Bastante mais que hoje a questao colonial / imperial portuguesa era matéria de orgulho historico pela sua dispersão global pela forma como se construiu e pelas riquezas trazidas ( algo que ja não acontecia praticamente no século XIX!)

Um doloroso século

Este seculo nao foi nada facil para Portugal e o seu Imperio pois no século XIX Portugal viveu  anos  de profunda instabilidade e transformação política, com as ocupações francesas e inglesas e por quatro grandes momentosrevolucionários e de mudança de regime:

A Revolução Liberal de 1820, que deu origem à Independência do Brasil ( e quase de uma Angola ainda em construção e fortemente dependente do Brasil)

A Guerra Civil entre liberais e absolutistas (1832-1834),

A Revolução de Maria da Fonte/Patuleia (1846-1847) e

A Regeneração (1851).

Assim em 1880, a sociedade portuguesa vivia um período de modernização material sob o Fontismo, ( Fontes Pereira de Melo), mas marcada por profundos contrastes sociais, atraso económico e agitação intelectual. O país procurava aproximar-se da Europa através das obras públicas, enquanto a classe média e a intelectualidade exigiam reformas sociais e políticas.

Previamente ao ambiente revolucionário republicano temos de acentuar o papel das onferências democráticas do Casino Lisbonense, e claro sobretudo dos seus organizadores um grupo de intelectuais portugueses, a chamada geração de 70 que pretendia debater os problemas do país e aproveitar a onda de mudança que se vivia noutros pontos da Europa.

O regime monarquista, interrompeu abrupta e totalitariamente as Conferencias por receando o seu impacto na igreja e no governo.

Assim a  18 de junho de 1871 o marquês de Ávila e Bolama, que acumulava as funções de primeiro-ministro e ministro do Interior, emitiu uma portaria onde se podia ler: “tendo chegado ao conhecimento de Sua Majestade (…) que no Casino Lisbonense (…) se celebram uma série de preleções em que se expõem e procuram sustentar doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições políticas do Estado, e sendo certo que tais factos, além de constituírem um abuso do direito de reunião, ofendem clara e diretamente as leis do reino e o código fundamental da monarquia, (…) determina (…) que o governador civil de Lisboa não consinta as referidas reuniões e conferências (…) sob pena de se proceder contra os transgressores na conformidade das leis”.

Foi assim  interrompida esta  iniciativa que pretendia debater o passado e o presente de Portugal num ciclo de palestras e conferências.

Tudo nasce em maio de 1871, com um grupo de jovens escritores e intelectuais, como  Antero de Quental, ( o socialista marxista “papa” desta geração), Eça de Queiroz, Oliveira Martins e Teófilo Braga, a subscreverem um manifesto onde acentuavam a necessidade de renovar o panorama literário português, refletir sobre os seus problemas políticos e sociais e debater as novas ideias que emergiam por toda a Europa e que em Portugal tinham pouco impacto.

Era sua intenção realizar, dez “conferências democráticas”, como foram chamadas, a primeira das quais teve lugar a 22 de maio, por Antero de Quental.

As aue aconteceram foram,

  • Antero de Quental: "O Espírito Moderno".
  • Augusto Soromenho: "Questões de Ensino".
  • Jaime Batalha Reis: "O Socialismo".
  • Eça de Queirós: "A Nova Literatura" (um manifesto marcante sobre o Realismo).
  • Adolfo Coelho: "A Instrução Pública" (que incluía a proposta de separação entre o Estado e a Igreja).

Nota - as conferências foram suspensas pelo governo antes da sexta intervenção (de Salomão Sáragga).

A decisão do governo foi um ato de censura e uma tentativa de impedir a difusão das novas ideias, nomeadamente o socialismo, que eram consideradas subversivas e uma ameaça à religião e aos interesses do estado e da monarquia.

 A suspensão das Conferências do Casino causou uma reação violenta por parte dos organizadores e simpatizantes da iniciativa, grrando enorme  polémica na imprensa entre os que defendiam a liberdade de expressão e de reunião e os que apoiavam a medida do governo nascenfo uma clara rotura entre uma nova geração de escritores e intelectuais, que viria a ser chamada de “Geração de 70”, e os setores mais conservadores da política e da sociedade portuguesa.

A evolução desta geração deu-sd por entre uma sociedade dividida em classes bastante demarcadas e com uma elite acintosamente anti popular, a ver

A elite soberba, a Alta Burguesia detentora do poder económico e político, formada por grandes proprietários, banqueiros e industriais e gerindo o poder vis a igreja catolica sempre absolutista.

As chamadas classes Médias uma media e pequena burguesia constituída por l ojistas, funcionários públicos, profissionais liberais e militares e um bem limitado numero de pequenos industriais.

Sendo  um grupo em crescimento, mas muito insatisfeito com a dependência e a pobreza estrutural do país foi-se aproximando dos Republicanos

Os Operários uma minoria e os Camponeses que eram a  grande maioria da população trabalhava em condições brutais  nos campos ou nas incipientes indústrias de Lisboa e do Porto, com  elevadas taxas de analfabetismo.

As transformações e tensões da época destacam-se em várias vertentes:

  • Desenvolvimento e Infraestruturas: O "Fontismo" (liderado por Fontes Pereira de Melo) expandiu a rede de caminhos-de-ferro, estradas, telégrafos e melhorou o abastecimento de água nas cidades, integrando melhor o território.
  • Agitação Intelectual (Geração de 70): Jovens intelectuais e escritores como Eça de Queirós, Antero de Quental e Oliveira Martins formaram a Geração de 70. Através do Realismo, criticaram severamente o atraso cultural do país, o clero, a monarquia e pediam a "europeização" de Portugal.
  • Atraso Estrutural: Apesar das novidades tecnológicas europeias que chegavam de comboio, Portugal continuava a ser um país essencialmente rural e periférico, com uma economia frágil e grande parte da população a emigrar.

Camões e o Republicanismo

Portugal vivia nas minorias intelectuais uma significativa  contestação à monarquia, liderada sobretudo pelo Partido Republicano Português, fundado quatro anos antes a 25 de março de 1876, sendo o seu primeiro directório e núcleo fundador do partido constituido por,

  • José Elias Garcia
  • José Maria Latino Coelho
  • Sebastião de Magalhães Lima
  • Eduardo Maia
  • Oliveira Marreca
  • Rodrigues de Freitas
  • Joaquim Pedro de Oliveira Martins

Inicialmente sem grande relevância política os Republicanos destacavam-se pelas suas intervenções bem agressivas e eloquentes: alguns dos nomes literários maiores da segunda metade do século XIX português, como Antero de QuentalOliveira Martins  ou Teófilo Braga  eram  simpatizantes e foi este último quem, em várias revistas (como "O Positivismo") durante 1879, foi projetando  a ideia de lançar  no ano de 1880 a  Celebração  do Tricentésimo aniversário da morte de Camões

Este lírico poeta, navegador e aventureiro  era a memória de uma altura em que Portugal era percecionado interna e internacionalmente como uma grande nação mundial, em contraste com aquilo que os Republicanos e outros intelectuais viam como a decadência nacional do século XIX, culpa da monarquia e da igreja catolica.

Camões aliás era um homem sem conotações monárquicas ou religiosas aos olhos de Teófilo. Uma figura de letras, laica, e se era fora da religião, alegrava aos Republicanos.

Na verdade sabemos bem  pouco sobre a vida do autor, e na altura menos se sabia.

1524 é aceite  como o ano do seu nascimento, numa família da pequena nobreza recebendo uma educação formal e clássica, nem sequer sabemos se frequentou a Universidade de Coimbra.

Por entre Mares andados viveu nos continentes africano e asiático, e entre poesia e teatro, deixou ao mundo “Os Lusíadas”, uma das obras mais aclamadas e fundamentais de todo o  ocidente.

A 10 de Junho de 1880 comemorou-se o tricentenário da morte de Camões, em grande

parte devido à iniciativa de Teófilo Braga e de uma Comissão executiva do centenário, eleita pelos jornalistas e organizada por Latino Coelho, composta por nove membros, todos eles homens de esquerda e republicanos, com excepção de Pinheiro Chagas.

Foram entao os seguintes membros,

  • Presidência honorária: António Rodrigues Sampaio.
  • Comissão Executiva: Ramalho Ortigão (que presidiu a comissão ativa), Teófilo Braga, Eduardo Coelho, Luciano Cordeiro, Rodrigues da Costa, Pinheiro Chagas, Jaime Batalha Reis, Magalhães Lima e Rodrigues Pequito.
  • Conquistas principais: Sob a liderança de Teófilo Braga, a comissão conseguiu que o Dia de Portugal (10 de Junho) fosse proposto para se tornar feriado e festa nacional. Ramalho Ortigão ficou encarregue de desenhar o programa de um grande cortejo simbólico.

Realmente foi por  Teófilo Braga que a comissão conseguiu que um deputado do governo, Simões Dias, apresentasse ao parlamento um projecto para

que o dia 10 de Junho fosse considerado de festa nacional (Braga, 1892, II: 419).

Ramalho Ortigão redigiu o programa de um cortejo simbólico, que representava o povo e as suas sucessivas conquistas de liberdade.

Foi em todo o processo evidente a desconfiança e a má vontade dos poderes públicos monarquistas e catolicos perante o Centenário, como sublinha Teófilo Braga.

O Camões das comemorações, e a sua mitologia romântica, tem  uma carga ideológica muito forte, que faz emergir o lado épico da história pátria para melhor acentuar o contraste com a decadência do presente monatquista e catolico.

O Camões das comemorações para  Teófilo Braga vem,

"symbolisando todas as aspirações da nacionalidade portugueza, as suas glorias e os seus desastres.".

Ao elaborar a História das Ideias Republicanas em Portugal, Teófilo Braga considera o 10

de Junho de 1880 "o começo de uma era nova" da "democracia portuguesa".

Enfim, um Momento Revolucionário Português

Nas circulares da comissão executiva da imprensa para as comemorações, Teófilo definia as comemorações camonianas como um "começo para uma éra nova" e afirma que "todos unanimemente sentem que

se entra na aurora de uma época nova de revivificação" que "para Portugal inteiro é o começo de uma éra nova, o da revivescencia da nacionalidade."

Camões, é pois o paradigma da nação e da sua "idade heróica", de forma a incentivar os portugueses à regeneração. Teófilo Braga, o "arquitecto" do Tricentenário, explicita este objectivo de "revivescência" nacional num discurso proferido no Congresso das Associações Portuguesas.

Além do cortejo cívico promovido pela comissão de imprensa que organizou os festejos do Tricentenário, merece destaque a entronização de Camões no Panteão dos Jerónimos.

A estátua erigida em 1867 em Lisboa torna-se um local da peregrinação, tanto nas Comemorações como no Ultimatum (quando a cobriram de crepes), aparecendo na obra queirosiana como um símbolo da nação.

Após a instauração da República, Teófilo colocava o Tricentenário na sua génese

Em termos nacionais, Teófilo considera Os Lusíadas um bastião da liberdade e da soberania nacionais, desde a Restauração à Revolução liberal, e em particular com a ideia republicana: "Na eloquencia dos factos, em as trez Revoluções de 1640, 1820 e 1910, em que Portugal reconquistou a

sua autonomia e reassumiu a soberania nacional, os Lusiadas actuaram como o livro que conserva a tradição de uma raça; bem merecem o titulo de Biblia Lusitana, que synthetisa a sua potencia moral." (id.: 742-3). Camões passa assim a ser valorizado porque "teve o poder de provocar a sympathia social." (1891: VI). Foi sobretudo nas épocas de crise, conclui Teófilo, que "a sympathia social pela obra de Camões augmentou de intensidade, chegando ao ponto de identificar-se com o sentimento nacional." (id.: 266); "E o momento sublime e claramente comprehendido d'essa identificação, foi a festa triumphal do terceiro Centenario de Camões." (1914: 545)

E terminamos com um apontamento da importancia da Lingua Portuguesa em uma Conferencia no Rio de Janeiro a 10.06.1921.

 

"O espírito de Portugal vive e renova-se onde quer que se erga uma voz na nossa língua, pois a Pátria não é apenas o território; é o conjunto de sentimentos, de tradições e de glórias que trazemos no coração."