No entanto, esta não é uma frase inócua. Muito pelo contrário. É uma afirmação carregada de peso político e de significado histórico. “A voz dos que não têm voz” não é uma invenção para catar votos, nem uma estratégia de marketing barata. É uma palavra de ordem do PCTP/MRPP, nascida na luta, com um significado muito concreto.
O seu roubo matreiro, realizado pelo porta voz do CHEGA não é uma triste coincidência retórica. Insere-se numa prática sistemática de usurpação das palavras de ordem do PCTP/MRPP, levada a cabo por partidos e candidatos do capital que, ao se apropriarem dessas frases, nascidas do movimento operário e comunista no calor da luta, as esvaziam deliberadamente do seu conteúdo revolucionário, separam-nas da sua base de classe e do seu conteúdo reivindicativo, e reapresentam-nas como frases ocas, desprovidas de qualquer compromisso real com a emancipação dos trabalhadores. são deste modo transformadas em slogans vagos, sem qualquer significado.
Este processo tem-se repetido com outras históricas palavras de ordem do Partido: “O voto consciente; O mandato popular; O povo vencerá; Resgatar uma Capital sequestrada”, entre outras.
Este padrão foi, aliás, exposto de forma particularmente clara numa recente entrevista de André Ventura a Sandra Felgueiras, logo no seu início. Nessa ocasião, o candidato foi confrontado com o roubo de uma frase que não lhe pertence: o princípio segundo o qual um dirigente deve ser um “servidor da causa do povo”, expressão celebremente associada ao secretário-geral do PCB (e mais tarde do PCdoB) João Amazonas, e que o PCTP/MRPP também utilizou, nomeadamente na afirmação de que "todos os quadros do Partido são servidores do povo."
Ora, o que está em causa não é o mero saque de frases. É a operação política sistemática: retirar às palavras a sua base de luta, separá-las da prática revolucionária da qual nasceram e reutilizá-las como instrumentos de mistificação eleitoral. Assim, o “povo” passa a significar eleitorado, a “voz” reduz-se a voto de quatro em quatro anos, e a luta transforma-se em gestão.
Denunciar esta usurpação é, por isso, uma tarefa fundamental. Não para disputar slogans, mas para impôr o seu verdadeiro significado, a sua origem e o projecto político que lhes dá sentido: o da luta dos trabalhadores pela sua emancipação, e não a farsa eleitoral populista dos partidos que vivem da perpetuação do sistema capitalista e da subsequente exploração e opressão dos que proclamam defender.
Viva o Partido que, desde 1970 é a voz dos que não têm voz. Viva o PCTP/MRPP!
Cumprimentos marxistas
Aires Esteves