O Banco Comercial do Atlântico (BCA) iniciou 2026 com uma mudança estrutural que marca uma nova etapa na história da maior instituição financeira de Cabo Verde.

Após mais de vinte anos sob controlo maioritário da Caixa Geral de Depósitos (CGD), o banco passou a integrar o universo da Coris Holding, grupo bancário africano com presença em vários países da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA).

A conclusão da venda — anunciada oficialmente em janeiro de 2026 — ocorre num momento em que Herminalda Rodrigues assume a presidência da Comissão Executiva do BCA, reforçando a ideia de continuidade estratégica aliada a uma nova visão de crescimento, valorização e integração regional.

“Queremos ser verdadeiramente o banco que financia o futuro de Cabo Verde”, afirma a gestora, sublinhando que a mudança acionista não representa uma rutura com o passado, mas sim um reforço da capacidade do banco para responder aos desafios da economia contemporânea.

Um banco líder num sistema estável

Criado em 1993, após a separação do Banco de Cabo Verde nas vertentes de banco central e banco comercial, o BCA consolidou-se ao longo de três décadas como uma referência do sistema financeiro nacional. Em 2000, a CGD tornou-se acionista maioritária, contribuindo para a modernização da instituição, nomeadamente com o lançamento do BCA Direto, pioneiro no internet banking em Cabo Verde.

De acordo com dados do Banco de Cabo Verde (BCV), o sistema bancário nacional apresenta rácios de solvabilidade acima dos mínimos regulamentares, num contexto de estabilidade macroeconómica progressiva. O BCA mantém uma posição dominante em ativos, crédito e depósitos, refletindo a confiança das famílias e empresas.

A nova fase pretende reforçar essa liderança, num cenário em que a economia cabo-verdiana procura diversificar-se, reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer o setor privado, especialmente as micro, pequenas e médias empresas — que representam a esmagadora maioria do tecido empresarial do país, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Digital, formal e sustentável

Herminalda Rodrigues identifica três vetores centrais para o futuro do banco: digitalização, formalização da economia e sustentabilidade.

A transformação digital é vista como uma prioridade estratégica. O reforço do BCA Direto, a melhoria dos canais móveis e a integração de soluções de pagamento eletrónico fazem parte de um processo contínuo de modernização. Relatórios do Banco Mundial têm destacado a importância da inclusão financeira digital em economias insulares, como forma de reduzir custos de transação, aumentar a eficiência e promover maior acesso ao crédito.

Paralelamente, o banco pretende apoiar a transição para uma economia mais formal e transparente, facilitando o acesso a financiamento estruturado, linhas de crédito diferenciadas e instrumentos de apoio ao comércio externo, como trade finance e garantias bancárias.

A sustentabilidade surge igualmente como eixo estratégico. Num contexto global marcado por exigências ambientais, sociais e de governação (ESG), as instituições financeiras são chamadas a desempenhar um papel ativo no financiamento responsável e no apoio a projetos alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Integração africana e apoio à diáspora

A entrada da Coris Holding abre novas possibilidades de integração regional, permitindo ao BCA beneficiar de uma rede de correspondentes e parcerias em mercados africanos. A aposta passa também por reforçar o apoio à diáspora cabo-verdiana, cuja contribuição para a economia nacional é significativa, quer através de remessas, quer através de investimento direto.

O objetivo, segundo a presidente executiva, é claro: consolidar o posicionamento interno e projetar o banco para além das fronteiras nacionais, acompanhando empresas e investidores que pretendam expandir operações.

Liderança feminina num setor tradicional

A nomeação de Herminalda Rodrigues para a presidência executiva representa também um marco simbólico num setor historicamente dominado por lideranças masculinas. Com formação em Administração e experiência consolidada no próprio BCA , onde desempenhou funções de direção em áreas estratégicas, a gestora assume o desafio de conduzir a instituição num período de transformação estrutural.

A sua mensagem é de confiança: continuidade nos princípios de rigor e transparência que construíram a reputação do banco, combinada com uma visão de crescimento mais ágil, mais digital e mais integrada.

Num contexto internacional marcado por volatilidade económica e desafios geopolíticos, o BCA procura afirmar-se como um pilar de estabilidade e um motor de desenvolvimento. A ambição expressa é inequívoca: ser o banco que financia o futuro de Cabo Verde, dentro e fora das suas fronteiras.

Foto de destaque: Facebook de Herminalda Rodrigues