O estúdio da Rádio Correio da Kianda parecia, naquele 11 de novembro em Luanda, um lugar onde o tempo parou. Meio século depois da proclamação da independência, as palavras circulavam como se fossem correntes de um mesmo rio: memória, dor, reconstrução, futuro.

A emissão especial do Bancada Parlamentar convocou vozes de dentro e fora do país — entre elas, a de Joffre Justino, a falar da Dinamarca — para um balanço cru e necessário destes 50 anos.

A diáspora, tantas vezes distanciada pela geografia, revelou nesta conversa a força de um olhar simultaneamente afetivo e crítico. A primeira convidada, Vitalina de Sousa, não escondeu a amargura: “Hoje é um dia mais de pesar que de celebração.” Para ela, a independência sonhada distancia-se demasiado da realidade vivida. A juventude que parte, a fome que persiste, a perda do sentido de dignidade — são feridas que, segundo disse, atravessam o presente como sombras longas.

Foi neste clima que entrou Joffre Justino, cuja história pessoal é também parte da história de Angola. Preso três vezes antes do 25 de Abril por lutar pela independência, recordou sem hesitações aquilo que considera o ponto de rutura: a perda massiva de quadros angolanos entre 1974 e 1977, e mais tarde durante a guerra civil. “Angola falhou muito, isso é incontestável. O sonho dos que lutaram pela independência não se concretizou”, afirmou. Mas, ao contrário do desânimo que dominava algumas intervenções, Joffre colocou em cima da mesa uma dupla chave para o futuro: educação e democracia local.

Segundo explicou, nenhum país cura as suas feridas sem formar o seu povo, sem qualificar a juventude e sem dar aos cidadãos o direito real de governarem os seus territórios. É um ponto que ecoa pesquisas internacionais sobre desenvolvimento: a descentralização tende a fortalecer economias e a reduzir desigualdades, quando acompanhada de transparência e participação — tal como defende Amartya Sen, prémio Nobel da Economia, ao sublinhar que “não existe desenvolvimento sem liberdade”.

O debate seguiu vivo, com contributos como o de Carlos Lopes, da Frente do Povo Unido (FPU), que destacou a urgência de reformas constitucionais, a alternância democrática e o fortalecimento das autarquias. “A juventude deve chegar ao poder”, disse, frisando que sem eleições livres e instituições funcionalmente independentes, o país continuará preso aos mesmos padrões.

Já Fernando Pedro Gomes, da FNLA, destacou a importância do reconhecimento das autoridades tradicionais e da reconciliação nacional — temas que atravessaram toda a conversa. Para ele, enquanto Angola não se reconciliar genuinamente consigo mesma, enquanto não valorizar aqueles que estiveram na linha da frente da independência, continuará a tropeçar nos mesmos conflitos. “É preciso cultivar a verdade”, afirmou, numa frase que parece sair diretamente das páginas de Nelson Mandela, quando este dizia que a reconciliação começa “com a coragem de ouvir e de ser ouvido”.

A discussão avançou por temas sensíveis: corrupção, instrumentalização das autoridades tradicionais, juventude desencantada, fome, desigualdade, repressão de movimentos cívicos. Mas também emergiram caminhos: leis da terra revistas, empreendedorismo local com sentido comunitário, imprensa independente, participação cidadã e uma visão estrutural de país.

No final, quando cada interveniente deixou a sua mensagem derradeira, a imagem que se consolidou foi a de uma Angola suspensa entre o peso da sua memória e a possibilidade de um novo ciclo. Vitalina apelou à entrada de novas forças políticas; Carlos Lopes pediu coragem geracional; Fernando Pedro Gomes exigiu inclusão e combate à pobreza; Joffre Justino resumiu tudo numa convicção: sem educação e democracia enraizada no poder local, os próximos 50 anos arriscam repetir os erros dos anteriores.

Cinquenta anos depois da Dipanda, Angola continua em construção. Entre divergências e concordâncias, sobrou do debate uma certeza: reconstruir um país é sempre uma obra de longo prazo — e só pode ser feita por mãos que se reconhecem umas às outras. Como escreveu José Eduardo Agualusa, “os países são como as pessoas: crescem quando se permitem mudar”.