3 Fevereiro, 2023

Estrategizando

Notícias, Reflexão e Ação.

Dia da Diáspora Angolana em Portugal?

Apanhei esta notícia entre muitos dos escritos em post via a net “GOVERNO DE COSTA APOIA ATO DE DIVERGÊNCIA ENTRE ANGOLANOS” e que no facciosismo deste título, nos trás a notícia de fortes diferenças de opinião sobre uma Data para comemorar a presença dos imigrantes angolanos em Portugal

Segundo um dicionário, diaspora significa, “1. Dispersão do povo judeu.

2. Dispersão de um povo ou de uma comunidade ou de alguns dos seus elementos.”, mas o tema virou complexidade académica ( como de costume ) sobretudo recordando que o conceito de diáspora nasceu com a forçada dispersão da comunidade judaica mundo romano fora e depois com o êxodo judaico em fuga da Europa perante a perseguição e o holocausto dos judeus imposta pelos nazis

O texto que encontrei tem o seguinte teor,

“ Cerca de vinte personalidades da Diáspora angolana subscreveram uma carta pública denunciando a imposição, por um pequeno grupo, de um dia da Diáspora Angolana em Portugal .
Os subscritores denunciam a proclamação prevista para este sábado, com a presença do ministro da Cultura do Governo socialista, Pedro Adão e Silva, na foto.
A acção da Liáfrica, dirigida por destacados socialistas, nomeadamente Eduarda Ferronha, Victor Ramalho e João Cravinho, é descrita como mais um ato de divisão e exclusão dos angolanos.
Os promotores do ato decidiram unilateralmente, impor a toda a Diáspora uma data, sem consultar outras associações angolanas em Portugal.
Os subscritores, intelectuais, jornalistas, artistas, académicos estudantes e outros, sublinham que o “associativismo tem regras e as mesmas têm de ser democráticas, pois, o contrário representa clara exclusão de participação da comunidade angolana no seu todo e das associações estatutárias das Comunidades Angolanas existentes em Portugal”.
Assim, acrescentam, “reprovamos categoricamente essa iniciativa e exigimos a sua anulação até que todos os angolanos interessados sejam ouvidos sobre a data e o objetivo da criação do Dia da Diáspora Angolana em Portugal.””

Sucede que, no que respeita a Angola ( assim como à Guiné Bissau), existem vários momentos de migração forçada e em número muito significativo de Pessoas, para Portugal ( ainda que não só) – a) o chamado período do “retorno”, com a independência gerada de forma muito conflitual, internamente ao país Angola, e com bem pouca responsabilidade dos portugueses, tirando o demonstrado desinteresse na proteção dos seus nacionais à exceção da chamada ponte aérea ( que na verdade incluiu aviões e navios), onde estadunidenses e soviéticos apostaram numa radical erradicação da presença de portugueses nesse país pagando os custos dessa “ponte aérea” ( Portugal “pagou” com o imposto pelos EUA afastamento de Vasco Gonçalves de primeiro ministro, segundo relatos de membros do Conselho da Revolução do MFA), sendo que os retornados incluíam, brancos, mestiços e negros; b) a fuga para Portugal de assumidos angolanos no pós independência mplista quer de cidadãos de partidos da oposição ao MPLA de Agostinho Neto, ( UNITA, FNLA, CAC/OCA) quer de Angolanos do MPLA nitista, entre 1976 e 1977/8; c) a fuga de Angolanos em massa apoiantes da UNITA, ou alvo de perseguições etnicas ( umbundos e bakongos) no pós fase dos Acordos de Bicesse 1992/4 e na terceira guerra civil, assim como em menor número no pós Acordos de Lusaka na quarta guerra civil e rendição da UNITA

Ora, em todos esses momentos houve efetiva perseguição política, como perseguição étnica, como houve também fuga para outros países, como a RDCongo, a Zambia e a África do Sul se olharmos para as fugas mais significativas.

Com o texto abaixo podemos esclarecer o chamado ‘estado da arte’ académica sobre o tema da Diáspora,

“Diáspora” começou por ser um conceito conotado com aqueles que eram literalmente arrancados da sua terra natal e deportados para uma outra, sendo por isso associada à dispersão, como no caso das colónias imigrantes gregas, ou em relação ao extermínio dos judeus. Historicamente, a diáspora desenvolvida na terra de adoção, denotava uma clivagem entre as antigas e as novas culturas. Hoje, o conceito está associado à emigração, independentemente das causas que lhe estão subjacentes, e o seu significado tem outro lastro, por via do fenómeno da globalização.
É exatamente pelo facto deste termo estar conotado com os judeus que Stuart Hall refere que, durante muito tempo, o não utilizou por configurar um uso político dominante, associado a uma ideia de “limpeza étnica” que não podia defender (Chen, 1996: 417)…

…Robin Cohen afirma que hoje a palavra ‘diáspora’ está associada ao espaço transnacional, incluindo todas as raças provenientes das culturas que perderam as suas amarras territoriais. A pátria das diásporas assenta numa terra adotada emocionalmente e que cruza pelo menos duas culturas. Já as diásporas pós-modernas põem em causa o conceito de ‘estado-nação’, não como um local cultural homogéneo, mas plural, com uma localização subjetiva instrumental (Cohen, 1997: 128).

…Edward Said (1994) refere que a ideia de ‘imperialismo’ é controversa, com as suas práticas a assentarem, por exemplo, em atitudes originárias de um centro metropolitano dominante em relação a um governo num território distante. A noção de império consiste numa relação (formal ou
516

…Qual o significado de “Diáspora” em tempo de globalização? A relação controversa entre Império, lusofonia e “portugalidade” || Vítor de Sousa informal), em que um Estado controla a soberania efetiva política de outro, seja por meio da força, da colaboração política, ou através da dependência económica, social ou cultural. E, mesmo que o colonialismo tenha acabado, refere que o imperialismo persiste ao nível de uma esfera cultural geral, bem como nas práticas políticas, ideológicas, económicas e sociais específicas. Acrescenta que nem o imperialismo nem o colonialismo representam atos de simples acumulação e aquisição (Said, 1994).

… A ideia sugerida no parágrafo anterior por Morier-Genoud & Cahen (2013) quando se referem à vitória “postmortem” da colonização portuguesa indicia, ainda que lateralmente, uma dinâmica de “regresso das caravelas”, que consubstancia de certa forma o que Miguel Real (2012) escreve sobre a lusofonia que, mesmo que assumida como espaço cultural, é encarada enquanto ‘vocação’ histórica portuguesa. O ensaísta refere que o “lugar histórico” de Portugal é realizado na dimensão da “Lusofonia” e, atualiza a ideia de um “destino histórico” para Portugal (proposta inicialmente por Jorge Borges de Macedo), para “vocação histórica” (Real, 2012: 123-131).

… Muito embora Alfredo Margarido refira que a lusofonia “não pode separar-se de uma certa carga messiânica, que procura assegurar aos portugueses inquietos um futuro senão promissor” (Margarido, 2000: 12) e Eduardo Lourenço assinale que não constitui “nenhum reino, mesmo encartadamente folclórico” e que tem subjacente “a genealogia que a distingue entre outras línguas românicas e a memória cultural que, consciente ou inconscientemente, a ela se vincula” (Lourenço, 2004: 174), o certo é que o seu significado extravasa, segundo Moisés de Lemos Martins, o conceito de “objeto de mera curiosidade histórico-linguística ou até histórico-cultural” (Martins, 2006: 17), tratando-se de um tema que congrega interesses “que têm a ver não apenas com aquilo que os países lusófonos são como língua e cultura no passado, mas também, sobretudo, com o presente e com o destino do ‘continente imaterial’ que estes países constituem” (idem, ibidem). Moisés de Lemos Martins (no prelo) chama a atenção para a necessidade de nos mantermos vigilantes sobre todos os equívocos que possam atravessar o conceito de lusofonia.

.. Sheila Khan, assinalando que “foram produzindo nichos e universos de interculturalidade e de vivências mescladas, crioulizadas, hibridismos entre colonizados e colonizadores e que, indubitavelmente, se espraiam até aos dias de hoje” (Khan, 2008: 97-98). Retomando as ideias de Stuart Hall em relação à existência de uma interculturalidade colonial, a propósito das continuidades históricas e culturais na pós-modernidade, refere que “será importante pensar que estes mesmos hibridismos e intercâmbios culturais também se prolongaram até ao presente pós-colonial” (idem: 98).

… Associando a diáspora à emigração, há que destrinçar, no entanto, entre a que reboca uma série de constrangimentos – como refere Stuart Hall ao evidenciar que fatores como a pobreza, o subdesenvolvimento ou a falta de oportunidades, que reputa como “legados do Império em toda parte” (Hall, 2003 [1998]: 28), que podem forçar as pessoas a migrar -, com a que é destacada, por exemplo, em programas televisivos de informação, em que é mostrado o lado idílico da vivência dos cidadãos no país que não é o seu, mas onde estão por vontade própria e com uma posição social relevante, numa lógica assente em ‘notícias pela positiva’, e que não corresponde à realidade.
Sheila Khan refere que “o desejo compulsivo de uma recriação identitária sinaliza a presença de exílios identitários e, simultaneamente, pátrios, pois a impossibilidade de identificação quer com uma narrativa subjetiva que seja coerente, quer com uma ‘pátria’ é, marcadamente, inexistente” (Khan, 2008, 105). Desse modo, refere que “a consciência das pátrias e identidades imaginadas coloca-nos na senda dos rostos do exílio e do exilado” (idem, ibidem), sendo certo que “o exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pátrias são sempre provisórias” (idem, ibidem).
( O conceito de diáspora em tempo de globalização. A relação entre império, lusofonia e “portugalidade”: um contrassenso?, de Vítor de Sousa)

É pois, até academicamente, adequado chamar de Diáspora à imigração para Portugal nas várias fases acima até porque no período de 1974 /77 se assiste à destruição do sistema económico colonial e do tecido social colonial por imposição de um partido o MPLA sobre dois outros FNLA e UNITA reconhecidos nos Acordos de Alvor e mais uma meia dúzia de outros partidos que nasceram na transição para a Independência e ainda de pelo menos um importante movimento político multiétnico , o MDA, Movimento Democrático Angolano, onde CAC/OCA e a facção nitista do MPLA são os que sofrem maior repressão

Pode-se assim entender que a Diáspora Angolana em Portugal e não só ( RDC, Zambia, África do Sul, Brasil, etc.) é uma realidade incontestável e muito alargada para além até dos de nacionalidade formal Angolana ( no meu caso a mesma está dependurada ao que parece numa gaveta da Assembleia Nacional Angolana…) e daí que seja adequado fazer surgir o Dia da Diáspora Angolana como é obviamente adequado que esse Dia nasça de um consenso alargado entre as e os que pugnam por essa mesma Diaspora como faz a Liafrica, ou a Eduarda Ferronha ou o Victor Ramalho !

Joffre Justino