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O Brasil tomado pelo vírus da desesperança

por Carolina Rodrigues

Às vésperas do fim de mais um ano, o brasileiro se arrasta, exausto, a caminho de 2021.

Certamente, 2020 foi um ano difícil para o mundo todo. Atravessados pela maior crise sanitária da história, todos os países do globo se igualaram. Dividindo angústias, lágrimas e lutos, atravessamos juntos o ano de 2020, guiados por uma esperança: a vacina – aquela capaz de trazer a metáfora: a lufada de ar em um momento irrespirável.

No entanto, se todos os países estão juntos, somando forças para navegarem no mar revolto da pandemia, o Brasil parece ser aquele que prefere a deriva. Na contramão do mundo, Bolsonaro faz troça da doença, desdenha as mortes, inflama o negacionismo e nega o direito à vacina.

Sustentado por uma narrativa que mistura discurso antissistema, um populismo que explora a imagem de “homem do povo”, mais próximo do cidadão comum do que os demais políticos, e conservadorismo exacerbado, Bolsonaro consegue manter sua aprovação girando na casa dos 30%. Embora pareça pouco, não ver o presidente perecer na lama que eles nos faz chafurdar, gera desespero na maioria que, de tanto dar braçadas no lamaçal, já tem os braços dormentes sem conseguir chegar a lugar algum.

Talvez isso explique o fato de que em meio a falta de leitos e de insumos, com o sistema de saúde prestes a colapsar e a média de mortes por covid-19 em ascensão, tendo voltado a ultrapassar a marca de 900 óbitos em um dia, o descontrole tome conta e já não se mostre possível desfazer a nuvem de desesperança que paira sobre o céu do país.

Bares cheios, praias lotadas, festas particulares, transeuntes sem máscara, aglomerações tornaram-se cada vez mais comuns, demostrando mais do que o descaso pela vida ou a irresponsabilidade dos cidadãos – discurso simplório para dar conta da complexidade que se impõe – , mas a exaustão, que leva não apenas a incapacidade de re (ação), mas à apatia e à dessensibilização.

Afinal, há cerca de 10 meses o governo Bolsonaro brinca com o vírus e faz o povo dançar com a morte na corda-bamba das incertezas. Cerca de 10 meses que o trabalhador precarizado tem que enfrentar metrôs, ônibus e BRT’s lotados para ir para o trabalho, colocando a si e aos seus em risco por um parco salário que se torna cada vez mais insuficiente diante da inflação crescente. E àqueles que nem trabalho tem, um mísero auxílio de R$ 300,00 que não compra o básico. Falta dinheiro, falta alimento na mesa, falta gestão da crise, falta vacina e, claro, falta esperança. 

Claro que não se faz possível, sob hipótese alguma, justificar a irresponsabilidade de muitos. Mas, tampouco deve-se menosprezar e condenar  a exaustão e desesperança do nosso povo. Uso de máscara, distanciamento social, higienização são medidas profiláticas fundamentais em se tratando do novo coronavírus e devem ser respeitadas para o bem comum. Trata-se de um pacto social e coletivo, que obviamente foi quebrado e deve ser retomado.

Porém, para que isso ocorra, seria necessário muito mais do que medidas restritivas e apelo à conscientização da população;  seria necessário uma política séria e comprometida com a saúde e vida dos brasileiros, que traga esperança de dias melhores, coisa que, infelizmente, não é o compromisso de Bolsonaro.

Por Carolina Rodrigues 

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