho como Primeiro-Ministro, empossado no dia seguinte à eleição da Presidente do Parlamento. O escrutínio ficou também marcado por uma abstenção recorde de 53,5%, dado que atravessa, em surdina, a leitura política deste novo ciclo.
Janira Hopffer Almada não chega a este lugar por acaso, nem de surpresa. Chega no termo de um percurso longo, exigente e, por vezes, adverso.
Nascida na cidade da Praia a 27 de setembro de 1978, filha do jurista David Hopffer Almada e de Ana Maria Fonseca, fez da advocacia a sua primeira vocação. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, onde concluiu uma pós-graduação em Direito das Empresas, e mantém até hoje a ligação à profissão como sócia da sociedade D. Hopffer Almada & Associados. Foi docente na Universidade Jean Piaget e integrou estruturas de referência da vida jurídica nacional, do Conselho Consultivo da Ordem dos Advogados à Associação de Mulheres Juristas de Cabo Verde.
A política entrou-lhe na vida aos 29 anos, quando foi convidada para o Governo de José Maria Neves. Assumiu, ainda jovem, responsabilidades governativas de peso, a pasta da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares e, mais tarde, a da Juventude, Emprego e Desenvolvimento dos Recursos Humanos. Foi eleita deputada municipal em 2008 e deputada nacional em 2011.
Em dezembro de 2014 alcançou a presidência do PAICV, tornando-se a quinta figura e a primeira mulher a liderar o partido, na linha sucessória de Aristides Pereira, Pedro Pires, Aristides Lima e José Maria Neves. Conduziu o partido nas legislativas de 2016 e 2021, derrotada em ambas por Ulisses Correia e Silva. A segunda derrota levou-a a demitir-se da liderança. Não saiu, porém, da arena: foi a partir da bancada parlamentar que manteve protagonismo até à viragem de 2026, ano em que regressou eleita pelo Círculo Eleitoral de Santiago Sul.
Há aqui um arco que merece ser sublinhado. A dirigente que por duas vezes ambicionou chefiar o Governo e por duas vezes foi vencida alcança agora o segundo cargo mais alto da hierarquia do Estado, no preciso momento em que o seu partido regressa ao poder. Não é o lugar que procurou durante anos, e sim, talvez, o lugar onde a sua experiência se torna mais necessária.
No discurso de tomada de posse, Janira Hopffer Almada recusou ler o momento como uma vitória de género contra outro. Leu-o como um amadurecimento coletivo. Afirmou que a sua eleição traduz «o amadurecimento da democracia cabo-verdiana» e o avanço da luta pela igualdade, sinal de que «as barreiras que outrora pareciam intransponíveis» começam a ser, paulatinamente, derrubadas.
Dedicou a eleição às gerações de mulheres cabo-verdianas que, com dignidade e resiliência, lutaram pelo direito de ocupar, por mérito, lugares de decisão. E definiu, com clareza, a forma como entende o cargo: ser «guardiã da Constituição», «árbitra imparcial nos debates» e garante do regular funcionamento das instituições. Comprometeu-se com um Parlamento mais próximo das pessoas, transparente e eficaz — não como um fim em si mesmo, mas como instrumento para aprovar leis que melhorem, de forma sentida, a vida dos cidadãos, dentro e fora do país.
Num gesto politicamente significativo, destacou o papel do Primeiro-Ministro indigitado e líder do PAICV, Francisco Carvalho, atribuindo a sua eleição à «mente progressista» do dirigente e à defesa prática do princípio da igualdade e da inclusão.
A composição da Mesa da Assembleia Nacional reflete a nova geometria parlamentar e uma intenção de pluralismo. Foram eleitos Adilson Jesus como Primeiro Vice-Presidente e Vanusa Barbosa, do MpD, como Segunda Vice-Presidente, integrando ainda a Mesa os secretários Ana Paula Moeda (PAICV), Anilda Tavares (MpD) e Carlos Rodrigues (PAICV). A presença de figuras das diferentes bancadas no órgão diretivo é, em si mesma, uma declaração de método: governar uma maioria curta exige diálogo permanente.
O Presidente da República, José Maria Neves, felicitou a nova Presidente da Assembleia Nacional, manifestando «total solidariedade pessoal, disponibilidade e colaboração institucional». Na missiva, o Chefe de Estado realçou o «facto inédito» de ser a primeira mulher eleita para o cargo e destacou a sua trajetória de parlamentar e governante, a formação jurídica e a capacidade de liderança como atributos que reforçarão os ganhos do Parlamento cabo-verdiano. Formulou, por fim, votos para a «construção de um futuro de mais tolerância e de consensos, liberdade, estabilidade, segurança e progresso».
A eleição de Janira Hopffer Almada transcende a dimensão partidária. Num país onde as mulheres têm desempenhado papéis decisivos na educação, na família, na economia, na cultura e na política, a chegada de uma mulher à presidência do Parlamento inscreve-se na memória coletiva como uma conquista da própria democracia.
Importa, ainda assim, situar o feito com rigor: Janira é a primeira mulher a presidir à Assembleia Nacional de Cabo Verde, mas não a primeira a chefiar um parlamento no espaço dos países africanos de língua oficial portuguesa — um pormenor que não diminui o simbolismo nacional, antes o enquadra numa tendência mais ampla de afirmação das mulheres nos centros de decisão do mundo lusófono.
O desafio que tem pela frente é exigente. Uma maioria absoluta, mas curta, num quadro em que uma eventual convergência da oposição pode condicionar iniciativas estruturantes; uma abstenção recorde que interpela a classe política sobre a distância entre as instituições e os cidadãos; e a expectativa de um Parlamento capaz de diálogo, fiscalização e construção de consensos ao longo de cinco anos.
Fotode destaque: https://www.facebook.com/janira.hopfferalmada/