4 Dezembro, 2022

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Painéis solares em bairros de lata vão ajudar meninas cabo-verdianas a estudarem à noite

As casas de ’tambor’ de um bairro de lata da ilha cabo-verdiana de São de Vicente ainda sem nome começaram a receber painéis solares, projeto que pretende permitir que meninas estudem à noite, mudando a vida das famílias.

Os trabalhos arrancaram nos últimos dias na zona acima de Canalona, arredores da cidade do Mindelo, escolhida pela Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) para o arranque do projeto “Luz para as meninas”, que consiste na colocação de painéis solares em 50 casas de lata.

Estes moradores, que dividem a vizinhança com chiqueiros, há muito que pedem também saneamento, numa paisagem dominada por casas de ‘tambor’, onde também não chegou eletricidade ou estradas.

O projeto da OMCV prevê 100 destes ’kits’ e o primeiro financiador, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, suportou o custo dos primeiros 50 painéis solares, que já começaram a fornecer eletricidade às primeiras casas que está a trabalhar com a empresa Prosol e assim conseguiram reduzir os custos dos equipamentos num projeto que abrange ainda formação e instalação, avaliado em mais de um milhão de escudos cabo verdeanos 9000 euros.

A Prosol está envolvida desde o início neste projeto, tendo sido contactada por um dos precursores, salientando a utilidade do mesmo: “Não tivemos muitos ganhos financeiros com o projeto, pelo que tentamos que o equipamento fosse mais acessível possível para que mais famílias pudessem ser abrangidas”.

Os painéis irão permitir aos moradores terem luz durante a noite e garantir algo tão simples como recarregar o telemóvel, projeto que também já levou anteriormente ao município do Paul, ilha de Santo Antão.

“Fornecemos em 2018 à Câmara do Paul um equipamento parecido para oferecerem à população da comunidade de Santa Isabel que não têm acesso à eletricidade. Mais recentemente encontrei um fornecedor com estes outros equipamentos, mais interessantes por causa de algumas especificidades. Um deles é que para além de ser possível carregar o equipamento através de painel solar, como o outro, pode ser recarregado de forma manual, através de uma corda”, especifica o engenheiro, que espera que outras entidades, nomeadamente autarquias, agarrem a ideia e alcancem outras comunidades.

Com este projeto, a OMCV pretende chegar a cinco zonas da ilha de São Vicente, instalando painéis solares em dez casas previamente identificadas, em cada área, em que haja no mínimo uma menina a estudar, independentemente do nível de ensino.

“Este dinheiro não veio da igreja [Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias], veio de missionários como eu, de pessoas pobres e outras com algum dinheiro que contribuem para trabalhos humanitários em todo o mundo. Para nós não é apenas a luz física ou visível que estamos a entregar, é a luz de incentivar as pessoas a terem animo para melhorar as suas vidas, terminarem a escola e terem esperanças no futuro”, explica à Lusa Joseph Haynie, que se encontra em Cabo Verde, acompanhado da esposa, há oito meses.

Este é o quinto projeto financiado por membros daquela igreja, desde 2015 e o segundo por este grupo de missionários.

Dos 23.976 edifícios recenseados na ilha de São Vicente, apenas 68,5% estão concluídos, o terceiro pior registo dos 22 concelhos (nove ilhas habitadas). E desse total, 7,3% são considerados como edifícios “não clássicos”, que o INE descreve como barracas ou casas de bidão, a percentagem mais elevada do país e que corresponderá a 1.750 desses edifícios só em São Vicente, mais de metade dos 2.977 contabilizados em Cabo Verde.

As construções de casas informais nas ilhas de Cabo Verde têm aumentado, pois de acordo com dados do recenseamento realizado em 2010, foram identificados 1.603 edifícios “não clássicos” em Cabo Verde, pelo que os dados de 2021 indicam um crescimento de 85,7%.

A maioria das ’barracas’ está localizada em São Vicente (7,3%), seguindo-se o Sal (6,6%) e a Boa Vista (3%).
( base A Semana, Cabo Verde)