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O que é Cultura do Estupro?

por Carolina Rodrigues

Em termos gerais a expressão “cultura do estupro” informa sobre a  banalização e normalização da violência contra as mulheres, em especial a violência sexual, que se reproduz a partir de atitudes que reforçam a objetificação do corpo feminino e a culpabilização das vítimas. Comumente, em sociedades que se estruturam sob o sistema patriarcal, como é o caso do Brasil, o modelo de interação entre os gêneros consiste na dominação dos homens sobre as mulheres, onde o corpo da mulher é objetificado e posto a serviço do desejo dos homens.  

Em seu livro “A Dominação Masculina: a condição feminina e a violência simbólica”, o sociólogo francês Pierre Bourdieu elucida que esse poder de dominação ultrapassou o âmbito doméstico de uma relação historicamente baseada em uma estrutura patriarcal atingindo as demais áreas sociais, sendo esta incorporação imperceptível aos olhos dos indivíduos. De acordo com o autor, “a ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre qualquer alicerce.” (BOURDIEU, 2014, p. 6). Bourdieu define  o poder simbólico como “este poder invisível no qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”. (BOURDIEU, 2014, p. 16) Nessa linha, a violência simbólica é imperceptível e reproduzida pelas instituições sociais como um discurso naturalizado, imutável e perfeitamente aceitável –  por intermédio da linguagem e do próprio pensamento – que faz com que o homem aprenda a lógica da dominação masculina e a mulher absorva essa relação, ambos  inconscientemente.  

O Estado, a família, a igreja e a escola sempre foram e continuam sendo as instituições mais importantes responsáveis pela construção dos papéis desempenhados pelos gêneros. Em se tratando da dominação masculina, a igreja sempre exerceu papel preponderante ao perpetrar  noções moralistas de inferioridade feminina, condenando qualquer tipo de prática considerada subversiva aos costumes, como roupas ou determinados comportamentos. Não menos importante, o Estado muitas vezes se utiliza do ideal de família  patriarcal como núcleo duro da sociedade, atribuindo excesso de importância ao homem em detrimento da mulher. Por isso, em um contexto de fortalecimento da extrema direita e, portanto, da política conservadora, assistimos ao crescimento vertiginoso da violência contra as mulheres. O Congresso Nacional, sobretudo os representantes da chamada bancada evangélica, tem se demonstrado extremamente misógino e avesso às políticas para as mulheres. Soma-se a isto o fortalecimento do fundamentalismo religioso, que acaba por promover a demonização do corpo feminino.  

Em suma, a violência que atinge os corpos femininos, que emudece vozes e castra desejos, reaparece prontamente sempre que a dominação masculina é posta à prova e a hierarquia dos gêneros ameaça ser abalada. Por tratar-se de mero objeto do gozo masculino, a mulher, coisificada pela sociedade falocêntrica, necessita ser lembrada de sua submissão mediante a violência: eis o imperativo da cultura do estupro.  

Por Carolina Rodrigues 

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