Neste último janeiro, me defrontei com duas notícias que me abalaram: a saúde precária de dois amigos. Primeiro, o jornalista Antonio Joffre Justino, português, em viagem ao Brasil; depois, Walmir Rocha Palma, músico e poeta baiano de Salvador.  

Por conta do primeiro o Jornal Estrategizando deixou de circular por vários dias, pois Joffre é seu editor-chefe e, internado com broncopneumonia, ficou sem condições de trabalhar.

Para preencher o vácuo, propus, então, uma edição especial do jornal apenas com poemas de poetas baianos. Ele topou e eu caí em campo. Mas aí veio o desenrolar da segunda notícia: meu amigo Walmir, com quem eu desenvolvia um trabalho para a criação de um musical, já na UTI de um hospital, subitamente faleceu.

As consequências foram traumáticas para mim e a edição especial do jornal não pôde sair na data prevista. Mas sai agora, com um pequeno atraso, pois ainda está em tempo. E por que?

Nestes dias tenebrosos em que vivemos, com a ascensão de novos déspotas internacionais e o perigo de guerra aumentando, há quem diga que não é o momento de falar de poesia, pois não deveríamos “perder tempo”. Tal assertiva, evidentemente, vai ao encontro dos interesses daqueles que dominam o mundo, que agem para desestimular o florescimento da cultura e para dar lugar ao estímulo do lucro e da riqueza, via exploração do homem pelo homem e a permanência da massa trabalhadora na ignorância e na mediocridade.

Mas, ao contrário dessa onda retrógrada, que é uma das particularidades do mundo atual, a ameaçar todos nós, a poesia prolifera sempre com força renovada e expressão libertadora. Particularmente quando a situação se torna mais caótica. Por isso, a poesia não sucumbirá diante das novas armas dos poderosos: força bélica e mentira.

Dos “canhões de Amaralina” que não deviam estar na paisagem, no poema Martinha de Ruy Espinheira Filho, numa luminosa visão pacifista e antimilitarista; dos ferinos poemas de Cicatrizes, de Carlos Machado, autêntica denúncia das marcas da escravidão no Brasil; da eloquência dramática dos Degredados da Terra de Narlan Matos; do elogio da amizade e do companheirismo nos sonetos de Paulo Martins e Florisvaldo Mattos; da sonoridade musical dos versos de Antonio Brasileiro; das canções engajadas de Walmir Rocha Palma, regurgitam resistência e entrelaçamento humano. O despertar da memória nos versos de todos eles aqui publicados, encontramos palavras de glorificação do humanismo que sempre se destacarão no combate ao caos e à tirania. Até quando não houver mais esperança, nos restará ainda a força da poesia. Como disse o poeta Uaçaí Lopes, também baiano, “a poesia é uma bomba”. Portanto, ela é a arma legítima dos poetas.

Por tudo isso é que pensamos em fazer esta edição especial do Estrategizando, publicando apenas poemas. Escolhemos sete poetas da Bahia, tradicionalmente terra de grandes vates, desde Gregório de Matos e Castro Alves. Sem ordem preestabelecida, são eles: Florisvaldo Mattos,  Ruy Espinheira Filho, Paulo Martins, Walmir Rocha Palma, Carlos Machado, Antonio Brasileiro e Narlan Matos. Ao fazer esta publicação, estamos seguindo as prédicas do poeta Ruy Espinheira Filho em seu poema Epígrafe: tornar a vida “menos obscura e breve”. E isso não deixa de ser uma forma de resistência.

FLORISVALDO MATTOS

Florisvaldo Mattos nasceu em 1932, em Uruçuca, sul da Bahia, onde fez o curso primário, tendo cursado o secundário em Ilhéus e Itabuna.  Diplomou-se em Direito pela UFBA mas optou cedo pelo jornalismo, ocupando cargos em vários jornais como repórter, chefe de reportagem, editor e editor-chefe. Integrou o grupo nuclear da famosa GERAÇÃO MAPA, que atuou nos anos 60 sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. Escritor e poeta, atuou nas Revistas Ângulos e Mapa, ambas de Salvador. De 1990 a 2003 foi editor do Suplemento Cultural do jornal A Tarde, quando foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCL). É membro da Academia de Letras da Bahia. Atuou  também no magistério, como professor da Faculdade de Comunicação da UFBA por mais de 30 anos. Também exerceu, no biênio 87-89 a presidência da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

Em que pese sua longa travessia no jornalismo, a maior paixão de Florisvaldo sempre foi a poesia, gênero em que possui numerosos livros publicados, como Reverdor (1965); Fábula civil (1975); Caligrafia do soluço e poesia anterior (Prêmio Ribeiro Couto de Poesia da UBE – 1996); Mares anoitecidos (2000); Poesia reunida e inéditos (2011); Sonetos elementais – Uma antologia (2012); Estuário dos Dias e outros poemas (2017); Cacaueiros (2022); Quatorze janelas abertas (2024), além de numerosos livros de ensaio, história e memórias, não podendo ser esquecido A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa e O triunfo de Sosígenes Costa – Estudos, Depoimentos e Antologia. Entre os ensaios historiográficos, é imprescindível citar A comunicação social na Revolução dos Alfaiates (1972), e Academia dos rebeldes e outros exercício redacionais, (2022), um fantástico trabalho memorialístico sobre a Bahia, seus poetas, escritores, pintores, movimentos culturais e vida boêmia.

A poesia de Florisvaldo Mattos, geralmente descritiva e carregada de elementos telúricos, traduz sua forte ligação com a região cacaueira da Bahia, rica de histórias e de mitos. Conforme Wladimir Saldanha, referindo-se a Cacaueiros, seus “decassílabos brancos (…), a par de versos heterométricos ou mesmo livres, aqui estão em intensa musicalidade, para nos contar com detalhes tudo o que sua prodigiosa memória reteve de coisas e pessoas do cacau.” Florisvaldo também é grande conhecedor da mitologia greco-romana, que muitas vezes usa como paradigma em seus versos de raízes filosóficas, em particular nos sonetos, construção poética que abraçou com exímia perícia desde seus primeiros dias de poeta.

A CABRA

Talvez um lírio. Máquina de alvura

sonora ao sopro neutro dos olvidos.

Perco-te. Cabra que és já me tortura

guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

 

Máquina e jarro. Luar contraditório

sobre lajedo o casco azul polindo,

dominas suave clima em promontório;

cabra: o capim ao sonho preferindo.

 

Sulca-me perdurando nos ouvidos,

laborado em marfim – luz e presença

de reinos pastoris antes servidos –

 

teu pelo residência da ternura

onde fulguras na manhã suspensa:

flor animal, sonora arquitetura. 

(Reverdor. Salvador - 1965)

POEMA PREPOSICIONADO

                                   A Glauber Rocha

 

Debaixo dessas pontes de limo,

debaixo desses rios parados,

por que nos quererão ativos,

mas não honrados?

 

Por que sobre esses verões poluídos,

por sobre esses ventos domados

por que nos quererão amigos,

mas não amados?

 

Diante desses mares vencidos,

diante desses muros inviolados,

por que nos quererão perdidos

viajantes sem mapa?

 

Atrás dessas botas de verniz,

atrás dessas máscaras de aço,

por que nos quererão submissos

seres programados?

 

Nesse fosso de espanto e mito,

nessa fria massa de ocasos,

por que não paramos de rijo

o fóssil barco?

 

Com as ferramentas da vida

com os amantes, com os amados,

Por que logo não explodimos

a obstinada máquina?

 

Fique no ouvido o som terrível

cravem na carne os estilhaços,

antes me quero morto ou sofrido,

porém honrado.

(Fábula civil – Salvador - 1975)

SONETO ROMANO

                                   A Valdomiro Santana

 

                                   Quin etiam, Polypheme, fera Galatea sub Aetna

                                   Ad tua rorantis carmina flexit equos.

                                                           Sexto Propércio (Elegia III, 2)*

 

Não sou Orfeu, não sei deter os rios,

Nem toco flauta no portão do Inferno,

Para tirar do Amor grilhões sombrios

E postá-lo na margem em que aderno.

 

Não sou Camões; Calíope não me ensina

Os caminhos do mar. Vou para o bosque.

Sei que irão perguntar-me adiante quousque

Tandem há de durar a minha sina.

 

Socorre-me, Pound. Leve o barco e o remo,

Guarde-os perto do campo de azaleia.

Se mais seguros, lá, mais bem guardados.

 

Oh, Propércio, avise aí a Polifemo

E me deixe no Etna com Galateia

Montada em seus cavalos orvalhados.

            (Catorze janelas abertas. Sonetos Reunidos, com Inéditos – (1953-2023) - 2024)

ODE AO TEMPO SUCESSIVO    

Eunt anni more fluentis aquae.

                         (“Os anos se vão como a água que flui”)

                                               Ovídio, Ars amatoria (3.62)

                        Omnia fert aetas, animum quoque.

                        (A idade leva tudo, até a memória)

                                               Virgílio, Bucólicas (9,51)

 

Muitos disseram, outros quiseram dizer, mas não disseram.

Talvez. Digo eu, então, olhando o mar de azul sonoro e vário,

Em frente, ou ao sol, revisitando árvores e caminhos de antes,

Imperecíveis. Tempo, senhor do mundo, varando luzes e trevas,

Nunca haverás de parar, nunca?

 

Mudo, disparas bola a rolar com o volume das noites e dos dias,

Que à frente navegam céleres, sem travas, nem conhecidas leis.

Tempo, senhor do mundo, de onde vens e aonde irá a tua máquina

De fomes insaciáveis, em teu infinito vai-e-vem de ausências?

Na varanda, sorvendo uma taça reluzente, miro o ignoto mar, o mar

De azul ora maciço; miro a rua de tráfego nervoso, envelhecendo

Meu duro chão que faísca.

 

Tempo, senhor do mundo, que sepulta meus sonhos, cala meus

Íntimos brados e longas vigílias, de onde vens e para onde vás?

Subindo e descendo solos íngremes, fazes de mim o que serei:

Somente esvoaçante pó.

 

Observo teus afiados dentes sobre mim, logo sobre todas as coisas.

Se até a memória levas-me, diz-me para onde levarás a minha alma.

Por que não me fazes feliz, antes de minha morte, por que?

Devoras a luz que nos espera na noite funda, lá onde ambos dormimos.

Por que disseram que foges?

 

Quantas verdades disseram outros: bem mais depressa que o vento, foges.

Doem-me os braços, minhas pernas cedem; já não mais seguro os remos.

O jequitibá de ontem pereceu; sapucaias e louros são hoje turva cinza.

Por serranias, céu claro, nuvens negras, fluentes águas, sem que ninguém

Te veja, nem eu, escapas.

 

Marchas, absoluto e irrefreável, por vazios de infinitas errâncias,

Sem nenhuma força capaz de mudar ou apagar o que deixas para trás.

Oh, Tempo, que posso fazer de ti, se passas, veloz e irrecuperável,

Forjando idades, se não sei o que me darás ao fim da brônzea tarde?

Se vais, corres, nadas, voas, sobre leito onde fluis, sem voltar jamais,

Não importa. Montado em tuas águas remotas, hoje, amanhã

E depois, irei contigo.

            (Salvador -2018 - Inédito)

RUY ESPINHEIRA FILHO

Ruy Espinheira Filho nasceu em Salvador, em 1942, passou a adolescência e juventude em Poções e Jequié e retornou a Salvador, onde vive até os dias de hoje. Ingressou cedo no ofício poético, embora tenha estudado direito e, no meio do caminho, jornalismo. Acabou na Faculdade de Letras da Bahia, onde foi professor durante anos. É jornalista, cronista, romancista, contista, poeta, ensaista e autor de letras de canção. Ganhou inúmeros prêmios literários, como o Cruz e Souza e o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e publicou dezenas de livros, em diversos gêneros, principalmente poesia. O último, NA ORLA DO OCASO, memórias de vida e literatura, é um livro marcante e original, de extraordinária riqueza literária e poética.

Florisvaldo Mattos o classifica como “o maior poeta lírico da Bahia”. Referindo-se a  Heléboro, seu livro de estreia, Drummond vê a poesia de Ruy como “concentrada e de sutil expressão”. Ivan Junqueira lhe descreve como autor de um “lirismo elegíaco”, marcado por uma linguagem seca e concisa. Miguel Sanches Neto o enxerga sempre investindo no “poder restaurador da palavra”. E Alexei Bueno o consagra como “poeta do invisível”. Diversos outros críticos e estudiosos são unânimes em nomear Ruy Espinheira Filho como o “poeta da memória”, o que ele próprio confirma em seu livro Para onde vamos é sempre ontem. É também um dos maiores sonetistas da língua portuguesa, e pertence à Academia de Letras da Bahia. Alguns de seus numerosos livros publicados: Heléboro, Julgado do vento, As sombras luminosas, Morte Secreta e poesia anterior, A canção de Beatriz e outros poemas, Memória da chuva, A cidade e os sonhos, Elegia de agosto e outros poemas, Sob o céu de Samarcanda, A casa dos nove pinheiros, Milênios e outros poemas, A invenção da poesia e outros poemas, sem citar aqui seus romances, livros de contos e crônicas, ensaios e livros infantis.

Selecionamos nesta publicação, cinco poemas de diversos livros de Ruy.

MARINHA

Meus olhos testemunham

a invisibilidade das ondinas,

a lenta morte dos arrecifes

e os canhões de Amaralina.

 

Vou, a passo gnominado

pisando a areia fina

da praia.

              Pombas sobrevoam

os canhões de Amaralina

 

Parece a vida estar completa

na paz que o azul ensina.

A brisa ilude a vigilância

dos canhões de Amaralina.

 

Nem tua ausência, amor, perturba,

esta alegria matutina

onde só há o claro e o suave---

(E os canhões de Amaralina?)

 

Tudo está certo: mar, coqueiros,

aquela nuvem pequenina...

Mas – o que fazem na paisagem

os canhões de Amaralina?

                                               (Heléboro)

CANÇÃO DE DEPOIS DE TANTO

                                                A Roniwalter Jatobá

 

Vamos beber qualquer coisa,

que a vida está um deserto

e o coração só me pulsa

sombras do Ido e do Incerto.

 

Vamos beber qualquer coisa,

que a lua avança no mar

e há salobros fantasmas

que não quero visitar.

 

Vamos beber qualquer coisa,

amarga, rascante, rude,

brindando sobre o já frio

cadáver da juventude.

 

Vamos beber qualquer coisa,

o que for, vamos beber.

Mesmo porque não há mais

o que se possa fazer.

                                   (Memória da Chuva)

 

 

BREVE CANÇÃO DA CAMINHADA

 

Vamos todos caminhando,

Entre o amor e a morte,

Por sobre o fio da navalha,

Sem sul, leste, oeste ou norte.

 

E vamos, da luz da infância

até a alma anoitecida,

buscando um sentido no

nenhum sentido da vida.

 

Que mais fazer? Ah, brindar,

entre o que tarda e o de súbito,

às vitórias sobre a morte,

até o último decúbito.

                                               (Milênios e outros poemas)

EPÍGRAFE

Sonha que escreve;

escreve que sonha;

quando sonha, escreve;

 

quando escreve, sonha;

tudo é o mesmo sonho;

fala em sonho: escreve.

 

Escreve em papel;

escreve no chão

do quintal, nos pássaros;

 

escreve nas nuvens;

escreve na água,

nos risos, nas mágoas;

 

escreve na lua,

no sol, no horizonte,

nas pedras, nos ramos;

 

escreve nos muros;

na falta de rumos;

escreve no escuro,

 

no claro; desperto

ou dormindo, escreve;

e escreve no vento.

 

Tudo escreve, escreve;

tudo e sobre tudo

escreve, escreve; e

 

depois ainda escreve

mais; escreve (e até

escreve que escreve)

 

para que a vida

seja um pouco menos

obscura e breve.

                                   (A cidade e os sonhos)

SONETO DO CORPO

Corpo de sol e mar, não me pertences.

Não me pertences – e, no entanto, em mim,

Ondeias e marulhas num sem fim

De amavio. E cintilas e me vences,

 

E me submetes – eu, o siderado

a teus pés. Eu, oi pobre. Eu, oi esquecido.

Eu, o último. O morto – e o renascido!

Tudo por teu poder, ó iluminado

 

corpo de brisa e pólen, ventania

e pedra! Harmônico e contraditório

e presente e alheio, flama e pena.

 

Feito de vida, enfim, desta alegria.

Em si. Porém em mim, campo ilusório

em que a memória pasce – e me envenena.

 

                                   (Morte Secreta e poesia anterior)

 

PAULO MARTINS

Baiano de Ipiaú, Paulo Martins passou a adolescência em Jequié, de onde migrou para Belo Horizonte a fim de fazer faculdade. A literatura e a política, no entanto, mudaram seguidas vezes o curso de sua vida: tornou-se meio nômade e meio aventureiro, tendo morado em inúmeros lugares diferentes, inclusive no exterior, acabando por aportar em Salvador, já em 1971, onde retomou sua vida de poeta, marcante desde sua adolescência. Tornou-se profissionalmente escritor e publicou alguns romances embasados nos anos de chumbo da ditadura militar, a qual combateu participando das lutas de resistência. É também ensaísta, pesquisador da canção popular, memorialista e, como autodidata, pratica o jornalismo, dedicando-se a escrever artigos políticos e literários, resenhas de livros e crônicas. Embora ainda não tenha publicado livro de poesia, só o fazendo em revistas literárias e blogs, possui produção para vários livros, que se prepara para editar. É autor dos romances Glória partida ao meio, Adeus, Fernando Pessoa, Até breve, poeta, A história de Roque Bragantim e os ensaios críticos Jacques Brel – A magia da canção popular e As Diabruras de Orfeu. Ele próprio selecionou os 4 sonetos, assim como o poema livre Arbitium Altiorem Infinitum, aqui publicados.

ARBITRIUM  ALTIOREM INFINITUM

                        Poema inspirado na ordem do Presidente Ernesto Geisel

                        de execução dos guerrilheiros do Araguaia

 

Mirou no coração da moça:

─ Buuum!

Ela tombou com os seios sobre a lama

tingindo-a de vermelho.

Mandou cortarem sua cabeça,

(para troféu no próximo desfile),

e jogarem seu corpo na fogueira.

Era a última de tantas e de tantos,

que demandara anos de metralha.

 

O povo presente perguntou:

Por que o soldado a matou,

se a moça estava presa e amarrada?

O soldado respondeu:

─ Por que o cabo deu ordens de matar.

E por que o cabo ordenou?

─ Porque tinha de obedecer ao sargento.

E o sargento podia dar ordens de matar?

─ Sim, o subtenente mandou que o fizesse.

Por que o subtenente deu a ordem?

─ Deu cumprindo instruções do segundo-tenente,

que obedecia ao primeiro-tenente,

que seguia determinações do capitão.

Mas por que o capitão mandou matar?

─ Para satisfazer as sentenças do major.

E por que o major sentenciou tal morte?

─ Porque assim decidiu o tenente-coronel.

E por que o tenente-coronel assim decidiu?

─ Por determinação do general-de-brigada.

Por que o general-de-brigada tomou tal decisão?

─ Por ordem do general-de-divisão.

Por que o general-de-divisão deu esta ordem?

─ Por determinação do general-de-exército.

Por que o general-de-exército determinou?

─ Para cumprir decisão do Chefe do Estado Maior.

Por que o Chefe do Estado Maior fez algo tão terrível?

─ O Comandante-Geral das Forças Armadas achou admirável.

E por que o Comandante-Geral desejou tanta carnificina?

─ Porque o Presidente considerou por bem mandar fazer.

 

Findos os trâmites e patentes,

desaparecidos os corpos,

ninguém teve culpa de nada,

ninguém pôde ser acusado de nada,

ninguém pagou por nada,

pois tudo não passou de coisa alguma:

o que nunca existiu não pode ter valor de prova.

 

Se alguém tivesse alguma culpa

seria apenas o Presidente,

sentado no mais alto degrau

da pirâmide de culpas e pecados.

Mas nem ele pode ser acusado de nada,

pois consta que um querubim

cochichou ao seu ouvido,

que aqueles homens e mulheres,

do primeiro ao último da fila,

não mereciam viver.

E assim, o Presidente ordenou

suprimir suas vidas

porque a morte tudo apaga

e tudo pacifica

e ele não podia descumprir ordens

que vinham das alturas.

 

                                                           Lisboa, 2023

 

QUATRO SONETOS DE AMIZADE

 

1.

SONETO DE UMA FESTA VIRTUAL

 

Ao amigo e poeta Florisvaldo Mattos

no dia em que completou 88 anos

 

Nesses dias insípidos e insanos

de quarentena e de medo da morte,

lembrei de alguém de venturosa sorte,

que hoje completa oitenta e oito anos!

 

É uma grande efeméride na corte

de Dioniso, que nunca foi vegano

ou abstêmio, mas um veterano

de queijos e de vinhos, que são seu forte.

 

Nesta casa onde nunca estou sozinho

preparo, então, meus pratos e meu vinho

p’ra compartir degustações e olfatos

 

com todos os que estão a esperar

a preciosa hora de brindar:

─ Viva o Poeta Florisvaldo Mattos!

 

Lisboa, 8 de abril de 2020

 

 

2.

NAUFRÁGIO

                        A Ruy Espinheira Filho, que nos anos 70 tinha uma coluna

de crônicas chamada Temponâutica, na Tribuna da Bahia

           

Eu ancorava sonhos e esquadras
na rua Temponáutica, no tempo
em que meu pai traçava lotes, quadras,
mapas, em dias plenos de bom-tempo.

 

Só restam hoje umas ruelas magras
fugidas do traçado. Oh contratempo!
Não vou mais navegar nessas esquadras
das crônicas heroicas do bom tempo.

 

Foi ocupada pelos pescadores
cujos saveiros não mitigam dores
de uma vida que finge não passar.

 

Temponáutica: um mastro derreado!
Náutica: um velho porto abandonado!
Tempo: um barco sempre a naufragar!

 

 

3.

SAUDADES DE ÀNGELO ROBERTO

 

                                               Ao querido amigo-irmão Ângelo Roberto,

que adorava sovaco de mulher

 

Meu caro amigo Ângelo Roberto,

ontem lembrei-me muito de você

ao avistar no mar de Mucugê,

uma mulata em pelo, a céu aberto.

 

Exclamei, deslumbrado e boquiaberto:

─ Que fêmea! Que pedaço de mulher!

E sei bem que era o mesmo que você

faria se estivesse ali por perto.

 

Mas não foi pelos seus etruscos seios

nem pela bunda equina, que me veio

esta lembrança ─ acode-me deus Baco!

 

Foi mais por esta esdrúxula coisinha:

ao acercar-me dela, vi que tinha

duas negras trancinhas no sovaco.

 

                                   Arraial d’Ajuda, julho de 2001

 

 

SONETO DO AMIGO BÊBADO

                                   Para o amigo-irmão Tuna Espinheira, in memoria

 

Desce a primeira, ríspida, cortante,

das tantas que sugere o nosso intuito.

E outras mais nesta tarde delirante

Em que ele pouco fala, mas diz muito.

 

Abordamos um mundo transbordante

de amor, e – por que não? – também gratuito.

O tempo para e por um longo instante

não fala quase nada, mas diz muito.

 

São várias dúzias de garrafas, antes

que o bar se feche e músicas cortantes

embalem nosso andar triste, fortuito.

 

Em casa esvaziamos as restantes

garrafas que sobraram nas estantes

e ele já nada fala, mas diz muito!

                                   Salvador, 10 de junho de 2017

 

 

 

 

 

 

WALMIR ROCHA PALMA

 

O poeta, músico, cantor e compositor Walmir Rocha Palma nasceu em 21/05/1952, em Santo Antônio Além do Carmo, Salvador, BA, filho de Angélica Rocha Palma e Victorino Palma Filho. Estudou nos Colégios São José, ICEIA e Central da Bahia, até ingressar na Faculdade de Música, onde recebeu o título Honoris Causa pela UFBA. Walmir esteve presente em fatos importantes da história de Salvador e da MPB; musicou a peça Sabará de Aninha Franco; frequentou espaços importantes da intelectualidade baiana como o Quintal do Raso da Catarina de Franco Barreto; e interagiu com pessoas ilustres, desde ritmistas da música de raiz como Pintado do Bongô a artistas, intelectuais e políticos, como Ângelo Roberto, Caribé, Capinan, Xangai e Haroldo Cajazeiras. Era amigo da presidente Dilma Roussef. Sócio fundador do PT, participou de muitas caminhadas políticas; foi abençoado por Mãe Meninhinha do Gantois e pela querida Cirá; e representou o Brasil no “Festival da Maçana” em Buenos Aires, onde deixou um filho, Gabriel, e uma neta Keyla Isabella, para quem fez uma bela canção.

Walmir acabou de partir deste mundo, em 28 de janeiro de 2026, aos 73 anos, em consequência de um câncer avançado nos pulmões, do qual ninguém sabia. Agora canta com os querubins. Esta publicação é uma oportuna e sincera homenagem do jornal Estrategizando, cujos leitores da Bahia o admiravam pelo seu domínio do violão, sua sensibilidade na composição de canções, que sempre escaparam dos modismos atuais e seu espírito festivo e amigável. Deixou inúmeras canções gravadas, boa parte delas pela grande cantora Rosa Passos. Mas seus poemas ainda são inéditos em livro. Musicou o poema Ciência de Drummond, e este, ao ouvi-lo por intermédio de Olga Savary, declarou que jamais iria se lembrar dele fora da canção.

   Sobre Walmir, diz sua ex-companheira e estudiosa de sua obra Lilian M B Pacheco: “A cada estrofe um campo de significação; de pronto a memória é concebida através do imaginário; uma ruptura, um desdobramento, uma duplicação se entrelaça à cena que passa de novo, na sensação do já vivido, no cheiro conhecido das palavras; e adentramos o mundo das emoções e a fronteira entre o real e a ficção se desvanece, tanto para o indivíduo quanto para a história, assim como na literatura e nas artes como um todo.” (…)

“A memória é filme, uma narrativa contada sobre algo que a precede, o sujeito se posiciona em duas cenas, a atual e a primária (ou pelo menos anterior). Cenas vividas em tempos diferentes. O inconsciente cuida muito bem das nossas lembranças, do campo do imaginário e numa linguagem própria ao devaneio ou à estética, retoma o registro, a história. No fundo, trabalha apenas com os restos diurnos.”

 

 

MEMÓRIA

 

A memória é filme que passa de novo!

A rua, a casa, noites, tardes, manhãs...

Abre portas no tempo, com seu único olho...

Traz à tona os sagrados com sua mão pagã.

 

Juíza inconteste das nossas lembranças,

entra em nossas gavetas, desenterra segredos...

E expostos aos brios, hesitações e medos

somos postos na tela, com um único traço.

 

Que seria a história senão verdades idas,

inesgotáveis compêndios sobre o que há de vir?

Nos clichês da memória por certo pulsa a vida,

no seu estranho segredo de não ter mais fim.

 

Inda que não queiramos, feitos de lembranças,

as que nos venham ferir, ou nos cobrir de glória,

não passamos de livros, telas, filmes, dramas...

Somos só o registro,

Salvo falte a Memória

 

A VIDA, A NAVE E EU

Já consultei o tempo

e o tempo não há.

O raio vibra no presente do passado

 

Nem no espaço

esse tempo irá vibrar

a luz que vem veloz num tempo impassável

 

Um meteoro vem em nossa direção

como se tudo se passasse num segundo.

Parece máscara de pedra de vulcão

e o holograma imprime o medo pelo mundo

 

No mar aberto voa a rede e o pescador

espera a seta pelas lentes de Orfeu

Um peixe bom que mate a fome, o ódio, o medo

a vida ao ver que o mar imenso é todo seu

 

Às vezes paro para sentir humanidade

Ao ver um filme onde o amor enlouqueceu

a pena, o livro, o quadro, as luzes da cidade

já não há tempo: eis a vida, a nave e eu.

 

 

UMA GOTA DE AMOR PARA CUBA

 

Una gota de amor puede callar a la voz tirana

La voz enemiga se pierde frente a

La voz hermana

Somos la voz que canta el amor en una

Rumba cubana

Por una patria libre, la patria latinoamericana

 

La fuerza bruta mata, pero la llama

Nunca se apaga

La esperanza vuelve con la ternura en

Nuestra alma

Hermano latino, yo no le pido piedad ni plata

Quiero su conciencia en la construcción de

La patria amada.

                                   (Letra musicada por Walmir Palma)

 

CALMARIA

 

Pouco de CÉU

Quase de SOL

Pouco de VENTANIA

 

Quase de DOR

Pouco de MAR

Quase que nasce o DIA

 

Meio VOCÊ

Meio VERÃO

Meio minha CANTIGA

 

Pouco de MIM

Meio VOCÊ

Quase de CALMARIA

 

 

ESPANTALHO

 

sentia como dádiva

lavar-se com gotas de orvalho

já que dormia debaixo de uma generosa árvore

com visíveis raízes, que lhe serviam de cama

 

─ espantalho!

 

assim o chamavam por sua aparência:

roupas quase trapos (limpas)

chapéu de desfiado palhas na borda

barba longa esbranquiçada

às vezes em pé

por vezes agachado

olhar longínquo

 

─ espantalho!

 

garotos repetiram rindo

coisas de garotos.

as moças; ─ parem com isso meninos!

e os dias se passavam!

 

às vezes espantalho sumia um, dois, cinco dias

e todos se perguntavam: ─ será que morreu?

e de repente, lá estava ele,

olhando o infinito à sombra da árvore.

 

  

NARLAN MATOS

 

Narlan Matos  é um poeta que se pode chamar de baiano-americano, ou baiano-universal. Tendo nascido em Itaquara, Bahia, em 1975, vive nos Estados Unidos desde pouco depois que concluiu sua graduação em Letras na UFBA. É autor de 8 livros de poesia, alguns publicados no Brasil e boa parte deles na Rússia, Romênia, Eslovênia, Itália, Japão, Espanha e Costa Rica. Fez mestrado na Universidade do Novo México e doutorado em literatura e cultura brasileira na Universidade Illinois, nos Estados Unidos. Tem poemas traduzidos para inúmeros idiomas, como esloveno, inglês, espanhol, italiano, japonês, chinês, russo, vietnamita, lituano, hindi, sueco, croata, espanhol, francês, romeno e alemão.

 

Sua fortuna crítica rompeu as fronteiras da Europa, Ásia, África e Américas. É comparado ora a Pablo Neruda, ora a Maiakovski, mas é impossível a reprodução  integral das avaliações de sua obra no curto espaço desta apresentação. Tem sido cogitado por diversos críticos como o único brasileiro apto a receber o Nobel de Literatura. Para ilustrar este relato sobre a sua vida, transcrevemos abaixo o que disse o grande crítico romeno Constantin Severin:

 

“… seus poemas universais são de tirar o fôlego, um pouco como os de Pablo Neruda (acho que você também terá a chance de ganhar o Prêmio Nobel no futuro) e você tem o raro poder de transformar histórias biográficas detalhadas em mitos verdadeiros. Na minha opinião a sua poesia é forte e muito comovente. Acho que você é a voz mais forte da América Latina hoje, com todas as suas tragédias, belezas selvagem e estilo de vida dinâmico. Sua escrita é um verdadeiro samba com palavras, sentimentos e limites.”

 

Narlan estreou na literatura com Senhoras e Senhores: o amanhecer (Prêmio da Fundação Casa de Jorge Amado 1997), ao que se seguiram No acampamento das sombras (Prêmio Xerox de Literatura Brasileira, 2000); Elegia ao Novo Mundo (2012); Eu e tu, caminheiros desta vida (2013) Um alaúde, a Península e teus olhos negros (2016); Canto aos homens de boa vontade (2023, Prêmio da Academia Romena de Letras de 2024); Rebanhos de estrelas (2024) e outros, além de publicações em revistas literárias mundo afora.

 

Narlan Matos foi professor na George Washington University, nos Estados Unidos. Vive em Washington DC, com sua esposa Krista Anderson e seus filhos Yannik e Kiaan. Seus poemas aqui publicados são do livro Narciso selvagem.

 

século vinte e um

 

sonhamos cada vez mais sonhos alheios

os nossos, já não sonhamos

 

pensamos cada vez mais pensamentos alheios

os nossos, já não pensamos

 

sentimos cada vez mais sentimentos alheios

os nossos, já não sentimos

 

desejamos cada vez mais desejos alheios

os nossos, já não desejamos

 

dizemos cada vez mais palavras alheias

as nossas, já não dizemos

 

amamos cada vez mais amores alheios

os nossos, já não amamos

 

e vivemos cada vez mais vidas alheias

porque as nossas, já não vivemos... 

 

canção do povo

 

quero entoar um canto ao povo

como quem oferece uma prece

às almas perdidas do purgatório

como quem à noite e anônimo

rouba um amigo do manicômio

 

quero entoar um canto ao povo

para ser cantado nas ágoras

com a harpa e a cítara e a lira

para ser estrela nos infernos

e fresco como um oásis

para as caravanas do deserto

 

quero entoar um canto ao povo

para cicatrizar a ferida e a dor

fazer nascer um arco-íris sobre

a loucura o desespero a solidão

e decretar por lei, por evangelho

que a única estrada agora possível

− a única − é a estrada do amor

 

quero entoar um canto ao povo

que parta como uma epopeia

que escave o pretérito mais-que-perfeito

e encontre a Grécia Antiga

morta por debaixo da hera esquecida

no altar dos deuses do Olimpo

a tocha perdida para juntos eu e tu

repartirmos de novo de mão em mão

                     o fogo sagrado da vida.

 

 

os degredados da Terra

 

alta noite nos altos nos céus

o luar coberto de véus

de nuvens muito escuras

vê-se na vasta noite

quem são aquelas criaturas

que se lamentam e vagam

pelos esconsos da Terra?

que choram e soluçam

perdidas na escuridão

estes desgraçados mortos

feito espectros, quem são?

são os caídos filhos de Caim

arremessados neste desvão!

é a turba que purga no vale

da sombra no desterro sem fim

é quando de repente troando

nas alturas ouve-se uma voz

doce como uma harpa

estridente como um canhão

no alto de uma escarpa

mas que voz é esta

gritando na amplidão?

é a voz do poeta

clamando a multidão!

e o que pede o poeta

aos gritos, então?

que ergamos as cabeças

que levantemos do chão!

que cantemos a lira

na clave do coração!

que façamos uma pira

para iluminar a escuridão!

não sabe a populaça

que sua maior desgraça

é a falta de união?

o povo em uníssono

responde “não!”

e ao ouvir tal resposta

explode no universo um trovão!

e ouve o poeta que detrás

dele do nada gargalha Satanás

praguejando num silvo grita

“Jamais!”

e prossegue o poeta:

ah, o povo na praça

de mãos dadas à esperança

é a força da populaça!

a sanha dos tiranos

será varrida pelos anos!

e o povo se ergue na ágora

e em voz alta lhe indaga:

e o que faremos agora

pois não temos adaga?

e o poeta de novo brada:

acendei uma fogueira

que queime noite afora!

acendei a tocha e a pira

oh, preparai a aurora!

o amor é a arma do povo!

e o que mais clama o poeta

que a multidão de si desperta

para ouvir o seu clamor?

que o povo cante na Terra

o estribilho da quimera

oh, não deixeis a praça deserta

porque a praça é do povo

como o céu é do condor

e a multidão de si desperta

pergunta então ao poeta:

“E o que vence o terror?”

e responde-lhe o poeta

com seu brado de condor:

só vence o terror a legião do amor!

e o que mais clama o aedo?

há que vencer a legião do medo!

e se Deus pudesse nos falar
o que então ele nos diria?

a arma do povo é a alegria!

que diria ele a esta criança?

a arma do povo é a esperança!

e o que mais clama ele de pé?

a arma do povo é a fé!

o que mais clama o poeta

afiado feito uma seta?

liberdade igualdade fraternidade!

de repente ao seu lado

ao clarão da lua

surge Têmis, a deusa grega

da justiça, nua!

mas agora desperta

se arrepia a populaça

que antes jazia em sua

própria desgraça

que antes dormia

e agora prepara-se para

sem espada nem brasão

combater abnegada o revés

mas oh que nobre visão

vai ela agora, a multidão

na carruagem de seus pés!

pelas ruas pelos campos

nestas noites de prantos

onde a história é pálida

é fria é morta é esquálida

resta apenas à populaça

abraçar-se com bondade

na vasta praça da piedade

acender uma chama na noite

a isto chamamos revolução!

construir a vida o século

tendo na boca um ósculo

tendo nos lábios a canção

e prossegue o poeta:

guardai da morte

o fogo sagrado da vida!

ide, ide e pregai o sol

como uma verdade!

ide, ide e pregai a lira

como evangelho!

pregai a Natureza

como um espelho!

 

noite alta nos altos céus

o luar agora despido está nu

e agora brilha claro

no anfiteatro da noite azul.

e ao ouvir seu clamor ao vento

tal qual rasga o casco a espuma

a noite se converte em bruma!

é o poeta que desarma o tempo

com o condão de seu gênio

e com seu dedo de hidrogênio

cintilante no escuro

aponta para o futuro!

 

e que voz foi esta

gritando na amplidão?

foi a voz do poeta

despertando a multidão!

e o povo que antes era escravo

agora renasce bravo!

e o povo que antes era tristão

renasce impávido como um titão!

e indaga cheio de graça e gratidão:

quem foi este arcanjo

tocando a harpa dos anjos

que nos tocou a alma e o coração?

quem foi este arauto do Verbo

que acaba de nos dizer adeus?

foi o poeta que desceu dos altos céus

trazendo uma mensagem de Deus!

 

 outra história do Brasil

 

   é a Aclamação de Amador Bueno

   a Revolta da Cachaça

   a Conjuração de Nosso Pai

   a Revolta dos Beckman

   a Guerra dos Emboabas

   a Revolta do Sal

   a Guerra dos Mascates

   os Motins do Maneta

   a Revolta de Felipe dos Santos

   a Conjuração Mineira

   a Conjuração Carioca

   a Revolta dos Malês

   a Conjuração dos Alfaiates

   a Conspiração dos Suassunas

   a Revolução Pernambucana

   é a Confederação dos Tamoios

   a Revolta de Mandu Ladino

   a Guerra dos Muras

   o Quilombo dos Palmares

   a Sabinada

   a Independência da Bahia

   é Luiza Mahim

   é Anita Garibaldi

   é Maria Quitéria

   é Maria Filipa

   Zuavos baianos na Guerra do Paraguai

   é o mulato Calabar

   é tudo que já não se pode

   mais calar

 

   é a outra história do Brasil

   do outro Brasil, proscrito

   de sua própria história

   escrita pelas mãos do povo

   − que ainda não foi escrita

   em nossa história.

 

manhãzinh

manhãzinha
caminhando por entre canteiros
o sol me desperta de um profundo esquecimento
o jardim orvalhado é pura memória
o jardim é um mural de aromas
e de cores fortes de raras matizes
vozes de outras épocas ecoam perdidas
entre a lucidez e a loucura
entre o doce e a amargura
enquanto caminho lento
folheio o álbum da memória
fotografias amareladas vidas idas
o passado quando olhado nos olhos
é mais real que a retina do presente
entre flores de raros nomes
reencontro caminhos perdidos
amores torcidos como caules mortos
o sol derrama sua claridade sobre o jardim
e sobre minha vida
os pássaros cantam nos ninhos
e voam na labuta da sobrevivência

vou entre os canteiros em busca

ou quiçá fugindo de mim mesmo
quanto sabe de minha vida secreta

      e perdida esse jardim!

o passado é uma ilha de onde ninguém jamais escapou 

ANTONIO BRASILEIRO

Antonio Brasileiro, poeta de grande sensibilidade e de poucas palavras, de expressão  extremamente concentrada e sutil, nasceu nas Matas do Orobó, sertão da Bahia e passou a maior parte de sua vida em Feira de Santana, onde se dedica à sua obra literária e artística e à atividade docente na UEFES. Participou, nessa cidade, de diversos movimentos literários, como o do grupo Hera, que girou em torno da revista de mesmo nome e reuniu jovens em início de carreira literária e artística como Roberval Pereyr e Juracy Dórea, entre outros. Importante legado que se deve também a Antonio Brasileiro é a Revista Serial, que deixou sua marca na história literária da Bahia, possibilitando a projeção de poetas novos e desconhecidos na época.

Mas Antonio Brasileiro não é apenas poeta. Na verdade, sua vida se divide meio a meio entre a poesia e as artes plásticas. Se, como poeta e escritor, já publicou mais de trinta  livros, como artista plástico já participou de uma centena de exposições, tendo, inclusive ilustrado alguns de seus próprios livros. Entre as obras de Antonio Brasileiro, pode-se citar Desta Varanda; Longes terras; Poemas reunidos (2005), Lisboa 1935 (2015);  Como aquela montanha (2018); Poesia completa (Volumes 1 e 2, 2021/2022), Concerto para Alaúde e eucaliptos ao vento (2025) e outros. É autor também do ensaio crítico Da inutilidade da poesia (2012), do romance Caronte (1995) e do livro de contos Memórias miraculosas de Nestor Quatorzevoltas (2013), entre outras obras de ficção.

Sobre ele, escreveu a saudosa poeta baiana Miriam Fraga: “ O que faz o encanto da poesia de Antonio Brasileiro é ser tão intensamente lírica e ao mesmo tempo tão intensamente ligada aos acontecimentos exteriores. Dir-se-ia que a voz do poeta, filtrada pelo sentimento do eu lírico, amplia-se à medida em que encontra ressonância no sentimentos do mundo.”

Já Alexandre Bonafim assim se expressa: “A poesia de Antonio Brasileiro vibra como concerto em que cada palavra soa ao vento, repleta de encantamento e mistério. (…) A infância perdida, o outro distante, a divindade selvagem e a palavra em sua explosão sinestésica compõem uma constelação de imagens que convertem a vulnerabilidade humana em energia criadora. (,,,) diante da morte, da perda e do tempo, a poesia oferece lampejos de beleza, que cintilam como estrelas na concha da mão, no mais íntimo de nossas emoções.”

 

 

FADA

 

1.

Sabes acaso quem é aquela moça só? Chama-se Fada.

Mas quem dera ser qual a fada das histórias.

Aquela que ali está é triste e só.

Vive sozinha, dorme sozinha e sorri pouco.

Diz-se ter coração de poucas festas –

e é certo. Não é de festa seu coração. E mora ali,

no apartamento ao pé do morro.

Só dá bom-dia e boa-noite. E é só.

Sou seu vizinho e sei. Fada não é má.

Observamos quando ela sai ou chega:

o andar miúdo de um pássaro.

Fada não é apenas triste e só:

envelheceu. Vaidades? Fada não tem.

Veste-se como um espartano em dia de sábado.

Não teve homens, talvez, em sua vida.

Ou os teve rápido. E não há sentido

algum no que só passa.

Apenas uma vez alguém entrou ali,

naquela casa. Não foi a mãe, nem o pai,

o irmão, a amiga. Só um funcionário

da Sucam.

Não é de poesia

que se faz sempre uma vida.

A presença de Fada, com sua ausência,

preenche também um pouco minha existência.

Por que certos destinos são tão duros?

Fada, a só, não é só Fada, a só. É tudo

que pode traduzir a alma humana:

a imprestabilidade desta vida,

no fundo, pó. No fundo, sequer dor,

pois há grandiosidade em toda dor. Não

na de Fada. Às vezes

penso que ela nem é mesmo triste. Apenas

só. Mas não só como a árvore

frutífera, a nuvem escura, Deus no princípio.

Mas um só triste e merencório só,

como o da lua lua lua dos boêmios.

Fada sequer foi bonita. E está magra.

Sempre foi magra. Apenas ficou velha. E não ri.

Para que servem mulheres magras, velhas,

sérias? Para

refletir.

Aquela moça só sou eu, pensei um dia.

Parece-se com a estrela que carrego, fria.

 

2.

Aquela que ali está, regando plantinhas,

talvez não saiba muito mais da vida

que nós. Não sabe, sim. Que saberia

uma mulher como Fada, a só,

que sequer teve um noivo que se foi,

uma razão maior, um quê

de escuro? Rega

caqueiros

como

quem anda ou respira.

Mas não ama, não abraça, não suspira

por nada: está em paz.

Mas Fada não é sábia.

É só isto.

E nem é paz, pois paz é a sesta.

Não houve guerras em Fada. Rega

suas flores sem um sorriso nos lábios.

Talvez por isso sejam elas tão pálidas.

A flor e Fada: dois enigmas? Só

  1. Pálida, ainda assim é A Flor.

Não a moça. Não, não aquela moça

que se esqueceu de si e me incomoda.

Não me incomoda: enternece. Nem

enternece mais: existe aqui, na palma

da minha mão, como um poema

que urge urge urge ser extravasado. Fada,

a bela. A perfeição. O nada.

 

3.

Mas isto é só poesia. A moça

é que é real. Ninguém liga pra ela onde ela mora:

porteiro, síndico, menino, o homem

que vende jornais, o verdureiro, as pias

senhoras eqüilinas em seus trajes pretos,

ninguém, ninguém. Só eu

da minha janela. Fada não ri, não chora.

Passa.

Como se sequer não existisse.

Mas sei que ela existe. Há dez mil dias vejo-a

ali, regando umas plantinhas, magra, só.

Nenhum pedreiro entrou naquela casa. Nenhum

encanador, consertador de fogões – ninguém, ninguém.

Só o funcionário da Sucam, uma vez.

Cochichos da vizinhança, não há. Fada só passa.

Não como a nuvem que por só passar

ficou eterna: Fada passa como um cão

qualquer na rua.

E está ficando velha. Não senil, só velha

para a moça que é. Soubesse eu segredos

de uma moça!

Que passa

por Fada, que projetos traçou, que vê

quando se olha em seu espelho? O passado?

Se tudo foi sempre igual. Que

passou? Fada sonha? Houve uma vez

– ou duas – que a vi olhando para mim.

Quem sabe meu observá-la, de longe, a incomodasse.

Agora que rega suas plantas triviais,

talvez se incomode com algo a perscrutá-la.

E se voltar seus olhos para cá

– sinto pesar-me a mão –

acenarei.

 

QUE DEUS GUARDE MEU PAI

 

Não passar. Ficar para semente.

 

Não era isto que meu pai queria?

Sentava-se na rede e adormecia

julgando ter domado a dama ausente.

 

E sonhava talvez. Talvez menino

montando burros bravos, nu, ao vento;

um homem é a sua ação sobre o destino.

 

Meu pai então fazia um movimento

e a rede, a adormecer, estremecia:

pequenos sustos no tempo, era só isto.

 

E escancarava os olhos duramente

para mostrar que se Ela o procurava

era de cara a cara que a encarava..

 

Que Deus guarde meu pai. Eternamente

 

RUTILÂNCIA

 

Porque o mundo é mesmo tão imenso

e meu coração tão só um desastrado;

porque imensa é a alma, e o corpo

só um

relato;

porque não estamos aqui para um simples papo,

mas

para morrer

como todos o fazem:

eis que digo a mim mesmo: sê forte;

mas também digo: sê fraco,

pois tudo é rutilância e nós, passantes,

com nossa pressa e gula

para nada.

Mas justo porque o mundo é mesmo imenso

e imensa é a alma,

eis que escrevo e escrevo e escrevo e escrevo.

Por certo, para nada. Sim. Por certo, para nada

 

DAS COISAS MEMORÁVEIS

 

Um dia o mundo inteiro vai ser memória.

Tudo será memória.

As pessoas que vemos transitar naquela rua,

as gentis ou as sábias, ou as más, todas,

todas.

E o mendigo que passa sem o cão,

o ginasta, a mãe, o bobo, o cético, a turista.

Deus, inclusive, regendo o fim das coisas

memoráveis, também será memória. Deus

e os pardais.

E os grandes esqueletos do Museu Britânico.

Todo sofrimento será memória. Eu, sentado aqui,

serei só estes versos que dizem haver um eu

sentado aqui.

 

NUANÇA

 

Meus caminhos, meus mapas,

meus caminhos.

 

Tudo está em ordem

em minha vida.

 

Como se faltasse

alguma coisa.

CARLOS MACHADO

Carlos Machado é natural de Muritiba, BA, nascido em 1952. Cursou engenharia mecânica na UFBA e jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É jornalista e poeta, tendo trabalhado em importantes órgãos de imprensa do país. Publicou vários livros de poesia, entre os quais Pássaro de vidro, (2006), Tesoura cega (2015), A mulher de Ló (2018),  Cicatrizes (2023) e Cais da Memória (2024), tendo ganhado o Prêmio Cláudio Willer da UBE em 2025 com o livro inédito Relógio sem rosto, ainda inédito. É muito conhecido no Brasil e no exterior por publicar o site Alguma Poesia e a página poesia.net no Facebook e no Instagram, também encaminhada para milhares de assinantes. É um dos mais importantes trabalhos de divulgação da poesia brasileira que já se fez no país. Recentemente, publicou pela Editora Cavalo Azul uma Antologia de poemas de todos os seus livros, com o título de Vieram me chamar para ver o anjo. É dessa antologia que colhemos os poemas aqui publicados.

Do poeta Carlos Machado diz o crítico e editor Alexandre Bonafim:

“A poesia de Carlos Machado é construída com a exatidão de quem sabe que cada palavra deve justificar a própria existência. O poema é o lugar do rigor, uma forma de pensamento que se mantém fiel à experiência, mas filtrada por uma linguagem que recusa o excesso. “

E ainda:

 “A denúncia do racismo, a crítica à violência patriarcal, a evocação das vozes silenciadas pela história e pela cidade, emergem sem retórica, inscritas na própria estrutura da linguagem.”

Realmente, em Cicatrizes ─ um de seus mais importantes livros ─ sem fugir uma sílaba sequer da linguagem poética que lhe é peculiar, Carlos Machado traça um libelo fundamental contra o racismo e suas marcas indeléveis no país, ainda nos dias de hoje. De um modo geral, a lucidez e o rigor guiam sua construção poética; muitas vezes eles se convertem em ato de confronto direto com a realidade vivida e rejeitada, assim como com tudo o que envolve a condição humana. E sempre embutindo uma reflexão profunda e essencial dessa realidade, que ele condensa, com seus versos curtos e precisos, sem desperdícios verbais, tornando-os essencialmente contundentes.

 

Homem-bomba

em que pensa

o homem-bomba

no exato

momento

de olhar o pino

e estancar o tempo?

 

em que pensa

o homem-bomba

na hora imensa

em que o sangue

se adensa

e todos os sóis

e todos os poros

e todas as luas

do universo

projetam

forças vorazes

de gravitação na

explosiva

nave de

seu coração?

 

em que veia

crava o

medo crava

seus tentáculos?

em qual

infinitésimo e

de segundo

a mão trêmula

avança para

o pino

vence a inércia

de ser vivo

que deseja

permanecer

capaz de semente

─ não de ideias

mas de

carne viva?

                        (Pássaro de vido)

 

Mapa

De certo, apenas a incerteza.

O copo branco sobre a mesa

e esta aspiração de domingos.

De certo, a morte e seus respingos.

 

O menino azul quer um mapa,

carta de agir, segura e exata.

Quer seguir rijo, reto e justo

para justíssimo lugar

 

O que, então, responder? Desiste,

esse lugar não há e ─ triste! ─

não há mapa, nem portulano,

nem porto lhano onde ancorar?

 

Como dizer? Menino, os mapas

não são roteiros de achamento,

mas tênues direções de vento

para quem só busca o buscar.

                                   (Tesoura cega)

 

Xeque-mate

Quando menos se espera já são horas.

A dama de espadas perde o gume

e o pássaro pousado vai embora.

 

Quando menos se espera, o que se anuncia

não é a sorte grande, a estrela Aldebarã

ou a sagração da primavera.

São tempos de abutre

e o coração, músculo bélico, fraqueja.

 

De repente, já é sábado,

há uns assuntos desagradáveis para resolver

e, sobre a pele confusa da alma,

uma densa crosta de óxido e desalento.

 

Quando menos se espera, o rei está em xeque,

e é dezembro.

Há uma complicação de trânsito

na avenida

uma artéria que não dá passagem.

Quando menos se espera, já é tarde.

                                   (Tesoura cega)

 

Signo

A mulher de ló é o sal da terra.

É o grito do não

nos tribunais do silêncio.

 

A mulher de Ló

proscrita e sem nome

é a primeira fêmea insurgente.

 

A mulher de Ló

é a primeira sílaba

de toda palavra de libertação.

                        (A mulher de Ló)

 

Prisão

Hora da revista

no pátio das mulheres.

 

A guarda armada berra

lá de cima:

─ Quem é aqui a mulher de Ló?

 

E todas gritam,

Inclusive aquela eu pergunta

─ Sou eu.

                        (A mulher de Ló)

 

Vozes

Você me pergunta se escuto vozes.

Às vezes, sim.

São cantos de pássaros,

ecos de infância.

 

Ou então, vozeios mais longínquos,

Ruídos, gritos de sequestrados

Vozes d’África.

 

Sim, escuto vozes,

Às vezes, canções de ninar.

Às vezes, gritos atrozes.

                                   (Cicatrizes)

 

Idioma

 

O primeiro idioma

que me ensinaram

foi a língua rubra do fogo.

 

Aprendi a conjugar

Essa língua

que tem sílabas de ferro

e ritmo de logro.

 

Bebi sua sintaxe

dentro do leite materno.

 

Por isso às vezes as palavras

me queimam

como ferro em brasa.

                        (Cicatrizes)

 

Onde

 

Onde se perde o vento do destino

sem ter como voltar à estaca zero:

onde se quebra o fio que o menino

atado ao sonhos, frágil quero-quero;

 

onde os cavalos da manhã, tardios,

trotam sem rumo certo nas calçadas;

onde os silêncios se enchem de cicios

e se perdem sem sol sob as escadas;

 

onde o cruzeiro sólido, vigia

a passagem do tempo na ladeira;

onde o relógio bate ao meio-dia

e a dor antiga dorme a tarde inteira;

 

aí resido. Aí suspendo a casa.

E o cento vem. E o pássaro é sem asa.

                                   (Cais da memória)