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EÇA DE QUEIROZ E O BRASIL

por Paulo Martins

Eça de Queiroz, um de meus escritores prediletos, continua tão vivo que de vez em quando perturba o sono dos poderosos, não só em Portugal como em toda a comunidade de língua portuguesa. 

Autor de uma linguagem irônica e mordaz como poucos autores conseguiram até agora, sua simples lembrança surpreende, espanta, amedronta, desnuda e ridiculariza aqueles que lhe serviram de modelo no passado ─conservadores e poderosos ─ que continuam mais poderosos e mais conservadores ainda no presente. Eça é daqueles escritores que não perdem a atualidade. 

Hoje cedo, quando liguei meu computador, a primeira coisa que li foi este artigo do poeta, escritor e jornalista baiano Ruy Espinheira Filho, publicado no maior jornal do Norte e Nordeste do Brasil A TARDE. Muita coincidência, pois estou, justamente agora, revisitando a obra do maior escritor do realismo português. Precisei passar do café para o vinho, ao tempo em que acompanho a reviravolta nas eleições americanas, em que o mais poderoso e perigoso conservador do planeta está sendo expelido do poder. 

Ah se Eça estivesse vivo para alfinetar os seguidores de Trump com mais uma poderosa “farpa”! Mas, pelo menos, temos Ruy Espinheira Filho, que conseguiu incorporar a ironia de Eça num artigo contundente sobre a submissão do Brasil aos Estados Unidos.

EÇA E HOJE

RUY ESPINHEIRA FILHO

Fazia tempo que eu não revisitava “Uma campanha alegre”, livro (na minha coleção, em dois volumes) em que Eça de Queiroz reuniu “As farpas”, seus textos jornalísticos tremendamente críticos e irônicos. 

Foi uma espécie de luta movida por ele e Ramalho Ortigão contra as mazelas portuguesas, o que, se certamente irritava os conservadores, sem dúvida divertia enormemente o público em geral. E ajudava o país porque, como se sabe, “castigat ridendo mores”, como escreveu o poeta neolatino Jean de Santeuil, ou, em bom português, “rindo castiga os costumes”. 

Porque o humor e a ironia são ótimos para iluminar e denunciar a estupidez humana em suas múltiplas manifestações.

E Eça castigava, castigava, sem dó nem piedade… 

Um dos textos que me divertiram especialmente foi, nesta atual leitura, o que se refere às colônias de Portugal. Naquela época, finais do século XIX, o Brasil já estava independente, mas tinha sido colônia portuguesa não muito tempo antes. E certamente a mais importante colônia, enlouquecendo lusitanos e outros povos com as suas riquezas, as quais foram brutalmente saqueadas ao longo dos séculos. 

Do Brasil para Portugal e de Portugal para outros países, principalmente a Inglaterra. 

Enfim, fomos sistematicamente explorados pela Europa enquanto colônia. 

E hoje?

Mas falemos primeiro das colônias do tempo do Eça. 

Como Portugal se encontrava em plena decadência (e D. Sebastião continuava teimando em não voltar), imaginem a situação das colônias. 

Ficavam lá, à toa, pertencendo no papel a Portugal, mas, na verdade, a qualquer um. 

Com a marinha lusitana então praticamente inexistente, como tais possessões poderiam ser protegidas? 

Ficavam só esperando alguma ajuda, algum investimento para melhorar a situação – e nada. Segundo Eça, quando as súplicas por providências eram maiores – Portugal reagia enviando às colônias… desembargadores! 

Desembargadores depois de desembargadores, “catadupas de desembargadores”, para citarmos palavras do Eça. 

Quando muito, às vezes Portugal remetia para lá um governador e, agradecidas, nas palavras de Eça, “as colônias mandam à mãe-pátria – uma banana.”

Faziam bem aquelas colônias… 

E o Brasil, que antes deixara de ser colônia, como está atualmente? 

Se ergue um pouco a cabeça – lá vêm os cascudos dos EUA e de mil multinacionais… 

Sim, tem que se deixar explorar à vontade, mesmo porque é o que certos vendilhões brasileiros desejam. 

Subdesenvolvido, cachorro e tamanco, tudo debaixo do banco… 

E o que ainda nos resta, o que podíamos chamar mesmo de “nosso”, o que escapou, agora vai ser oficial e baratamente vendido. 

E assim continuaremos nós, submissos, até que não tenhamos para lhes dar mais nada – nem mesmo uma banana

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