Home Brasil “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”

“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”

por Carolina Rodrigues

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.”

     Em contagem regressiva para o fim do ano, inicio o presente texto citando o trecho da canção “Sujeito de Sorte”, de Belchior. Afinal, quem conseguiu chegar até aqui “são e salvo e forte”, pode se considerar um sujeito de sorte.

     Contudo, chegarmos até aqui não significa chegarmos ilesos. Creio que todos nós, atravessados pelas intempéries deste ano devastador, “sangramos demais e choramos pra cachorro” em muitos momentos de 2020. Mais do que isso, morremos um pouco junto com cada uma das 1.807. 638 vítimas fatais de um inimigo invisível com o qual lutamos juntos no mesmo front.

     Nossa capacidade de identificação nos coloca em posição de enxergar em cada despedida de um desconhecido o rosto de um daqueles que amamos: estamos todos submetidos à fragilidade da vida. Estamos todos condicionados à inevitabilidade da morte. E é essa condição de igualdade que nos conecta, como membros de um só corpo chamado humanidade  –  a perda de um é a perda de nós todos.

      Em 2020 essa morte simbólica que cruzou a todos, inevitavelmente, não veio atrelada somente às perdas de vidas, mas às inúmeras outras perdas sofridas em meio à pandemia: perdas materiais; perda de estabilidade emocional e financeira; perda de segurança; perda da liberdade de ir e vir; perda do que se tinha como referência da vida.

      E o que esperar de 2021, que bate à porta nos trazendo um ar de alívio, como se a virada do ano significasse a cura de todo mal?  

    Esperamos VIDA! Que nossos olhos, fatigados de ver injustiças, indiferenças, descasos e sofrimentos, consigam olhar para trás e enxergar, para além de toda dor, as mãos estendidas em solidariedade no isolamento; os esforços da comunidade científica em busca da cura; a entrega imprescindível dos incansáveis profissionais de saúde; o empenho social pelo cumprimento dos protocolos que garantiram a manutenção do bem estar comum; enfim, as flores que brotaram na aridez de um ano desértico. E que, assim, nossa esperança vença à morte cantando Belchior: “se ano passado eu morri, esse ano eu não morro.”

Por: Carolina Rodrigues 

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