Os números de uma ferida aberta

Os balanços mudam de hora a hora, e cada atualização é mais pesada do que a anterior. As autoridades venezuelanas falam já em mais de 1.400 mortos e em milhares de feridos.

Há centenas de réplicas registadas — mais de quatro centenas — que continuam a sacudir estruturas rachadas e a empurrar para trás as equipas de resgate. E há um número que custa a escrever: as autoridades estimam dezenas de milhares de pessoas ainda por localizar debaixo dos escombros.

São estimativas. São provisórias. Mas, mesmo na sua incerteza, desenham o retrato de uma catástrofe de dimensão histórica.

La Guaira, o epicentro da dor

A faixa costeira de La Guaira, a norte de Caracas, tornou-se o chão zero desta tragédia. Foi ali que o mar de casas erguidas nas encostas — construídas ao longo dos anos sem engenharia, sem vigas, sem norma que as segurasse — cedeu primeiro.

Os hospitais, esses, já chegaram exaustos a esta noite. Macas nos corredores. Doentes na rua. Um sistema de saúde que arrasta uma década de desgaste e que, de repente, tem de responder a tudo ao mesmo tempo.

As primeiras 72 horas são as que contam. É nelas que se encontra gente viva. E é precisamente esse relógio que corre agora contra milhares de famílias que continuam sem notícias dos seus.

Um país apanhado a meio de se levantar

Há uma crueldade adicional nesta tragédia: a Venezuela foi atingida exatamente quando começava, devagar, a respirar.

Depois de anos de colapso económico, do êxodo de médicos, engenheiros e professores, de infraestruturas degradadas e de serviços públicos esvaziados, o país vivia um frágil processo de normalização. O sismo derrubou, num minuto, esse esforço lento de reconstrução.

A natureza é implacável. Mas os seus efeitos tornam-se devastadores quando encontram uma sociedade ainda a sarar — hospitais sem meios, emergência subfinanciada, e milhões de pessoas que já tinham aprendido, à força, a viver no limite.

Portugal mobiliza-se

Portugal não ficou a assistir.

O Presidente da República, António José Seguro, que se encontra em Miami, falou ao telefone com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, sobre a evolução da situação e o envio de apoio às operações de busca e salvamento. Disse acompanhar a tragédia "em detalhe" e manifestou "profunda consternação", dirigindo ao povo venezuelano e aos portugueses residentes uma mensagem de solidariedade e esperança.

Montenegro, por seu lado, falou diretamente com a Presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, e colocou à disposição uma equipa de proteção civil de emergência — cerca de meia centena de elementos —, prontamente aceite por Caracas. A equipa, preparada pelos ministérios dos Negócios Estrangeiros, Administração Interna, Defesa e Saúde, integra especialistas em resgate, binómios cinotécnicos, a Unidade de Emergência e Socorro da GNR e profissionais do INEM.

Portugal junta-se, assim, a Espanha, Itália, França, Alemanha, Luxemburgo, Países Baixos e República Checa, num esforço coordenado pela União Europeia através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil.

A diáspora que também é nossa

Mas há uma dimensão que torna esta tragédia particularmente portuguesa.

Na Venezuela vive uma das maiores comunidades portuguesas do mundo — a segunda maior da América Latina —, na sua maioria oriunda da Madeira, mas também de Aveiro e do Porto. São famílias que ali construíram vidas, negócios, raízes e afetos ao longo de gerações.

Entre as vítimas há já, pelo menos, nove portugueses e lusodescendentes confirmados. E há ainda cinco portugueses dados como desaparecidos — quatro deles da mesma família — algures sob os escombros de La Guaira.

O sofrimento venezuelano é, em muitos lares, sofrimento português. Não é uma notícia distante. É um pedaço da nossa própria história migratória que está debaixo daquelas ruínas.

Primeiro, salvar vidas

Na Venezuela, neste momento, procura-se. Procuram-se sobreviventes. Procuram-se corpos. Procuram-se familiares. Procuram-se portugueses que ainda não conseguiram dizer aos seus que estão vivos.

A resposta tem de ser rápida, robusta e sem hesitação: equipas de busca, apoio consular, assistência às famílias, coordenação internacional, informação clara a quem espera.

Porque, no fim, nenhuma distância, nenhuma fronteira, nenhum cálculo vale mais do que uma pessoa ainda viva debaixo dos escombros.

A terra tremeu. Agora, é a nossa humanidade que está a ser medida.