Há canções que não entram de rompante. Aproximam-se como quem pede licença, sentam-se ao nosso lado e ficam. “Amizade”, o novo tema de Cremilda Medina, pertence a esse território raro onde a música não grita, acolhe.

Lançado de forma quase confidencial a 31 de dezembro, o videoclipe surgiu como uma passagem de ano em tom baixo, mas com uma promessa alta: acompanhar-nos, em Morna, ao longo de 2026.

A Morna, música-rainha de Cabo Verde, é feita de silêncio habitado, de tempo lento e de emoções que não precisam de tradução. É nesse registo que “Amizade” se instala. A canção não corre atrás do aplauso imediato; prefere a permanência. Fala de laços que resistem, da presença que não exige palco, da intimidade que se reconhece sem palavras. Como escreveu Eugénio Tavares, mestre da Morna, “a saudade também sabe cantar”. Aqui, canta com doçura.

O videoclipe acompanha essa ética da contenção. A imagem é limpa, o gesto é mínimo, a paisagem respira. Cremilda Medina surge serena, quase em suspensão, deixando que o espaço, físico e emocional, faça o seu trabalho. Não há excesso, porque a Morna não tolera ornamentos inúteis. Cada plano parece dizer o essencial: a amizade não se exibe, vive-se.

Este lançamento funciona também como um prelúdio. Ao longo de 2026, a artista irá revelar, tema a tema, o álbum completo, um projeto guardado com cuidado, como quem sabe que a espera também faz parte da escuta. Num tempo de lançamentos apressados e consumo veloz, Cremilda escolhe o caminho inverso: o da maturação. É uma decisão estética e ética, alinhada com a tradição cabo-verdiana e com uma visão contemporânea de autoria.

A Morna, reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade, continua assim a reinventar-se sem perder a alma. Em “Amizade”, encontra uma intérprete que compreende o seu peso histórico e a sua leveza emocional. Não há nostalgia gratuita; há continuidade.

Como lembrava Amílcar Cabral, “a cultura é o fruto da história de um povo e, ao mesmo tempo, um fator determinante dessa história”. Cremilda Medina canta a história que continua.

“Amizade” não pede pressa. Pede escuta. E, sobretudo, pede que fiquemos.

Fontes e referências

  • UNESCO — Morna, prática musical de Cabo Verde (Património Cultural Imaterial da Humanidade): https://ich.unesco.org

  • Entrevistas e comunicados públicos da artista Cremilda Medina (lançamento do tema “Amizade”)

  • Tavares, E. — Obra poética (referência cultural da Morna)

  • Cabral, A. — A cultura e a libertação (pensamento sobre identidade e cultura)