Um continente em transformação económica

Durante décadas, o mapa económico africano foi marcado por uma contradição evidente: um continente rico em recursos naturais e com uma população jovem, mas com economias fragmentadas e fortemente dependentes da exportação de matérias-primas.

Nos últimos anos, porém, começou a ganhar força um projeto que pretende alterar esse paradigma.

A African Continental Free Trade Area (AfCFTA) entrou numa fase decisiva de implementação. Promovido pela African Union, o acordo reúne praticamente todos os países africanos e pretende criar o maior mercado integrado do planeta em número de países participantes.

O objetivo central é claro: aumentar o comércio entre países africanos e reduzir a dependência histórica de mercados externos.

 

Um mercado continental de 1,4 mil milhões de pessoas

Durante décadas, apenas cerca de 15% do comércio africano ocorreu entre países do próprio continente, um valor muito inferior ao verificado na Europa ou na Ásia.

A AfCFTA pretende mudar essa realidade.

O acordo prevê a eliminação progressiva de tarifas sobre cerca de 90% dos produtos comercializados entre países africanos, além da simplificação de procedimentos alfandegários e da harmonização de normas comerciais.

Nos últimos meses começaram a surgir os primeiros sinais concretos dessa mudança. Exportações piloto realizadas no âmbito do acordo já envolveram produtos farmacêuticos, alimentos processados, têxteis e componentes industriais.

Países como Ghana, Kenya, South Africa e Nigeria estão entre os primeiros a testar novas rotas comerciais dentro deste quadro de integração económica.

Segundo estimativas do World Bank, a implementação plena do acordo poderá aumentar o rendimento do continente em cerca de 450 mil milhões de dólares até 2035, ao mesmo tempo que impulsiona a industrialização e fortalece cadeias de valor regionais.

 

Infraestruturas e logística: os desafios da integração

Apesar do entusiasmo gerado pela AfCFTA, especialistas alertam que o sucesso do acordo dependerá da capacidade dos países africanos em resolver desafios estruturais.

Entre os principais obstáculos destacam-se:

• infraestruturas logísticas ainda insuficientes
• burocracia administrativa nas fronteiras
• diferenças regulatórias entre países
• instabilidade política em algumas regiões

Governos africanos têm vindo a investir em portos, corredores ferroviários, digitalização alfandegária e plataformas logísticas para reduzir custos e acelerar o comércio intra-africano.

 

Oportunidades para economias emergentes e países insulares

Para várias economias africanas, a AfCFTA representa uma oportunidade estratégica para diversificar a produção e integrar novas cadeias de valor.

Países de menor dimensão também procuram posicionar-se dentro desta nova arquitetura económica.

Economias insulares como Cabo Verde observam a integração continental como uma oportunidade para se afirmarem como plataformas logísticas, tecnológicas e de serviços, beneficiando da sua posição geográfica entre África, Europa e as diásporas globais.

 

Um novo capítulo para a economia africana

Num contexto internacional marcado por tensões comerciais e reconfiguração geopolítica, África procura afirmar-se como um espaço económico mais integrado e competitivo.

A Área de Livre Comércio Continental Africana representa uma tentativa de transformar o modelo económico do continente, promovendo industrialização, comércio interno e cooperação regional.

Se for plenamente concretizada, poderá redefinir o papel de África na economia global ao longo das próximas décadas.

 

Fontes

African Union – AfCFTA Secretariat
https://au-afcfta.org

World Bank – The African Continental Free Trade Area: Economic and Distributional Effects
https://www.worldbank.org

United Nations Economic Commission for Africa
https://www.uneca.org

Financial Times – Coverage on AfCFTA trade implementation
https://www.ft.com

Brookings Institution – Africa Growth Initiative
https://www.brookings.edu

 

“África não é um continente condenado ao atraso. É um continente com um potencial extraordinário que depende apenas da coragem das suas próprias decisões.”
Kofi Annan, antigo Secretário-Geral das Nações Unidas