Home Efemérides O 18 de janeiro de 1934 e João Ferreira que quer afetos para “os imprescindíveis deste país”

O 18 de janeiro de 1934 e João Ferreira que quer afetos para “os imprescindíveis deste país”

por Joffre Justino

A greve geral de 18 de janeiro de 1934 foi,  a par  da terrível agitação política e cultural gerada pelas cartas do general Norton de Matos, grão mestre do Grande Oriente Lusitano e de Fernando Pessoa líder do Direito Humano portugues em defesa da Maçonaria e contra a sua ilegalização imposta pela parelha  Salazar/Cerejeira ( na altura talvez o contrário, ainda), o primeiro grande desafio colocado a Salazar após a entrada em vigor da Constituição de 1933 e das leis laborais do novo regime, que dissolveram os sindicatos e proibiam expressamente as greves. 

Unidas formalmente num Comité de Unidade as diversas organizações sindicais planearam uma revolta geral que deveria paralisar o país nesse 18 de janeiro mas as divisões entre anarquistas comunistas e o que restava dos socialistas de origem assim como a deficiente coordenação entre os diversos núcleos só conduziram a greve geral ao fracasso ( velhos defeitos estes que hoje se repetem entre os candidatos das Esquerdas às hodiernas presidenciais e os impedem de verem as virtualidades da Unidade) 

A adesão das zonas operárias da margem sul e a insurreição dos meios urbanos contra o regime, não aconteceram e vale recordar o  número dois da série ilegal de O Proletário, jornal da CIS – Comissão Inter-Sindical, editado entre Março e Julho de 1934.

Nele publica-se uma entrevista com «um dos dirigentes do Partido Comunista e do Sindicato Vermelho Vidreiro da Marinha Grande» envolvido no levantamento de 18 de Janeiro. Conta este dirigente que «pelas 2 horas do dia 18, fizemos a distribuição das nossas forças de choque. Tudo se fez de uma maneira organizada. Os nossos camaradas distinguiam-se por uma braçadeira vermelha com a foice e o martelo. Um grupo numeroso seguiu a cortar as comunicações. Ao mesmo tempo, três outros grupos marchavam a ocupar, simultaneamente, os Paços do Concelho, a estação telegráfica e o quartel da GNR. As armas eram apenas o que se tinha podido arranjar; algumas espingardas caçadeiras, duas pistolas e umas cinco bombas».

Foi no posto da Guarda que se concentrou a resistência. «Porém, já todos os pontos estratégicos da vila se encontravam nas nossas mãos. Por outro lado, já toda a massa operária da Marinha Grande estava na rua, apoiando os poucos homens armados que possuíamos. O quartel ficou completamente bloqueado e foram dados quinze minutos à força para se render. Recusou. Desencadeou-se o ataque.

Duas horas de tiroteio e veio a rendição. A força foi desarmada e o comandante solicitou-nos que impedíssemos possíveis vinganças. Lembra-se de dezenas das suas vítimas que andavam pelas ruas… Concordámos em que o melhor meio de os salvaguardar contra isso, seria conservá-los prisioneiros, sob a guarda de camaradas de confiança. Por isso os conduzimos para uma fábrica de vidros. Mas repara: apenas os que temiam represálias para ali foram. Dois, por exemplo, não temeram represálias, seguiram para as suas casas e ninguém lhes fez mal.» Vencida a GNR, cessou toda a resistência. «Às cinco horas da manhã toda a Marinha Grande estava nas mãos do proletariado e milhares de trabalhadores percorriam a vila vitoriando o nosso Partido», afirmou.

O ataque das forças da repressão começou mais tarde, e com recurso a todos os métodos. «A pouca distância da Marinha Grande, ouvimos passos de muita gente próximo de nós. A pergunta de “Quem vem lá?” respondeu-nos um arrogante “Forças do Governo!” e uma descarga. Caiu um camarada ferido. Ripostámos e durante alguns minutos se estabeleceu um nutrido tiroteio. Sentíamos que a força atacante se afastava. Avançámos. Tinham abandonado os feridos, na estrada. Mas, entretanto, entrava a artilharia em acção.»

A tudo o fascismo recorreu. «Era loucura prolongar a resistência. Pouco mais de vinte possuíamos armas de fogo. O Governo opunha-nos artilharia, cavalaria, infantaria, metralhadoras… e até um avião que já voava sobre a vila, para regular o tiro da artilharia!» Os trabalhadores retiraram «em boa ordem para o pinhal. Porém, só cerca das onze horas os “heróicos” mantenedores da ordem entraram na Marinha Grande. Decidimos dividir-nos em pequenos grupos de quatro a cinco, e abandonar a luta procurando iludir o cerco. Ainda isto se fez de um modo organizado. Os camaradas que têm dinheiro dividem-no pelos que o não têm. Há gestos admiráveis de camaradagem. Um camarada que possuía 600 escudos fica apenas com setenta, dividindo o resto pelos camaradas! Abraços… comoção e separámo-nos…»

( in, https://www.dorl.pcp.pt/index.php/histria-do-pcp-menumarxismoleninismo-103/85-momentos-da-historia-do-pcp/207-artigos-de-85-momentos-da-historia-do-pcp/268-70-anos-do-18-de-janeiro-de-1934-na-marinha-grande)

Foi implacável repressão das forças policiais e militares do regime com uma vaga de rusgas e prisões que abalou todas as organizações sindicais e políticas de oposição neste já salazarento país e na  prisão do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, um terço dos reclusos eram participantes na revolta da Marinha Grande, e alguns acabariam por lá morrer devido às condições terríveis do campo.

O 18 de janeiro teve um profundo impacto nos círculos da oposição ao regime de Salazar, agravando as divisões e a desconfiança entre anarco-sindicalistas, comunistas e e restantes Republicanos levando ainda  as organizações operárias em Portugal a uma fragilização que ainda hoje se sente

Pois o candidato João Ferreira foi ao encontro com a História anti fascista e alertou  para aquilo a que chama de contrassenso no discurso do governo e as políticas implementadas sobre a demografia e o apoio às jovens famílias quando se assinalam o 87.o ano da revolta dos vidreiros.

Entre o discurso e as opções políticas, “a contradição que existe entre o discurso aparentemente preocupado com o grave défice demográfico que o país atravessa e as políticas que tornam inviável a decisão de qualquer jovem casal de poder ter filhos”. E o candidato traça um quadro de problemas que afetam os jovens casais e que podem ser ouvidos no áudio que anexamos a esta notícia.

Em terra de vidreiros, em dia de homenagem a estes trabalhadores, apontou o dedo ao atual presidente da República, dizendo que “precisamos de um presidente da República que tenha os seus primeiros afetos para os imprescindíveis deste país”, os que trabalham aqueles que “saíram ou saem de casa todos os dias para manterem o país a funcionar”.

João Ferreira assume que tem recebido lições de todos os trabalhadores com quem se tem cruzado na campanha e a coragem para enfrentar tempos difíceis. E é com estes que quer estar. “Até ao último dia é hora de ir ao encontro dos portugueses, dos que estão indecisos, desiludidos, daqueles que possam mesmo ter perdido a esperança”.

Para os presentes com João Ferreira este é um dia símbolo da resistência, da luta e da defesa da liberdade e da democracia e João Ferreira contou com o apoio de 1565 membros de organizações do trabalho, que tiveram voz através de Isabel Camarinha, da CGTP.

O secretário geral do PCP participou na ação de campanha destacando a “singularidade” da candidatura de João Ferreira “em defesa das causas dos trabalhadores e do povo” e afirmando que uma “atitude corajosa” do presidente da República “poderia travar movimentos populares”.

Para Jerónimo de Sousa a Constituição, “precisa de ter na Presidência da República alguém que a defenda” e, por isso, pretende que, ao longo da semana, se amplie “a corrente de simpatia”, na candidatura cujo “único compromisso que tem é com o povo”, lembrando ainda que “não há vencedores antecipados” e que “é no fim que se contam os votos”.

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