A escassez de água deixou de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade concreta em várias regiões da Europa, incluindo Portugal.

Perante este cenário, a ciência assume um papel determinante na criação de soluções inovadoras que conciliem desenvolvimento económico e sustentabilidade ambiental. É neste contexto que surge o projeto SAFEWATER, liderado pela Universidade de Coimbra, que propõe uma abordagem transformadora: reutilizar água tratada para irrigação agrícola.

Coordenado pelo investigador João Gomes, do centro CERES – Chemical Engineering and Renewable Resources for Sustainability, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, o projeto já está no terreno e apresenta uma resposta concreta a um dos maiores desafios do século XXI: a gestão eficiente dos recursos hídricos.

No coração desta iniciativa está a valorização de efluentes municipais tratados, provenientes da ETAR de Castelo Branco e do sistema de drenagem urbana. Através de um processo avançado de tratamento quaternário, estas águas são transformadas em recurso seguro para utilização agrícola, particularmente na região do Parque Natural do Tejo Internacional, um território ambientalmente sensível e de elevado valor ecológico.

A relevância desta abordagem vai muito além da inovação tecnológica. Trata-se de uma mudança de paradigma. Em vez de encarar as águas residuais como desperdício, o SAFEWATER propõe a sua integração num ciclo sustentável, promovendo uma economia circular da água. Como defendeu o economista ambiental Nicholas Stern, “as alterações climáticas são o maior fracasso de mercado que o mundo já viu” — e projetos como este demonstram que a resposta passa pela inteligência coletiva e pela inovação científica.

O SAFEWATER distingue-se também pela sua forte componente colaborativa. Envolve entidades como a InovCluster, os Serviços Municipalizados de Castelo Branco e a AdP VALOR, criando uma rede que articula investigação, gestão pública e aplicação prática no terreno. Esta sinergia permite testar soluções em contexto real e acelerar a sua replicação noutras regiões.

Do ponto de vista científico, o projeto integra áreas como microbiologia aplicada à agricultura, gestão de redes de água e desenvolvimento de tecnologias inovadoras. Esta multidisciplinaridade reforça a robustez das soluções propostas e posiciona Portugal na linha da frente da investigação europeia em sustentabilidade hídrica.

Num país historicamente marcado por ciclos de seca e escassez, a reutilização de água tratada surge como uma resposta estratégica. Segundo dados da Agência Europeia do Ambiente, a pressão sobre os recursos hídricos deverá intensificar-se nas próximas décadas, tornando urgente a adoção de modelos mais eficientes e resilientes.

Financiado pela Fundação "la Caixa" e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o SAFEWATER afirma-se como um exemplo de como a investigação científica pode gerar impacto real na sociedade. Mais do que um projeto, é um sinal claro de que o futuro da agricultura passará pela inovação, pela sustentabilidade e pela capacidade de reinventar os recursos disponíveis.

No fundo, trata-se de devolver à terra aquilo que dela se retira, fechando um ciclo que durante décadas permaneceu incompleto. Como escreveu Antoine de Saint-Exupéry, “não herdamos a Terra dos nossos antepassados, pedimo-la emprestada aos nossos filhos”.

Fontes

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