As associações representativas de sobreviventes do processo do 27 de Maio de 1977 em Angola vieram a público reforçar críticas à atuação da Comissão para a Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), exigindo maior transparência, justiça e uma verdadeira reposição da memória histórica sobre os acontecimentos que marcaram profundamente o país.

Num comunicado conjunto, a Associação 27 de Maio, fundada em 2005, e o Grupo de Sobreviventes do 27 de Maio, integrados na Plataforma 27 de Maio, manifestam solidariedade com um comunicado anteriormente emitido pela Associação M27, organização de órfãos ligada às vítimas do processo, relativo aos mais recentes desenvolvimentos em torno das exumações numa vala comum localizada no Cemitério do Catorze, em Luanda.

As organizações denunciam o que classificam como uma “subversão dos direitos das vítimas” por parte da CIVICOP, alegando que, desde a sua criação, a comissão não tem assegurado processos transparentes nem respeitado plenamente os princípios da dignidade, verdade e justiça exigidos pelas famílias afetadas pelos acontecimentos de 1977 a 1980.

Contestação à Fundação 27 de Maio

Um dos pontos centrais do comunicado prende-se com duras críticas dirigidas à chamada Fundação 27 de Maio, entidade que as associações acusam de agir em contradição com os interesses reais das vítimas.

Segundo a Plataforma 27 de Maio, esta fundação apresenta-se publicamente como defensora das vítimas, mas estaria alegadamente alinhada com interesses políticos e institucionais ligados ao partido no poder, o MPLA, comprometendo a independência da defesa dos sobreviventes e familiares dos desaparecidos. As associações afirmam ainda que existe uma alegada manipulação da opinião pública e dos próprios familiares das vítimas, explorando a confiança e fragilidade emocional de quem procura respostas e justiça.

As acusações incluem ainda alegadas distorções da verdade histórica e a instrumentalização do sofrimento das vítimas para fins considerados incompatíveis com padrões internacionalmente aceites em processos de reconciliação nacional.

O apelo por uma Comissão de Verdade

A Plataforma reafirma a necessidade urgente da criação de uma Comissão de Verdade independente, proposta que, segundo o comunicado, já teria sido apresentada à CIVICOP mas sucessivamente recusada.

Na perspetiva das organizações, apenas uma estrutura autónoma, assente em critérios internacionais de justiça transicional, poderá garantir o esclarecimento pleno dos acontecimentos, a identificação rigorosa das vítimas e a responsabilização moral e histórica pelos crimes ocorridos.

Uma ferida ainda aberta na memória de Angola

O 27 de Maio de 1977 permanece como um dos episódios mais controversos e dolorosos da história angolana. Após uma alegada tentativa de golpe de Estado liderada por dissidentes internos do MPLA, o país mergulhou numa onda de repressão política que resultou em milhares de detenções, desaparecimentos e mortes, embora o número exato de vítimas continue envolto em controvérsia histórica.

Décadas depois, a busca pela verdade continua a dividir sensibilidades políticas, sociais e institucionais, demonstrando que a reconciliação nacional não depende apenas do tempo, mas também da coragem de enfrentar a memória coletiva com transparência, rigor histórico e humanidade.

No comunicado agora divulgado, as associações insistem que a sociedade angolana e a comunidade internacional devem permanecer vigilantes perante alegadas tentativas de desinformação ou instrumentalização política da memória das vítimas, defendendo que só a verdade poderá restaurar a dignidade dos sobreviventes e familiares dos desaparecidos.

Fontes:

  • Comunicado conjunto da Associação 27 de Maio (fundada em 2005) e Grupo de Sobreviventes do 27 de Maio, Plataforma 27 de Maio (11 de maio de 2026).
  • Comissão para a Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP).

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