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Morreu um amigo

por Joffre Justino

Apesar de largas divergências quando apoiou a Unita Renovada nunca deixei de o sentir como amigo e lamentando a sua morte deixo no Estrategizando a noticia que o Folha8 jornal angolano fez sobre a sua morte 

O antigo Chefe do Estado-Maior das FALA, braço armado da UNITA e Vice-Ministro da Defesa Nacional no âmbito do GURN, General Demóstenes Amós Chilingutila, morreu na manhã de hoje, domingo, na Província do Huambo, vítima de doença, aos 73 anos de idade. Foi um dos Angolanos presentes na assinatura do Acordo de Alto Cauango realizado em 19 de Maio de 1991 entre as forças então beligerantes das FALA e das FAPLA, mediado por William Tonet e que veio a ser a base para o Acordo de Bicesse.

Do texto do acordo consta:

1 – Generais Arlindo Chenda Pena “Ben-Ben”, Demóstenes Amós Chilingutila, Nogueira Canjundo, Brigadeiros, Januário Consagrado, Adriano Wayaka Mackenzie, pela UNITA.

2- Coronéis Higino Carneiro, Agostinho Fernandes Nelumba, Tenente-coronel, José Alexandre G. Lukama, Majores, Bento Sozinho “Venceremos” e Manuel Henrique Gomes, pelo Governo.

3- Os pontos propostos para discussão foram os seguintes:

4- Discussão do posicionamento das tropas envolvidas nas últimas actividades combativas, 1º Luena, 2º, outras frentes.

5- Regularização das tropas da UNITA que fizeram movimentações depois dos dias 14 e 15-05-91, para o interior e proximidade do Luena.

6- Estabelecimento de corredor de segurança num raio de 10 quilómetros entre as duas forças.

7- Garantias para a circulação de colunas rodoviárias e aéreas para transporte e abastecimento às populações.

8 – Diversos.

9- O resultado dos contactos permitiu alcançar os seguintes objectivos:

10 – Reafirmar a posição dos militares poderem cumprir e fazer respeitar os acordos alcançados em Portugal, para se alcançar a paz em Angola.

11- As partes aprovaram por unanimidade estabelecer um canal oficial de contactos telefónicos, para a resolução de todos os incidentes a nível do Luena e Nacional.

12- As partes sugeriram e consideram imperativo transformar as Delegações em Comissão Militar Provisória para a resolução de assuntos referidos no ponto anterior.

13- As partes acharam imperativo a criação de sub-comissões para verificação e controlo, a livre circulação rodoviária, aérea e ferroviária, para o transporte de pessoas e bens, desde que não transportem material letal, para o efeito condicionam o movimento a verificação por uma sub-comissão de cinco pessoas por cada parte, no Luena.

14- As partes concordaram indicar a localização das minas em todas as rotas de circulação, pelo que decidiram proceder desde já à sua desminagem na Zona Militar do Moxico, em primeiro lugar.

15- As partes decidiram exercer um maior controlo das tropas de ambas as partes que se encontram próximas, no sentido de se evitar confrontos.

16- As partes propõem a cessação da difusão de comunicados militares que façam referência a incidentes pontuais e esporádicos, cuja solução deverá ser feita através dos canais criados.

17- As partes acordaram a troca de informações diárias por via rádio, no Luena.

18- As partes agradeceram a mediação do senhor Jornalista, William Tonet, que permitiu a realização do encontro.

19- O encontro realizou-se num ambiente de cordialidade, franqueza e irmandade entre as partes militares angolanas.

Luena, Alto Cauango, aos 19 de Maio de 1991.»

Em 1991, quando as forças da UNITA sitiaram por 57 dias a cidade do Luena, William Tonet, que cobria o conflito, enquanto jornalista da Voz da América, foi confrontado com uma interferência nas suas comunicações, por parte do então general da UNITA, Mackenzie, nos seguintes termos: “Senhor William Tonet, você já é um jornalista internacional e não pode ter uma visão só de um lado”.

Tonet respondeu de imediato desafiando o general a aceitar que este atravessasse a linha de fogo, para o lado sob controlo das então forças militares da UNITA. Feito o acordo, o jornalista andou cerca de 20 quilómetros a pé, para se avistar com o seu já então amigo General “Ben Ben”. Aí chegado, empreende um conjunto de propostas no sentido de viabilizar uma trégua, para pôr fim ao conflito, ao que este sugeriu, contacto com Jonas Savimbi, que poderia aceitar ou não a iniciativa, face às muitas suspeitas em relação ao adversário.

Coincidentemente, os mesmos receios encontrados no lado contrário, com o então coronel das FAPLA, Higino Carneiro, que indicou igual caminho, para se contactar o presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Foram, quatro dias de intensas negociações que William Tonet encetou com os líderes da UNITA e do MPLA, visando que estes aceitassem, que os seus cabos de guerra, rubricassem no dia 19 de Maio um acordo de tréguas de paz que ficou conhecido como os acordos do Alto Cauango, que foram a “mãe” dos acordos de Bicesse. Ben Ben, Higino Carneiro e William Tonet foram os subscritores.

Legenda: William Tonet entre as delegações militares das FAPLA e das FALA.

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