Trabalham arduamente nos sectores dos quais a burguesia portuguesa mais depende: o turismo, a agricultura, a construção civil e nos serviços domésticos e terciários (entregas de alimentos e condução de TVDE’s).

Os trabalhadores, vindos principalmente das regiões do Sul da Ásia e da CPLP, não são hóspedes de uma nação bondosa, são o exército de mão de obra de reserva que o capital necessita de modo a manter os salários baixos e os lucros em alta.

Os migrantes fazem os trabalhos que os portugueses se recusam a fazer pois são os que não têm remuneração alta, os mais arriscados e os mais longos em termos de horário laboral, contudo, mais de um terço deles vive na pobreza e recebem até 30% menos do que os trabalhadores portugueses por trabalho idêntico, e o desemprego entre eles é mais do dobro que a taxa nacional. No entanto, trabalhadores migrantes contribuíram 2,6 mil milhões de euros em 2024, beneficiando apenas de 483 milhões de euros.

O Estado burguês não só é um falhanço para os trabalhadores migrantes, mas é construído e reforçado de modo a discipliná-los. Assim sendo, a precariedade legal e situações de documentação irregular também não só acontecem por acaso, mas são um mecanismo de controlo refinado que é empregue tendo em consideração os interesses da classe burguesa. Quando os trabalhadores migrantes não sabem se irão ser deportados amanhã ou na próxima semana, não se organizam, não efectuam greves, aceitam apenas o destino que lhes é dado. Ao empregar mão de obra migrante, a empresa aumenta exponencialmente a sua margem de lucro, pois os patrões exploram os trabalhadores ao impor condições laborais miseráveis, ameaçando com expulsão e a abundância de mão de obra barata.

Ora, se a precariedade algema o migrante de fora, a gig economy (economia dos biscates) oferece uma forma de dominação mais subtil, uma que promete falsamente a liberdade, flexibilidade e o empreendedorismo. No sector alimentar, dominado pela Glovo e a Uber Eats, os migrantes representam uma grande maioria dos trabalhadores. A plataforma absorve-os quase instantaneamente, precisamente porque não têm grandes exigências, nenhum contrato de trabalho, nenhuma qualificação, e ao fazê-lo enprega-os numa forma de trabalho que não oferece qualquer tipo de salário mínimo garantido. O modelo laboral da gig economy digital está perfeitamente desenhado de modo a explorar a mão de obra migrante, nomeadamente os sistemas de gestão algorítmica que permitem uma gestão parcialmente automatizada da mão de obra, diminuindo os custos de supervisão e permitindo um novo nível de micromanagement (micro-gestão). O trabalhador caindo na ilusão de independência que lhe é vendida pelo capital não se organizará de forma sindical ou política e também não verá o trabalhador colega na rua como um camarada.

Neste sentido, não nos podemos submeter à automatização, as próprias condições que o capital utiliza para dividir a classe trabalhadora revelam as condições e as razões fundamentais para nos unirmos. O trabalhador nepalês a efectuar entregas de Uber Eats e Glovo nas ruas de Lisboa e o trabalhador português num call center com um contrato a termo incerto, podem estar separados pela língua que falam, estatuto legal e o design propositado do capitalismo, mas partilham o mesmo senhorio e o mesmo patrão algorítmico que nunca aprendeu os seus nomes. A precariedade não é apenas uma condição migrante ou portuguesa, é uma condição de classe, manufacturada e distribuída por aqueles que estão no topo, para aqueles que estão no fundo.

O trabalhador migrante e o português partilham um inimigo comum, a máquina incessante capitalista. Todos os mecanismos que são utilizados para suprimir os salários de um, são utilizados para suprimir os salários do outro. A divisão não é uma condição natural do proletariado, mas sim uma conquista da burguesia, mantida com um esforço considerável, pois a sua dissolução seria fatal à ordem social existente.

Trabalhadores do mundo uni-vos!