Ela foi uma organização de exilados políticos portugueses em Paris na sequencia do 28 de maio.
A Liga teve até 1932 um papel importante no revilharismo, nas açoes revolucionárias golpistas, não obstante fortes divergências de índole ideológica e pessoal que surgiram no seu seio, esta organização cívica e suprapartidária passou a ser um dos principais bastiões de oposição ao 28.05 constituindo-se naquele período, segundo António Sérgio, "na melhor esperança das consciências cívicas da Nação".
1926/30
Passados os momentos iniciais de confusão que se seguiram ao28.05 os Republicanos e Socialistas expulsos da esfera do poder pela implantação da ditadura, começaram a agrupar-se para lhe fazer oposição, tentando capitalizar a seu favor a situação de grande instabilidade política e social que se vivia no país.
Na sequência natural dos violentos anos que marcaram a fase final da I Republica Portugal viveu entre 1927 e 1931 uma guerra civil, situação marcada por cinco grandes movimentos reviralhistas falhados, para além de múltiplos outros pequenos movimentos insurreccionais, que se sucederam ao longo dos quatro anos e meio que medeiam entre 03.02.1927 e 27.08,1931 tendo como cenários principais as cidades do Lisboa o Porto a Madeira e os Açores
Foi na sequência da primeira e mais importante dessas revoltas, aquela que eclodiu na cidade do Porto a 03.02.1927 que vários resistentes no exílio decidiram organizar-se de forma supra partidária. Os primeiros sinais de organização surgem ainda em Fevereiro de 1927 nas semanas imediatas à falhada insurreição, quando, com centro em Paris a oposição democrática tenta juntar as várias correntes partidárias para um combate unitário contra a ditadura. Surgiu assim a Liga de Defesa da República, vulgo Liga de Paris, cujos principais dirigentes eram, Afonso Costa, Alvaro de Castro, José Domingues dos Santos, Jaime Cortesao e Antonio Sergio
A ideia de fundar a Liga surgiu na Galiza entre os emigrados republicanos e socialistas que ali se encontravam, e foi a partir dali que lançaram as suas bases. Com o reagrupamento em Paris de muitos desses elementos, incluindo a maioria dos refugiados da malograda tevolucao de fevereiro de 1927 foi naquela cidade que puderam dar expressão à Liga já organizada, redigindo o seu programa, que afinal não era mais do que a explanação minuciosa das bases organizadas acordadas na Galiza.
Apesar das intenções manifestadas e da efetiva necessidade de unidade na ação política contra a ditadura nascente, a Liga não conseguiu a coesão necessária, tendo lutado sempre contra a desconfiança e até a hostilidade do Partido Democrático Apesar dos esforços no sentido de se construir uma unidade política efectiva unida em torno do objectivo estratégico de impedir a consolidação da ditadura, as divisões que tinham marcado os anos finais da I Republica ainda estavam bem vivas, mesmo entre as forças pró-democráticas.
Nesse contexto, todas tentativas de coordenação da acção política colidiam com a sensibilidade de cada grupo e exacerbavam as divisões e a desconfiança mútua entre os exilados, impedindo na prática toda e qualquer acção eficaz contra o regime ditatorial.
Apesar dessas fragilidades inerentes à sua génese e não obstante algumas divergências de índole ideológica que surgiram no seu seio, esta organização cívica e suprapartidária passou a ser um dos principais bastiões de oposição ao regime ditatorial, constituindo-se, no dizer de António Sérgio, na melhor esperança das consciências cívicas da Nação.
O núcleo de exilados políticos em Paris teve um papel preponderante na organização dos posteriores movimentos revolucionários, mas a falta de direcção efectiva, e a descoordenação entre os revoltosos, conduziram a novos fracassos a 20.06. 1928, a tevolta do Castelo, e a 21.07.1930, de que se aproveitou, mais uma vez, o regime da ditadura nacional para fortalecer o seu poder com a prisão, deportação ou exílio de mais umas dezenas de militares e políticos opositores ao regime, entre eles alguns dos apoiantes e organizadores 28.05.1926 neste caso vítimas da sua própria criação.
Para além das acções de carácter revolucionário, a Liga de Paris também se insurge contra a pretensão do governo fascista obter sem contrapartidas políticas grande empréstimo internacional, quando era ministro das finanças Sinel de Cordes Face ao agravar da situação financeira de Portugal, o governo da Ditadura Nacional recorreu, contra a opinião, entre outros, de Salazar, banqueiros ingleses com a intenção de conseguir 12 milhões de libras esterlinas para estabilizar o escudo equilibrar o orçamento. Contudo, para realizar o empréstimo em condições razoáveis de juro, necessitava o patrocínio da Sociedade das Nações
Esta necessidade de aprovação internacional deu à Liga de Paris a sua primeira, e única, oportunidade de tentar pressionar num foro internacional, e conseguiu que a Sociedade das Nações impusesse condições políticas para o seu patrocínio, entre as quais a efectiva democratização do regime. A campanha então gerada contra a ditadura, que os seus adversários acusavam de andar mendigandoempréstimos atentatórios do brio nacional, levou o governo, em Março deste ano, a tomar a iniciativa de recusar o empréstimo e abrindo assim, de forma inesperada, o caminho para a entrada de Salazar no governo.
1931/1940.
último grande momento da Liga de Paris surgiu em meados de 1931, quando uma onda de instabilidade e de revoltas se abateu sobre Portugal. Nesse ano, o ano de todas as revoltas, a Liga de Paris apresentou um Manifestoreclamando o fim da ditadura e tentou, embora sem sucesso, dadas as dificuldades de comunicação e a fraca implantação social das gentes ligadas ao reviralhismo
coordenar a acção dos revoltosos, colaborando activamente na organização de um grande levantamento insurreccional programado para o início do Verão.
O levantamento foi-se atrasando e nos princípios de Agosto, os seus principais operativos, os exilados em Espanha denominados o Grupo dos Budas decidiram novo adiamento da revolta por dois meses. A isso não eram estranhas as divergências com a corrente dos exilados onde pontificavam Cunha Leal Ribeiro de Carvalho Cunha Aragao Alvaro Poppe Sarmento de Beires e membros do Partido Republicano exilados em Espanha. Divididos e desconfiados das intenções dos diversos grupos em presença, os republicanos acusavam os Budas e a Liga de Paris de quererem monopolizar a organização, o comando e o futuro da restauração republicana. Por isso mesmo, também eles desenvolveram a sua organização revolucionária própria e obtiveram armas com a cumplicidade dos socialistas espanhóis.
Foi neste contexto de descoordenação e de profunda desconfiança mútua entre as diversas sensibilidades do movimento oposicionista, que em 4 de abril de 1931 na sequência dos movimentos populares de Fevereiro e devido à profunda crise económica com que a ilha se debatia, eclodiu a Revolta da Madeira liderada por Gastao de Sousa Dias com ele estavam importantes unidades militares ali estacionadas, vários deportados políticos e alguns dos revolucionários de Fevereiro de 1927 que tinham sido desterrados para aquela ilha. Os revoltosos reclamaram o restabelecimento das liberdades públicas e da normalidade constitucional, com os oposicionistas no exílio, sob a liderança da Liga de Paris, a falar na constituição de uma Republica da Atlantida
O governo fascists envia uma expedição militar que começa por controlar os revoltosos açorianos e depois os madeirenses, tudo se esfuma. O levantamento previsto para em Lisboa acompanhar a revolta nas ilhas apenas surge com a revolta de 26.08
gorando-se com mais de 40 mortos. Foi o último grande cerco à ditadura e com o seu insucesso a Liga de Paris começa a desagregar-se.
Em princípios de 1932 Liga de Paris estava moribunda, da sua existência não restando mais que alguns documentos combativos e um desenvolvido plano de governo futuro que ironicamente viria a influenciar o ideário e as realizações do fascismo contribuindo para o programa de governo da ditadura que pretendia combater. As últimas ramificações extinguiram-se em 1940 quando os exilados tiveram de voltar a Portugal dada a II guerra.