“A vida examinada é a única que merece ser vivida.” – Sócrates

Foi com esse espírito de curiosidade científica e autoquestionamento que Eric Robinson, professor de Psicologia na Universidade de Liverpool, decidiu mergulhar num experimento pouco convencional: tornar-se o seu próprio objeto de estudo ao adotar, de forma sistemática, uma dieta vegana e comparar os efeitos com períodos alternados de não-veganismo.

O objetivo era claro — compreender se manter uma alimentação 100% vegetal fazia realmente diferença na sua saúde física, bem-estar mental e até no prazer de comer.

Tudo começou com uma paixão. Uma professora vegana e ativista pelos direitos dos animais entrou na sua vida… e saiu dela após alguns encontros. O romance acabou, mas o impacto foi duradouro. Motivado por razões éticas e pela evidência de que não existe necessidade biológica de consumir produtos de origem animal (desde que haja suplementação adequada), Robinson decidiu experimentar o veganismo. Mas a curiosidade científica falou mais alto.

“Se eu sou cientista, por que não estudaria os efeitos dessa decisão em mim mesmo?” – questionou.

O Desenho do Autoexperimento

Inspirado em clássicos da medicina como o caso de John Crandon, que se privou de vitamina C em 1939 para provar a origem do escorbuto, Robinson estruturou o seu próprio protocolo: dois meses como vegano, seguidos de dois meses não-veganos — e depois repetiu o processo, invertendo as fases. Monitorizou o peso corporal, prazer alimentar e sintomas de depressão e ansiedade, sem saber previamente os resultados (para evitar viés).

O rigor era tal que, durante as pesagens semanais, era a noiva quem o conduzia até à balança com os olhos fechados. Um compromisso que misturava ciência e vida íntima — não sem alguns tropeços curiosos. A própria parceira confessou que provavelmente teria recusado o primeiro encontro se soubesse que ele era vegano.

Os Resultados: Mais Leve, Mas Igualmente Feliz

Contrariando muitos mitos associados ao veganismo, os resultados do autoestudo foram surpreendentes:

  • Peso corporal: reduziu-se de forma consistente durante os períodos veganos. Em apenas dois meses, perdeu 1,2 kg. O modelo de projeção indicou que manter o veganismo durante 12 meses resultaria numa diferença de 6,4 kg a menos comparado com uma dieta omnívora.

  • Prazer alimentar: não houve diferença significativa entre os dias veganos e não-veganos. A comida continuava a saber bem, desde que fosse bem preparada.

  • Saúde mental: sintomas de depressão e ansiedade mantiveram-se estáveis, desfazendo o mito de que o veganismo aumenta o risco de problemas psicológicos.

O que mais surpreendeu Robinson foi a constatação de que ser vegano, muitas vezes, limita o acesso a tentações alimentares processadas. O veganismo, pela escassez de opções em muitos contextos sociais, atuava quase como um "freio natural" contra os snacks impulsivos.

O Peso do Preconceito

Robinson também notou algo mais subtil e socialmente desconfortável: o preconceito antivegano. Estudos apontam que pessoas veganas são vistas como menos simpáticas e enfrentam maior resistência a relações de amizade ou namoro. E ele viveu isso na pele – literalmente perdendo “matches” em apps de encontros ao mencionar a sua dieta.

Uma das razões, aponta, pode estar na culpa projetada: “as pessoas reagem negativamente porque sentem, inconscientemente, que também deveriam fazer mais pelos animais ou pelo planeta”.

Conclusão: Um Vegano Convicto (Mas Não Missionário)

O estudo pode não ter tido valor estatístico generalizável — afinal, teve apenas um participante — mas trouxe uma poderosa narrativa com base empírica, honesta e pessoal. Como ele próprio afirmou:

“Hoje, nove meses depois de terminar o estudo, continuo vegano. Para mim, os benefícios para a saúde, o ambiente e os animais superam os incómodos sociais.”

Mais do que uma apologia do veganismo, a experiência de Robinson é uma ode ao autoconhecimento informado e à coragem de desafiar convenções — científicas, sociais e pessoais.

Num tempo em que dietas se tornaram bandeiras ideológicas, este estudo devolve humanidade à ciência e ciência à humanidade.

 

Fontes e Leitura Adicional: