Ao lado da ilustradora Merly Tavares, Delgado não leva apenas livros na bagagem. Leva um manifesto cultural. A participação da dupla num dos maiores encontros internacionais de literatura infantojuvenil da atualidade é o culminar de um percurso onde a identidade cabo-verdiana deixa de ser uma nota de rodapé para se tornar protagonista no palco global.
O projeto que as conduz à capital belga — promovido pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua através do programa PROCULTURA — é um esforço robusto de mobilidade artística entre os PALOP e Timor-Leste. Mas, para lá dos protocolos institucionais, reside a força narrativa de obras como A Família Glé.
Neste universo, a escrita de Cheila é uma arqueologia do sentimento. Como a própria autora confessa, num testemunho que já ecoa como uma declaração de princípios:
"A minha história começou muito antes de ‘A Família Glé’. Começou na minha avó Leleta, na sua força, nos gestos que nunca precisaram de nome, mas que ensinaram tudo."
Neste contexto, a colaboração com Merly Tavares revela-se simbiótica. A ilustração aqui não é um acessório; é o traço que dá rosto à memória, tornando o imaginário coletivo de Cabo Verde tátil e vibrante para as novas gerações. No painel dedicado ao projeto BDPALOP, as autoras irão dissecar esse processo criativo: como transformar a oralidade insular numa linguagem visual capaz de dialogar com o mundo sem perder a sua alma.
A internacionalização da cultura cabo-verdiana vive um momento de viragem. Dados de programas de cooperação cultural da União Europeia confirmam uma tendência clara: o mundo tem sede de autenticidade. E Cabo Verde, com a sua capacidade ímpar de fundir o intimista com o universal, está na vanguarda desta resposta.
Levar estas histórias a Bruxelas é mais do que promover a leitura; é uma afirmação geopolítica. É dizer que as narrativas do Sul Global têm o peso e a sofisticação necessários para habitar as bibliotecas mais exigentes do Norte.
A jornada de Cheila e Merly é a prova de que as fronteiras são, muitas vezes, apenas linhas imaginárias que a boa literatura ignora. Cabo Verde reafirma-se como um celeiro de criatividade onde, felizmente, as histórias continuam a nascer no coração e a encontrar o seu caminho até ao papel — e deste, para o mundo.
Como diz o provérbio africano que serve de bússola a esta missão: "Se quiseres conhecer um povo, escuta as suas histórias." Bruxelas está prestes a ouvir o que Cabo Verde tem para dizer. E o mundo será melhor por isso.
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