Há líderes que constroem pontes e há outros que preferem levantar muros. Donald Trump, mais uma vez, escolhe o caminho da confrontação.

Numa nova ofensiva verbal e estratégica, o ex-presidente norte-americano ameaça impor tarifas elevadas a países que compram petróleo da Rússia e do Irão — um gesto que afeta diretamente grandes economias emergentes como o Brasil, a China e a Índia. Mas as suas palavras vão além das tarifas: incluem também a possibilidade de bombardear o Irão, caso Teerão não ceda às suas exigências nucleares.

Este comportamento, que oscila entre a teatralidade populista e a temeridade geopolítica, levanta uma pergunta inquietante: estarão os Estados Unidos prestes a reeleger um líder que parece mais interessado em provocar incêndios do que em construir a paz?

Quando Trump ameaça o mundo

Durante uma entrevista à NBC News, Trump declarou estar "furioso" com Vladimir Putin por este ter sugerido colocar a Ucrânia sob uma “administração temporária” para facilitar um cessar-fogo. Trump respondeu com uma ameaça clara: se a Rússia bloquear os seus esforços de paz, imporá tarifas entre 25% e 50% aos países que comprarem petróleo russo — uma medida que penaliza aliados e mercados estratégicos.

Do outro lado do mapa, o Irão também entrou na mira do magnata. Trump ameaçou bombardear o país caso Teerão não aceite negociar sob os seus termos. A resposta veio rapidamente do líder supremo Ali Khamenei, que reafirmou que "qualquer ataque terá uma resposta dura e proporcional". Trata-se de uma escalada perigosa, onde a diplomacia é substituída por megafones de ameaça.

A loucura tem lógica?

Pode parecer loucura — e talvez seja —, mas a estratégia de Trump segue um padrão conhecido: a “diplomacia da intimidação”. Ao prometer tarifas, sanções e ataques, Trump projeta a imagem de um “machista geopolítico” que impõe respeito pelo medo. A verdade, porém, é que os resultados dessa postura têm sido desastrosos.

Foi ele quem rompeu o Acordo Nuclear com o Irão em 2018, um pacto que estava a funcionar segundo a Agência Internacional de Energia Atómica. Ao fazê-lo, deu espaço ao Irão para retomar o seu programa nuclear. Hoje, segundo especialistas, o país está mais próximo do que nunca de ter uma bomba nuclear. Ironia ou irresponsabilidade?

Com Putin, Trump joga um jogo duplo. Por vezes elogia o líder russo, noutras finge distanciamento. É uma dança estratégica — ou uma tentativa de agradar todos os lados — que apenas enfraquece a posição internacional dos EUA e mina os esforços por uma paz estável na Ucrânia. A sua recente crítica a Putin por questionar a legitimidade de Zelensky esconde, aliás, uma possível motivação doméstica: Trump também discute com os seus assessores a hipótese de um terceiro mandato, algo que exigiria estado de emergência ou lei marcial — o mesmo tipo de medida que critica na Ucrânia.

O mundo como palco da sua campanha

Mais do que uma política externa coerente, Trump usa o palco internacional como ferramenta da sua campanha eleitoral. Ao prometer tarifas e ataques, cria inimigos externos que alimentam o medo interno e fortalecem a sua narrativa de “salvador” da pátria. É o velho truque do populismo: inventar uma crise para se apresentar como solução.

Mas o custo é demasiado elevado. As suas ameaças ao comércio global afetam cadeias produtivas, geram instabilidade nos mercados e criam tensões que podem facilmente escalar para conflitos armados. Trump, ao que parece, não se importa em atear fogo ao mundo — desde que possa reinar sobre as cinzas.

Um apelo à lucidez

Num planeta que enfrenta desafios globais reais — mudanças climáticas, desigualdade, crises migratórias e instabilidade energética —, precisamos de líderes construtores, não incendiários. A loucura estratégica de Trump não é só perigosa. É irresponsável. E se a história nos ensinou algo, é que os impérios que se guiam pela arrogância e pelo medo acabam por ruir — de dentro para fora.

Como disse uma vez o historiador Arnold Toynbee, "as civilizações morrem por suicídio, não por assassinato". Está nas mãos dos eleitores norte-americanos — e da comunidade internacional — decidir se querem caminhar para a construção de pontes ou para a repetição da história.

 

Fontes e Referências: