A contestação surge após o Executivo ter anunciado um aumento salarial de 27% a partir de outubro e mais 31% a partir de janeiro de 2026. Apesar da medida, a classe considera que a atualização é insuficiente face ao custo de vida crescente, marcado por inflação elevada, desvalorização do kwanza e falta de estabilidade laboral. De acordo com dados do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, muitos profissionais continuam a receber salários que mal ultrapassam o equivalente a 150 dólares mensais, o que compromete a dignidade do trabalho e a independência da profissão.
O problema, contudo, não se resume ao aspeto financeiro. Organizações como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) têm alertado para as constantes pressões políticas e económicas que limitam a liberdade de imprensa no país. Angola encontra-se atualmente na posição 125 (em 180) do ranking mundial da RSF (2024), refletindo as dificuldades da profissão em enfrentar censura, autocensura e precariedade laboral.
Outro ponto sublinhado pelos jornalistas é a ausência de solidariedade entre os sindicatos dos países da CPLP. Apesar de partilharem contextos semelhantes — baixos salários, pressões governamentais e fraca autonomia editorial —, as estruturas sindicais lusófonas continuam, na prática, isoladas, sem uma frente comum que defenda os profissionais de forma internacional.
A greve dos jornalistas angolanos, portanto, vai além de uma luta salarial: é também um grito por dignidade profissional, liberdade de imprensa e união de classe. Num país onde a comunicação social é frequentemente usada como instrumento de poder, os jornalistas procuram afirmar-se como atores fundamentais da democracia e da cidadania