Comecemos pelo país de poetas que somos, uns mais outros menos e uns poucos no poder nada!

Ode ao Mar 

Água, sal e vontade — a vida!
Azul — a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...

Ela és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

Miguel Torga, in Odes, 1946

 

Nós os Filhos do Império seremos sempre impelidos a olharmos para o tal Mar Português cantado lusamente por tantos em saudade dor e amor

Como Fernando Pessoa e aqui Miguel Torga!

Acompanhamos pois José Luís Carneiro que hoje 08.06 inicia uma rota pela Economia do Mar, em cima do Dia Mundial dos Oceanos.

Segundo-se ao interior, com a rota pela Nacional 2, e ao  ensino profissional, este é o terceiro tema a que o PS quer dar destaque, para  indicar um  caminho ao Governo.

A rota começa pelos Açores, segue para a Madeira e o  resto do país durante o mês de junho. José Luís Carneiro irá  ouvir empresários, mas também pescadores para apresentar "políticas públicas capazes de reforçar a competitividade, a inovação e a sustentabilidade da economia azul portuguesa".

À TSF, o secretário-geral do PS lamenta "a falta de visão do Governo" e considera que um dos principais recursos do país não está a ser aproveitado, apesar dos esforços do anterior Governo, liderado por António Costa, que "estava a dar centralidade" ao tema.

"O que se nota é o Governo sem visão estratégica, por um lado, e por outro, sem planeamento. É todo um potencial económico, é todo um potencial de emprego, é todo um potencial de criação de riqueza que perdeu prioridade política da parte do Governo e isso é uma perda para o país. Aquilo que quero, enquanto líder do PS, é dar centralidade política a um setor, a uma área, que mobiliza amplos setores", sublinha.

Lembremos que só cerca  de 4% do Produto Interno Bruto está alocado à Economia do Mar, quando a costa portuguesa é extensa com 943 km em Portugal continental, 667 km nos Açores, 250 km na Madeira!

Por isso o objetivo do PS  - durante o seu último Governo - era aumentar para 7% da riqueza nacional.

Ora este objetivo que "não está a ser devidamente potenciado", leva a  que José Luís Carneiro queira  servir de "farol" para Luís Montenegro.

"Gostava que esta iniciativa pudesse ter, digamos, a função de alerta, de farol - para utilizar uma linguagem mais apropriada à Economia do Mar - para que o Governo não perca o sentido daquilo que é estratégico para o nosso país", sintetiza.

José Luís Carneiro nota que, depois da rota pela N2, o ministro da Economia "falou sobre a necessidade de criar polos de desenvolvimento".

Com o destaque ao Ensino Profissional, o Governo reforçou o financiamento em 33 milhões de euros e prometeu uma renovação a partir de setembro.

"Gostaria que, agora, durante esta rota que estamos a iniciar, que o Governo também olhasse com outros olhos para esta prioridade nacional", conclui.