Perante a situação, Freitas do Amaral não procurou escapatórias nem transferiu culpas. Arregaçou as mangas e assumiu integralmente uma dívida que não tinha criado sozinho. Fê-lo sem dramatização pública e sem transformar o episódio numa arma política. Optou por trabalhar.
Seguiram-se momentos duros, de grande exigência pessoal e financeira. Para fazer face aos compromissos, Freitas do Amaral recorreu ao seu saber jurídico. Preparou milhares de cartas dirigidas a empresários de todo o país, explicando a situação e solicitando apoio. Em simultâneo, intensificou a elaboração de pareceres em direito administrativo, área em que era amplamente reconhecido, utilizando esse trabalho especializado como principal meio para gerar rendimentos.
O processo foi longo e exigente. Cada parecer, cada contacto, cada pagamento feito representava um passo no caminho da responsabilidade assumida. Não houve atalhos. Tudo foi pago, até ao último escudo.
Este episódio das presidenciais de 1986 revela uma dimensão muitas vezes esquecida da política: a do carácter pessoal. Quando a palavra dada por outros falhou, Freitas do Amaral manteve a sua. Assumiu encargos pesados, trabalhou incansavelmente e honrou compromissos que poderiam ter ficado no limbo.
As dívidas das presidenciais de 86 não são apenas um episódio financeiro. São um testemunho de ética, responsabilidade e respeito pela palavra dada. Um exemplo raro, mas esclarecedor, de que na política, como na vida, há quem escolha cumprir, mesmo quando isso custa caro.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor