Ele foi à vigília convocada por Flávio Bolsonaro em Brasília, um evento que misturava culto religioso e mobilização política fascista, tendo consigo  somente o telemovel  para fazer um vídeo irônico, mas transformou-se num dos episódios mais comentados do conflito  entre o fascismo e campo progressista do Brasil.

Ao jornalista Joaquim de Carvalho, no programa Boa Noite o pastor Ismael reconstrói o passo a passo da decisão de pedir a palavra no ato bolsonarista, relata  as agressões que sofreu ao deixar o palco, comenta a explosão de sua visibilidade nas redes sociais, explica sua trajetória religiosa e política e apresenta uma leitura crítica, porém de apoio, ao governo Lula.

Começou por  procurar um segurança, que mandou uma mensagem e o orientou a se aproximar de Flávio Bolsonaro. “Eu fui até o Flávio, consegui chegar até ele, me apresentei e falei: ‘Posso deixar uma reflexão bíblica?’ Ele acenou com a cabeça, autorizando”, relata.

A oportunidade apareceu porque um dos pastores escalados para falar não compareceu, abrindo um “buraco” na programação. Nesse intervalo, seu nome foi chamado ao microfone.

Já no púlpito, Ismael recorreu a um texto pouco conhecido entre os fiéis, mas cuidadosamente escolhido. “Eu li Eclesiastes 10, do versículo 1 ao 8. Escolhi esse texto porque sabia que eles ouviriam e achariam que eu estava falando do Lula, porque fala de um governante tolo”, conta.

O trecho final, porém, virou o centro do recado: “No versículo 8 diz que quem abre covas será lançado nelas”.

A partir daí, ele fez a ligação direta com a pandemia de Covid-19 e com o governo anterior. “Eu disse: ‘Nós não queremos que ninguém caia morto, mas queremos que seja julgado dentro do devido processo legal e responda pelos seus crimes, como seu pai, que abriu 700.000 covas durante a pandemia’”, afirma.

O choque entre os presentes foi imediato, mas, por alguns instantes, o silêncio dominou o ato.

“Eles ficaram meio atordoados”, recorda.

Em seguida, ele ampliou o alvo da crítica:

“Eu disse que todos os aliados que colaboraram com isso, que trouxeram essa horda do mal contra o nosso Estado, também precisam ser responsabilizados. Foi aí que me interromperam.”

Apesar da firmeza ao falar, o medo esteve presente o tempo todo. “Medo a gente tem, mas não usa”, admite.

Ele conta que o momento mais tenso foi justamente depois da referência às “700.000 covas”: “Eu pensei: ‘Eles estão me deixando falar para depois não me deixarem sair daqui. Vão me cercar e eu não vou conseguir sair’.” Mesmo assim, decidiu continuar, convencido de que falava em nome de quem perdeu familiares na pandemia. “Eu tinha na minha cabeça 700.000 famílias comigo. Tem muito mais gente comigo do que contra mim ali. Eu mesmo perdi muitos amigos e amigas nessa tragédia”, explica.

As imagens exibidas por Joaquim de Carvalho mostram o que veio depois: empurrões, tentativas de socos e um pontapé  que quase acertou seu rosto.

“Esse foi o momento em que eu fui derrubado. Um homem tentou me dar um chute no rosto. Eu consegui proteger o rosto e ele não me acerta”, relata.

Em seguida, a polícia interveio com spray de pimenta. “Logo depois dessa tentativa de chute, a polícia chegou e dispersou com spray de pimenta. Nesse ponto, a polícia até agiu rápido”, avalia.

Num  outro momento, ele descreve uma tentativa de golpe pelas costas: “Esse rapaz atrás de mim tenta me dar um soco. Eu tinha acabado de desviar a mão dele, tanto que minha mão está até encostada nele. Depois ele volta com a mão e me acerta nas costas, mas foi um golpe fraco, não me machucou.”

Ismael afirma que um dos agressores que tentou chutá-lo cobriu o rosto depois, mas foi filmado antes pela imprensa.

A identificação, diz ele, é questão de tempo: “No vídeo dá para ver ele antes de cobrir o rosto. Então, saiba que você será identificado e vai entrar no processo.”

Ele faz questão de reconhecer também a importância dos jornalistas que registraram tudo: “Eu agradeço muito à imprensa. De um lado, eles me cercaram para tirar foto e filmar, e isso impediu que outra parte do grupo chegasse. Por outro lado, eu consegui me defender minimamente até ser derrubado.”

Depois de ser retirado do local, Ismael foi levado pela própria polícia à delegacia. “Quando saí de lá, a polícia me levou de viatura até a delegacia para registrar ocorrência. Fiz o boletim de lesão corporal e tentativa de linchamento”, relata.

Em seguida, foi encaminhado ao Instituto Médico Legal. “Fui ao IML para fazer exame de corpo de delito. Eu tive poucas escoriações, nada muito grave, graças a Deus”, afirma.

Agora, o foco é a responsabilização dos agressores: “O processo vai seguir. Agora é a fase de identificação dos agressores. Se eu não me engano, tenho seis meses para identificar e anexar ao processo, e é isso que estou fazendo.”

Naquele primeiro momento, conta ele, não havia sequer defesa técnica ao seu lado.

“Eu fui à delegacia sem advogado, porque a polícia me encaminhou. Conversei com o agente que me atendeu. Naquele momento eu estava sem advogado, embora hoje já esteja com suporte, o movimento está me dando todo o apoio necessário”, explica.

A expressão “movimento” remete à sua atuação em coletivos evangélicos progressistas, mas também à sua militância social e política em Brasília.

Ao longo da entrevista, Ismael reconstrói sua trajetória na fé para mostrar que sua postura não é ruptura repentina, mas resultado de um caminho de décadas.

Saibamos um pouco dele!

Nasceu em Realengo, zona oeste do Rio, numa favela violenta  e de grupos armados. “

Sou da zona oeste do Rio de Janeiro, de uma comunidade que já foi dominada pela milícia e hoje é pelo tráfico. Na prática, hoje não há tanta diferença, porque a milícia também trafica”, afirma.

De família maioritariamente assembleiana, ele passou a infância na Assembleia de Deus, até conhecer, na adolescência, a organização batista Embaixadores do Rei, que lhe deu formação bíblica mais profunda.

Estudou teologia no Seminário Batista do Sul, no Rio de Janeiro, e concluiu o curso a distância. “Eu estudei no Seminário Batista do Sul, no Rio de Janeiro, e depois terminei a teologia à distância. Eu abandonei o seminário presencial, mas concluí o curso. Sou teólogo”, sintetiza.

E deixemos aqui o Eclesiastes 10:1-8 que ele citou e com tal provocou a agressividade bolsonarista

 

Eclesiastes 10:1-8

  • 1: Um pouco de insensatez estraga a sabedoria e a honra, assim como moscas mortas tornam o perfume de um perfumador de mau cheiro.
  • 2: O coração do sábio se inclina para o lado certo, enquanto o do tolo se inclina para o lado errado.
  • 3: Quando o tolo vai pelo caminho, falta-lhe o entendimento e ele se revela tolo para todos.
  • 4: Se a ira de uma autoridade se levantar contra você, não deixe o seu lugar; a calma pode aplacar grandes ofensas.
  • 5: Há um mal que vi sob o sol, um erro que procede do governador.
  • 6: O tolo é posto em grandes alturas, enquanto os ricos são colocados em lugares baixos.
  • 7: Vi servos andando a cavalo, e príncipes andando a pé como servos.
  • 8: Quem abre uma cova, cairá nela; quem derruba um muro, será mordido por uma cobra