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O 25 de Novembro de 1975

por Joffre Justino

Quanto ao «Grupo dos Nove», Melo Antunes (tal como Eanes e Costa Gomes) defendia uma solução política da crise. Indo no dia 26 à televisão declarar que «a participação do PCP na construção do socialismo era indispensável», deu importante contribuição para a defesa da democracia. (Álvaro Cunhal)

Comecemos com uma Declaração de Princípios de raiz marxista – as revoluções não nascem pela vontade dos ativistas que a anseiam, nascem, desenvolvem-se e concretizam-se se além dessas vontades existirem circunstâncias que reforçam ou limitam as mesmas!

Então vejamos,

  1. O fascismo destruiu os sindicatos e anulou o sindicalismo anarco sindicalista e as lutas dos trabalhadores foram sobretudo economicistas entre 1933 e 1958 ( exceto a Marinha Grande heroica mas estritamente localizada); a guerra colonial originou  a seguir às movimentações populares da campanha eleitoral de apoio a Humberto Delgado a grande rotura histórica com o regime fascista que justifica o enorme processo migratório entre a Europa e a busca das ex colónias tudo para fugir ao impasse gerado por uma sociedade bloqueada no plano económico ( um empresário para o ser só com cunha junto do regime..) 
  2. As eleições de 1969, a “abertura marcelista”, e as noticias que “vinham de fora” comparando com Portugal aceleraram a contestação mas urbana e envolvida numa crescente melhoria das condições de vida com exceções como a luta por causa do assassinato de Ribeiro Santos.
  3. O 25 de abril de 1974 trouxe a Portugal um golpe de estado, uma “revolução vinda de cima” que se confrontou com um povo dividido entre urbanos e rurais, crentes e não crentes do continente e retornados ( e a entrada de um número significativo de afro lusos garantidamente de raiz étnica diversa em Portugal com também uma enorme diversidade cultural) que complexizou a realidade socio económica portuguesa. 
  4. O chamado PREC e os partidos e movimentos que nele agiram não atenderam a essa complexidade e sobretudo a perceção da forma desastrosa como correu a Descolonização e que trouxe temores aos retornados e perplexidades aos cá viventes e geraram rejeições à mudança que se iam espalhando de norte a sul do país.
  5. Note-se que as descolonizações em outros países foram tão ou mais desastrosas para todas as partes envolvidas e aqui há que inserir as conflitualidades expansionistas americana / soviética geradoras de n golpes de estado destruidores mundo fora que bloquearam por exemplo o papel inicialmente positivo dos Não Alinhados.
     
  6. No espaço de expressão portuguesa está à vista o caráter altamente negativo da forma como se desagregaram os tecidos económico sociais em cada uma das ex colónias e na sua inter ação com impatos altamente negativos em Portugal na sua economia em especial por consequência da imposição das lógicas sovietistas nas ex colónias.
  7. Não é pois por acaso o recuo estratégico da luta política dita revolucionária após o 11 de novembro de 1975 o que sempre me levou a interligar tal recuo à visão internacionalista do PCP ( e vou sintetizar) que mesmo com divergências internas fortes vimos a liderança de Álvaro Cunhal impor-se e ao 25 de novembro foi complicado mas não tanto assim travar neste partido um impeto suicida o que só deixou descalça  a chamada extrema esquerda com Melo Antunes e Mário Soares a par de Eanes e Vasco Lourenço a liderarem o país para uma “democracia à ocidental” que obteve à volta de 72% de eleitores em 1975 para os 75 % de nas eleições de 1976 e se retirarmos o CDS ficamos com 64% em 1975 e com 60 %  em 1976 pois este partido cresce 9% dos votos num ano o que releva um crescendo da contra revolução conservadora e ultra conservadora em cinco meses após o 25 de novembro, como consequência do PREC e da sua derrota a 25.11.1975, mas na verdade um crescendo bem limitado mostrando o como o salazar/marcelismo pouco valia em base eleitoral política e social.
     
  8. E é nessa perspetiva que me permito dizer que o 25 de novembro só não foi mais positivo para o país porque as Esquerdas se dividiram tão traumáticamente que se fragilizou ao ponto de perder capacidade de intervenção na economia por se enquistar estritamente na defesa de um 11 de março de 75 nacionalizador que na verdade  se limitou somente a salvar a economia estatista nascida com o salazarento.
  9. Ainda hoje o vicio estatista domina toda a Esquerda que deixou a economia social às mãos da igreja catolica e a economia solidária às mãos de uma parcela da esquerda radical cansada das “lutas ideológicas” das suas várias esquerdas se enquistam na economia local deixando de lado a regional a nacional e a internacional.

Podemos pois inferir pelo menos para o debate que urge fazer que a luta social e política dos trabalhadores portugueses é desde 1975 basicamente economicista e defensista em consequência da enorme divisão vivida nas Esquerdas e esse defensismo é alimentado pela entrada de capitais da CEE usados da forma mais disparatada pelo cavaquismo que gerou uma sociedade centrada em30% do território nacional enriquecida à custa da construção de habitações e estradas  que cria à volta da economia de construção uma economia de serviços abandonando a agro silvo pecuária e a indústria.

Nasce assim esta sociedade de cultura e vícios burgueses que alimenta uma casta política que se satisfaz com uma Democracia de 50% dos eleitores e com umas esquerdas satisfeitas pela sua função auto destruidora.  

Antonio Costa e Jerónimo de Sousa perceberam a necessidade de superar esse impasse e de tal nasce a Geringonça com a adesão do BE.

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