Há guerras que não começam com tanques, nem com mísseis, mas sim com taxas aduaneiras. E a história recente está a mostrar-nos que o impacto económico e social destas ofensivas pode ser tão devastador como o de uma guerra tradicional.

Donald Trump, antigo e potencial futuro presidente dos Estados Unidos, parece disposto a puxar o gatilho de uma nova guerra — não militar, mas económica — que poderá redefinir a ordem mundial.

Desde o seu primeiro mandato, Trump deixou claro que via o comércio internacional como um campo de batalha. A sua obsessão com o défice comercial com a China foi o ponto de partida de uma cruzada tarifária que se alargou a vários países, aliados incluídos. Agora, à medida que se aproxima das eleições presidenciais de 2024 (ou 2028, dependendo do desfecho futuro), o magnata volta a prometer tarifas massivas — 10% sobre todas as importações e até 60% sobre produtos chineses.

Mas o que está verdadeiramente em jogo?

A estratégia do caos

Trump sabe — ou pelo menos intui — que os EUA não conseguem vencer a China com as armas clássicas da diplomacia ou da competitividade económica tradicional. Por isso, aposta numa espécie de “reset” forçado ao sistema económico global. Ao desestabilizar cadeias de abastecimento, aumentar os custos para consumidores e empresas e forçar países a reorientar os seus mercados, os Estados Unidos tentam recentrar-se como epicentro do mundo.

Esta táctica lembra-nos uma frase célebre do general chinês Sun Tzu: “A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar.” No caso americano, a inversão da lógica aplica-se: provocar o caos pode ser o único caminho para tentar dominar. Se o mundo entrar num estado de confusão económica generalizada, talvez — e só talvez — os Estados Unidos consigam colher alguns dividendos de curto prazo.

Mas a que custo?

Uma guerra sem tiros, mas com vítimas

As tarifas funcionam como minas económicas. Disparam o preço de produtos, geram inflação, criam escassez e destroem empregos — principalmente nos países que mais dependem da exportação, como os do Sudeste Asiático, Europa e América Latina. No entanto, o impacto volta sempre ao ponto de origem: os próprios consumidores norte-americanos acabam por pagar mais caro pelas mesmas mercadorias, enquanto as empresas perdem competitividade global.

Ao contrário do que Trump proclama, as tarifas não são pagas pela China, mas pelos importadores e, em última instância, pelos cidadãos norte-americanos. A Tax Foundation estimou que as tarifas impostas durante o seu mandato custaram aos americanos cerca de US$ 80 mil milhões em novos encargos fiscais, reduzindo o PIB e afetando mais de 300 mil empregos (Fonte: Tax Foundation).

Os riscos de um isolamento deliberado

Ao aumentar tarifas, Trump não está apenas a travar uma guerra contra a China. Está, na prática, a declarar guerra económica ao mundo inteiro — incluindo a parceiros históricos como a União Europeia, o Canadá ou o México. Trata-se de uma doutrina isolacionista que ameaça implodir décadas de diplomacia económica e cooperação multilateral.

No fundo, Trump parece crer que “se todos perderem, os Estados Unidos podem perder menos” — uma espécie de "America First, no matter the rest". Contudo, num mundo interdependente, a ilusão de uma vitória solitária esbarra contra a realidade da interconexão global.

A loucura estratégica ou o delírio de poder?

Se esta estratégia tem algum mérito racional, ele perde-se no ruído do populismo. A verdade é que esta cruzada tarifária poderá até beneficiar alguns setores específicos — como o aço, o alumínio ou certas indústrias locais — mas será desastrosa para a economia global. E o mais preocupante é que, ao usar o comércio como arma, os EUA estão a destruir precisamente o sistema que os ajudou a tornar-se superpotência: o liberalismo económico.

A dúvida que paira é se isto é parte de um plano calculado ou o resultado de uma visão delirante do poder e do mundo.

Conclusão: o mundo à beira de um colapso fabricado

Talvez a maior ameaça do “trumpismo económico” seja esta: a substituição da lógica de cooperação pela lógica da confrontação total. Não estamos perante um mero debate sobre taxas ou balança comercial. Estamos a assistir ao início de uma nova guerra — e, como todas as guerras, esta também terá vítimas inocentes.

Se o mundo não encontrar uma forma de resistir a esta loucura tarifária, corremos o risco de ver o planeta transformado num campo minado onde todos, mais cedo ou mais tarde, perderemos.

 

Fontes e referências: