Abro: a mensagem não é dele e sim de seu filho Ulisses: Alexei acaba de falecer. Aterrador. Chocante! Só pode ser fake -- penso. O sacana perdeu o celular e alguém o está usando indevidamente. Criando pânico. Que brincadeira de mau gosto!

De qualquer forma, tento esclarecer o incidente e abro o FB. Quem sabe? Logo depois, recebo uma mensagem de Ronaldo Cagiano, de Lisboa, pedindo a confirmação da notícia suspeita. Não demora muito para que eu consiga elucidar tudo: o poeta, ensaísta, tradutor, polemista e singular boêmio Alexei Bueno, realmente partiu para o outro mundo.

Nesse momento, tenho certeza de que, assim como eu, todos os seus amigos e admiradores estão desolados e atônitos. Choro aquele choro seco dos desesperados. O pior de tudo é que não há nada a fazer. Vai-se não apenas um amigo querido, mas também um dos maiores autores da literatura brasileira contemporânea, com apenas 63 anos de idade, uma vida demasiado curta para os dias de hoje.

Escrevo aos amigos comuns e continuo a fuçar o FB e outras redes sociais. Publicações vão se avolumando num ritmo espantoso. Parece que, de repente, não mais que de repente, o Brasil descobriu um gênio, ainda meio escondido. São crônicas, lembranças, declarações de amor e admiração, notas de pesar, pequenos ensaios sobre sua poesia e reprodução de seus melhores poemas, dentro das predileções de cada um. E fotos, muitas fotos. Ninguém quer ficar de fora do ostensivo obituário. Ninguém pode deixar de comentar a sua obra, vasta, genial, irreverente, subversiva, autêntica. Juntando tudo, pode-se reunir material para vários livros. E eu, devo dizer alguma coisa? Sim, também devo. Não por vaidade. Mas por obrigação de amizade e admiração. E por dever de ofício. Começo. Mas o que dizer? Parece que os que me anteciparam já disseram tudo, numa rapidez enorme. Fico meio à deriva. Mas vou escrevendo o que vem na telha.

A última vez que estivemos juntos foi no fim de 2022, no lançamento do meu livro “As diabruras de Orfeu”, no Restaurante Lamas, no Rio de Janeiro. Depois disso, nos falamos várias vezes e trocamos mensagens e textos. Estava aflito para revê-lo, mas não deu tempo. Um câncer de fígado falou mais alto e sorrateiramente: a morte, esta ceifadora impiedosa e traiçoeira, levou-o para outras esferas.

Em 2024, na passagem dos 500 anos do maior poeta lusófono, Luís Vaz de Camões, assisti à distância à sua conferência homenageando o autor de “Os Lusíadas” e fiquei tão fascinado com sua erudição e visão crítica que lhe telefonei para pegar o texto escrito e publicá-lo em Portugal, o que aconteceu no jornal on line Estrategizando, publicação bisada em 2025.

No dia 2 passado, ele esteve em Portugal, onde tinha muitos amigos, participando do IX Encontro Internacional de Camonistas, realizado na Biblioteca Nacional, em Lisboa, onde apresentou uma comunicação. Sua presença já se tornara imprescindível quando se tratava de falar de Camões. Era considerado um dos maiores conhecedores da obra do grande vate, de quem recitava de cor um sem número de sonetos. Por isso, era convidado frequentemente a partilhar seus conhecimentos  e saberes sobre o imortal Camões. Lamentavelmente eu não me encontrava em Lisboa, mas em Salvador, e não pude estar com ele. Mas não deixei de convidar amigos para o evento, lembrando que, em 1993, tinha sido ele o organizador da edição comentada de Os Lusíadas (acrescida de estrofes omitidas ou desprezadas, descobertas por Faria e Souza, e de importantes anotações). Era um verdadeiro craque no tema, para usar, com sua licença, um termo da moda.

Alguns anos antes, eu tinha assistido no Rio a outra conferência que ele pronunciou, patrocinada pela Academia Carioca de Letras, salvo engano na Sala Cecília Meireles. Daquela vez, discorreu sobre Machado de Assis, de quem também conhecia a obra como ninguém. E a palestra foi bastante singular, pois não versou sobre a obra de Machado em si, mas sobre sua endêmica ligação com a cidade do Rio de Janeiro e a influência dos diversos endereços onde havia morado na sua ficção, culminando na famosa casa do bairro de Cosme Velho, que resultou no epíteto de Bruxo do Cosme Velho. Esmiuçou todas as andanças de Machado pelos bairros do Rio de Janeiro e as diversas controvérsias existentes sobre este assunto. Quem se dedicaria a um trabalho desse, senão ele?

Empenhou-se também no estudo de Euclides de Cunha, pelo qual sempre se interessou, tornando-se um dos maiores conhecedores desse escritor-sociólogo no Brasil, tendo legado um ensaio emblemático sobre Os Sertões. Da mesma forma, foi um apaixonado pela poesia de Augusto dos Anjos e, certa vez, amanhecemos o dia nos bares da Lapa recitando sonetos do nosso maior poeta expressionista, sem faltar, é claro, o fantástico Versos íntimos, que ele adorava e usava quase como um mote de vingança para com os desafetos e literatos medíocres. Não podia deixar de ter sido, também, o organizador de suas Obras Completas.

Mas, por falar em desafeto, é preciso dizer que, embora duro e crítico, muitas vezes beirando o insuportável, Alexei era também uma pessoa afetuosa, um amigo terno, do mais alto coturno. Este era o seu lado paradoxal, que ele geria ora bem, ora mal, ora de forma singela, ora de forma bruta, pois não tinha papas na língua. Por exemplo, admirava, até certo ponto, as Forças Armadas, até mesmo porque seu pai era militar e seu avô (para quem escreveu uma pequena biografia), foi um pracinha-herói na II Guerra. Quem atacava as Forças Armadas não encontrava o seu apoio. E o pau quebrava. Eu mesmo já tive sérias discussões com ele sobre isso. Ao mesmo tempo era admirador do Papa Francisco e flertava com o cristianismo. Nesse aspecto, os ateus não tinham muita chance com ele. Mas isso era o de menos. As rixas mais duras aconteciam era em torno das temáticas literárias.

Já o vi brigar com deus e o mundo e dias depois abraçar os desafetos como se nada tivesse acontecido. De qualquer forma, não dava colher de chá: encrespava com tudo que ultrapassasse a sua linha de defesa de uma literatura autêntica e soberana, fundada na escola clássica e na supremacia da linguagem, que defendeu com unhas e dentes.  Tinha uma resistência feroz aos poetas da moda, em particular aos “concretistas” e outros “istas”, tão presentes nas jornadas literárias do nosso cotidiano. Da mesma forma, não nutria nenhuma simpatia pelas manias típicas da literatice enfadonha de certos círculos, que se apossou de tantos e tantos autores brasileiros, carregados de falsa glória e de leviana vaidade. De certo modo, resistia às academias, desdenhava das editoras que não o valorizavam como merecia, e cultivava sua marginalidade e rebeldia com independência, o que para ele era mais importante do que a presunção de “literato” que lhe quisessem atribuir. Por isso é que talvez seja mais sensato classificá-lo como um “poeta de botequim”: estudioso, cultíssimo e irreverente, era também um pornográfico, que se orgulhava de ter comido todas as putas da Lapa.

Para possuir a vasta cultura que lhe era peculiar, Alexei era um devorador de livros. Sua biblioteca, em seu apartamento de cobertura, na Lapa, para onde se mudou depois de vários anos no Flamengo, tem despertado curiosidade junto àqueles que por lá já passaram. Você entra e já começa a tropeçar em livros. Tem livro empilhado por todo canto, pois as estantes, distribuídas pelos diversos cômodos, já estão repletas. Livros pela cozinha, pelos banheiros, corredores, em cima das mesas, cadeiras, no chão e até no pequeno jardim da cobertura. Poderia ser motivo de um documentário cinematográfico ou de um estudo literário, pois, além da quantidade e variedade, engloba numerosas obras raras, documentos preciosos e cartas e objetos de alto valor para a historiografia da literatura brasileira.

Nosso passado literário nunca mais será compreendido sem o estudo da obra legada por Alexei Bueno. Sua vasta obra poética possui um valor marcante, por ressuscitar o verdadeiro “sentido” ou a verdadeira “alma” da poesia, vítimas de tantas traições pela vastidão de poetas de vitrine, deslocados da vida, da história e do mundo. O jornalista e poeta Leal Kostav, em comovente e oportuno artigo publicado ontem sobre Alexei, conseguiu reunir uma espécie de fortuna crítica de sua obra, da qual recolho aqui três tópicos importantes para a compreensão do autor de “A Juventude dos Deuses”. A primeira remete a Antonio Houaiss, para quem Alexei “representava uma espécie de resistência armada da memória literária brasileira.” Houaiss teria percebido cedo que a poesia de Alexei “não era passadismo. Era outra coisa. Um diálogo tenso com os mortos. Uma resistência em aceitar o empobrecimento da linguagem.” A segunda referência é Ivan Junqueira, que teria comentado uma vez que “o grande mérito de Alexei Bueno foi devolver a dignidade do poema de longo fôlego. Junqueira achava que a poesia brasileira tinha ficado raquítica, fragmentada demais e havia medo da grande dicção metafísica. O poeta de “Lucernário” não tinha medo. Enfrentava os grandes temas de frente: o nada, Deus, a decomposição da matéria, a permanência da arte.” De fato, para se compreender isso, basta ler as suas “Odes”, em “A vida estreita”, ou os seus “Poemas Gregos”. A terceira referência é Antonio Carlos Secchin, que costumava apontar que “a poesia de Alexei realiza uma operação de ressublimação pelo anacronismo. Não se trata de um pastiche museológico, nem mero eco de alfarrábios, mas de uma escolha de combate. Secchin sugere que, ao reatar com o alto etilo,  o poeta devolve à lírica uma dignidade perdida na feira das vaidades cotidianas.”

Então é isso. A poesia sempre foi a paixão de Alexei. Na verdade, a boa poesia. Publicou “Uma História da Poesia Brasileira” e “A Escravidão na Poesia Brasileira”, estudos meticulosos, que consagram a nossa poesia de todos os tempos. E, além dos ensaios já mencionados, organizou e escreveu apresentações de edições especiais dos mais valorosos vultos da poesia em língua portuguesa, como os poetas da Arcádia e outros, como Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Olavo Bilac, Mário de Sá Carneiro, Augusto do Anjos, Cruz e Souza, Vinicius de Moraes e, evidentemente, Luís de Camões, sendo impossível não lembrar as numerosas apresentações e prefácios de obras de poetas contemporâneos, como os baianos Ruy Espinheira Filho e Florisvaldo Mattos. Organizou, ao mesmo tempo, diversas antologias, das mais variadas temáticas e nuances, como as originalíssimas “Antologia Pornográfica – De Gregório de Mattos a Glauco Mattoso” e o pequenino “Alcoolphilia”, uma reunião muito bem humorada de citações sobre o hábito de beber.

Além de poeta, de ensaísta e de antologista, Alexei foi ainda exímio tradutor, tendo feito versões para o português de poetas como Edgar Allan Poe (de quem traduziu “O Corvo”), Gérard de Nerval, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros. E recebeu inúmeros prêmios literários, como o Jabuti, (2004), Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1995), Prêmio da Academia Brasileira de Letras de Poesia (2004) e o Prêmio Alphonsus Guimaraens da Biblioteca Nacional (2022).

A ABL (Academia Brasileira de Letras) emitiu hoje nota de pesar pela morte de seu colaborador desde 2002, não só na área das artes plásticas, quando dirigiu sua Galeria de Arte, como, mais recentemente, revisando textos da Biblioteca para as redes sociais da ABL, com especial destaque para as efemérides.

Pequena (porém difícil) mostra da poesia de Alexei é o que nos cabe apresentar agora, dentro dos limites dessa publicação, finalizando estas palavras tingidas de amor e de saudade.

 

HELENA

 

No cômodo onde Menelau vivera

Bateram. Nada. Helen estava morta.

A última aia a entrar fechou a porta,

Levavam linho, unguento, âmbar e cera.

 

Noventa e sete anos. Suas pernas

Eram dois secos galhos recurvados.

Seus seios até o umbigo desdobrados

Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

 

Na boca sem um dente os lábios frouxos

Murchavam, ralo pelo lhe cobria

O sexo que de perto parecia

Um pergaminho antigo de tons roxos.

 

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,

Compuseram seus ossos quebradiços,

Deram-lhe à boca uns rubores postiços,

Envolveram-na em faixas perfumadas.

 

Então chamas onívoras tragaram

A carne que cindiu tantas vontades.

Quando sua sombra idosa entrou em Hades

As sombras do heróis todas choraram.

                                               (Lucernário)

 

A VALSA DOS CANALHAS

 

Mas, num segundo, uma artéria

Explode, o coração para,

E a essência densa, alta e rara,

Sublime, espantosa, etérea

 

Da canalhice termina

No frasco de um belo esquife…

Meu Deus, morreu um patife!...

Senhor, ainda que esta mina

 

Seja a única a não ter fundo,

Que júbilo, que alegria!

Nossa vida outra seria

Se  cada dia no mundo

 

Pudéssemos ver um verme

Lançado entre seus iguais,

Não queremos nada mais,

Nós, Senhor, teu povo inerme,

 

Do que a espantosa alegria,

A luz que nos aparvalha,

Que é a bênção de um só canalha

Num caixão a cada dia.

                                    (As Desaparições)

 

SONETO

 

Eu fui um louco que viveu cem anos

Compondo um gigantesco manuscrito…

Madrugadas profundas de proscrito

Gastei sobre o papel de meus enganos.

 

Memória dos delírios mais insanos,

Razões petrificadas de algum grito,

Anotei, registrei, pus por escrito

Na chama congelado do meus planos.

 

Quando enfim fui chegando junto à morte,

Vi que tudo escrevera, e ri da sorte,

Que as páginas tocavam já nas sancas.

 

Foi aí que enxerguei, oh! Dor distinta!

Que nunca na caneta houvera tinta

E a morte entre um milhão de folhas brancas!

                                   (As Escadas da Torre)

 

EXTRAVIO

 

Devia a vida ser só isso,

O vinho, o pão, o som da chama.

Sapos no tanque. O olhar mortiço

Do mocho. O luar crivando a cama.

 

Mãos de mulher cerrando a fresta

Onde entra, como a morte, a bruma.

Mas nos perdemos na floresta

Onde não há árvore nenhuma.

                                    (A Árvore Seca)

Salvador, 27 de Junho de 2026