Pouco dado à livre concorrência, Soares parece ter decidido, unilateralmente, rebatizar a Aliança Democrática, reduzindo a sua designação histórica à mera sigla “AD”. Um exercício de supina inteligência política — ou de oportunismo semântico — que levanta mais dúvidas do que certezas.
A coligação, agora liderada pelos pouco carismáticos Luís Montenegro (PSD) e Nuno Melo (CDS), passa a apresentar-se ao eleitorado sob a marca "AD", como se a história, o simbolismo e a legitimidade política pudessem ser empacotados numa embalagem nova e vendida como fresca. Tudo isto sem qualquer processo claro de consulta ou autorização junto dos antigos detentores políticos da sigla original.
Se isto não é batota política, então o que será?
Vale a pena recordar episódios semelhantes no passado da nossa democracia. Veja-se, por exemplo, as disputas entre o PCP, o PCP(m-l) e o PCPr. O PCP(m-l), enquanto marca política, já existia antes do 25 de Abril e, ironicamente, o PCP viria a beneficiar eleitoralmente da proibição do PCP(m-l) e do MRPP/PCTP – numa das primeiras e graves violações à livre organização partidária em Portugal.
Mais recentemente, o PPM (Partido Popular Monárquico) contestou o uso da marca "Aliança Democrática" por parte da coligação PSD/CDS, recordando que se trata de uma designação com múltiplos legatários históricos. Roubar – ou mesmo comprar – uma marca que tem vários “proprietários” políticos é, no mínimo, pouco ético. E certamente não é curial num regime que se pretende democrático e pluralista.
Resta agora saber o que dirá o Tribunal Constitucional sobre esta tentativa de apropriação simbólica. Até lá, a “nova AD” continuará a ser, para muitos, apenas uma operação de maquilhagem política sem substância. Ou, em bom rigor, um caso flagrante de "branding" à moda antiga, onde o conteúdo importa menos do que a embalagem.