Home Angola O 1.o de Dezembro, os Mitos e as Independências!

O 1.o de Dezembro, os Mitos e as Independências!

por Joffre Justino

Um pais nasce  a 5 de outubro de 1143 com Afonso Henriques a assinar com o primo Afonso VII de Leão e Castela  o Tratado de Zamora que reconhece a soberanía portuguesa vê a independência outorgada definitivamente pelo papa Alexandre III  a 23 de maio de 1179 com a Bula pontifícia Manifestis Probatum 

Esse país nasce e cresce apadrinhado por uma organização militar religiosa a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão e desta nasce a Expansão portuguesa entre feitos gloriosos e dramas horrendos por Pessoas desenvolvidos como sempre.

Vai doer a alguns mas a verdade é que entre os horrores da escravatura estão também os sobas dos de Cabinda aos do restante reino do Congo aos do de Ngola aos dos Umbundos etc…pois entre as suas inter-guerras os aprisionados eram os vendidos aos portugueses… ( o que nao impede que estes e os seus mestiços tenham feito as suas capturas, nem impede que os portugueses devam um imenso pedido de desculpas aos Negro Africanos) 

Como vai doer a outros mas se um desses “Reis de Portugal” tivesse reconhecido a razão ao “Rei do Congo” que lhe escreveu sugerindo a construção das caravelas ali na foz do Zaire e o mundo teria seguido um percurso nem hispânico nem anglosaxónico nem francófono  nem germânico nem russo-eslavo… burrices que o tempo fez pagar!

Eram bem reduzidas as minorias pensantes que iam além das bizantinices nascidas com a repetição repetitiva de uma Bíblia que nunca teve culpa da burrice humana hoje patente nas limitações trump-bolsonarescas uma doentia continuidade das loucuras dos inquisidores e essas minorias esforçaram-se nas clandestinas cautelas que usámos nós codigos de comunicação entre celas na prisão de Caxias ( como em Peniche)  por manter em aberto o espirito investigativo e experimentalista e por promover os debates que decorreram por inúmeras regiões também europeias  entre elas Portugal 

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Nesses debates estarão as Profecias (ou trovas) do Bandarra escritas talvez na primeira metade do século XVI isto é em pleno período de arranque da lusa expansão, por um sapateiro de Trancoso, chamado António Gonçalves Annes Bandarra ou Gonçalo Annes Bandarra, enfim “ o Bandarra”.

São versos com nada de especial dizem os experts mas que tiveram um forte impacto num momento concreta da história de Portugal e assim um sapateiro dedicou-se à poesia  profética vinda dos seus sonhos e espantemo-nos por razões que não são totalmente claras, a mesma tornou-se popular

As trovas de Bandarra também profetizam um conjunto de fantásticos eventos futuros associados a uma figura a que o autor chama o “Rei Encoberto”,  capaz de levar Portugal a tornar-se o Quinto Império, que hoje tão bem conhecemos a partir sobretudo de poemas de Fernando Pessoa.

Durante décadas esteve encoberta   quem viria a ser esse rei, so que o duvidoso desaparecimento do jovem rei Sebastião em Ceuta, no ano de 1578 gerou um renascer do interesse pelas Trovas de Bandarra e pela questão do tal rei encoberto 

E assim surgiu o sonho dd que o jovem rei iria regressar a Portugal e com o regresso cumprir-se o Destino tornando-se a figura profetizada em versos de Bandarra como:

Ja o Leaõ he experto

Mui alerto.

Ja acordou, anda caminho.

Tirará cedo do ninho

O porco, e he mui certo.

Fugirá para o deserto,

Do Leaõ, e seu bramido,

Demostra que vai ferido

Desse bom Rei Encuberto.

Mais essa profecia aplicou-se  a D. João IV, o primeiro rei surgido com o derrube do domínio filipino, a ver:

Saia, saia esse Infante

Bem andante,

O seu nome he D. Fuão [ou D. João, mediante a edição consultada],

Tire, e leve o pendão,

E o guião

Poderoso, e tryunfante.

Entre as dores do combate que foi prolongado pela Independência o povo acreditou que as profecias compostas por Bandarra eram verdadeiras e assim um rei  teria de vir a transformar Portugal num Quinto Império. 

Mas este mito prolongou-se para além ate do fim da monarquia dada a forte  relação do “africanista” Fernando Pessoa com Bandarra e que foi duradoura (pois já na  adolescência a veia sebastianista se revela em estudos e projectos como A study of prophecies relating to PortugalO Futuro Oculto de Portugal ou  na Mensagem, onde Bandarra é um dos três profetas do V Império, com Vieira e Pessoa, mas também na paixão deste poeta pensador por Sidónio Pais e o leva a entrevistas como uma em 1923, onde dirá a Augusto Costa: «O Quinto Império. O futuro de Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé?»

As Trovas de Bandarra fizeram parte dos livros proibidos de 1581, por servir a causa da independência de Portugal tomando como mito o sebastianismo e em 1603, em Paris, sai do neto de D. João de Castro, uma obra a Paráfrase e Concordância de algumas profecias de Bandarra, sapateiro de Trancoso e em Nantes surge, em 1644, já depois da restauração da independência a 1ª edição das Trovas, a que se seguirão impressões com novos corpos, tal o 2º e o 3º na de Barcelona, 1809 (Trovas do Bandarra… oferecidas aos verdadeiros portugueses devotos do Encoberto), Bandarra descoberto nas suas trovas. 

Fernando Pessoa escreverá em 1934, «Bandarra é um nome colectivo, pelo qual se designa, não só o vidente de Trancoso, mas todos quanto viram, por seu exemplo, à mesma Luz. Este Terceiro Corpo não é, nem poderia ser, do Bandarra de Trancoso. Dizemos, contudo, que é do Bandarra … um nome colectivo, e designa não só um homem, o primeiro português que teve a visão profética dos destinos do país, senão também aqueles outros, que se lhe seguiram, e que, servindo-se do seu tipo de visão e da sua forma literária. A identidade do tema, a semelhança dos processos, proféticos como literários, a perfeita continuidade espiritual dos sequazes com aquele a quem seguiram, justificam que aceitemos, para a simplicidade da alusão, a designação «Bandarra» como distintiva do autor destas profecias» 

Além de Pessoa também o padre António Vieira comentou se centrou  em Bandarra, não só na História do Futuroe nas defesas nos processos inquisitoriais

Pessoa pensador de muitas e também maçónicas clandestinidades  viu o padre António Vieira na Ordem Templária de Portugal onde Pessoa se afirmou também iniciado nos três graus menores.

E neste 1.o de dezembro nada como recordar uma poetisa em Angola nascida e de uma família também bastante ligada a uma outra Independência- a de Angola Alda Lara! 

TESTAMENTO

«À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura,

Sonham do algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva,

Todo tecido de renda…

Este meu rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes,

Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada…

Esses, que são de esperança,

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor…

Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora…

Com passos feitos de lua,

Oferecê-los às crianças.»

Que encontrares em cada rua…

Alda Lara

Poetisa angolana, Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu a 9 de junho de 1930, em Benguela.j

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