Home Opinião A armadilha da esquerda: do intelectualismo à lacração

A armadilha da esquerda: do intelectualismo à lacração

por Carolina Rodrigues

No Brasil de Bolsonaro, o desemprego bate recorde  e atinge 13, 1 milhões de pessoas. Alimentos importante para os brasileiros acumulam altas de preços. A insegurança alimentar aumenta e atinge 43 milhões de pessoas. E enquanto o trabalhador desempregado não consegue nem comprar arroz, a esquerda cirandeira discursa sobre veganismo e pronome neutro.

Sem querer acender polêmicas, a questão levantada não diz respeito à importância incontestável de pautas como o consumo político, o ativismo vegano e a questão de gênero, mas sobre a “frágil” articulação da esquerda no contexto atual. Em meio a uma crise generalizada ( econômica, política, ecológica, social) causada pela forma predatória do capitalismo neoliberal, o acirramento das tensões de classes é um imperativo para que a esquerda lute prioritariamente pelo desmantelamento do sistema capitalista.

Há muito tempo o capitalismo tem demonstrado sua capacidade em absorver pautas importantes como o feminismo, o antirracismo, questões LGBTQI+ e questões ecológicas (vide a anomalia que representa o ecocapitalismo). Pautas que naturalmente estariam em conflito com o funcionamento do capitalismo são, paradoxalmente, assimiladas pelo sistema, talvez como tentativa de inviabilizar as transformações que esses movimentos têm potencial de promover na própria estrutura capitalista.

Assim, comumente, encontramos correntes da “resistência progressista” propondo agendas que longe de combaterem a origem de todas as crises – o capitalismo – coadunam com a sua dinâmica desigual. Com discursos de “empoderamento” empresas têm aumentado seu lucro exponencialmente ao usar pautas raciais, feministas, LGBTs e ecológicas.  Enquanto isso,  nos guetos do mundo,  negros, mulheres homossexuais e transgêneros continuam sendo as maiores vítimas da dinâmica predatória capitalista e os países pobres os que mais sofrem com os impactos ambientais causados pelo sistema.  

Como dito anteriormente, o problema da esquerda não é  lutar por  determinadas causas, mas deslocar essas causas da luta principal, que é a luta de classes. No que tange ao veganismo, por exemplo, sabemos que o constante desmatamento realizado na Amazônia tem como fim a criação de gado e plantações de soja –  que tem como principal futuro de sua produção a alimentação de animais –  tudo movido pelo lucro  e pela lei de mercado. Nesse sentido,  o ativismo vegano tem todo  valor se a  diminuição do consumo de carne está implicada em um consumo político relacionado ao anticapitalismo. Mas, por outro lado, existe um tipo de “veganismo consumista” que apela aos comportamentos da moda e acabam por ditar novas regras de mercado. Constantemente, vemos parte da esquerda ceder aos encantos desse tipo de veganismo, que basicamente substitui o consumo de carne pelo hambúrguer vegano do Burger King.  Essa “adesão” a modismos por boa parte daqueles que se autodenominam de esquerda busca muito menos por fim as desigualdades do que promover “lacração”. 
Outro exemplo também mencionado diz respeito às questões ligadas à identidade de gênero. No país que mais mata transexuais no mundo,  é  imperativo a luta pelos direitos das pessoas trans e o  combate contínuo à transfobia. Portanto, muito longe de ser um assunto desimportante, a questão de gênero vai bem além da discussão sobre o uso de pronomes neutros. No universo acadêmico, a esquerda mantém um debate profícuo sobre o tema e não faltam artigos que buscam dar conta da transexualidade. Mas é longe das universidades, nas periferias do país, sem acesso à educação e trabalho digno que vivem a maioria das vítimas da violência de gênero.

Uma armadilha para boa parte da esquerda é pensar que suas atuais ações políticas são capazes de promover emancipação daqueles que mais sofrem com a dinâmica capitalista. Como apontado por Nancy Fraser, Tithi Bhattacharya e Cinzia Arruzza no  livro “Feminismo para os 99%: um manifesto”, se faz necessário “reconhecer que o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas uma ordem que mantêm relações aparentemente não econômicas e práticas que mantêm a economia oficial. Por trás das instituições oficiais do capitalismo estão os suportes que lhe são necessários e as condições que as possibilita.” (FRASER; BHATTACHARYA; ARRUZZA, 2019, p. 102). Isto é, para além do trabalho assalariado e o sistema financeiro, a engrenagem capitalista se mantém em funcionamento também pelo trabalho de reprodução social. Isto significa dizer que a esquerda precisa estar  atenta ao se engajar em causas com verniz emancipatório, mas que não passam de “variantes progressistas do neoliberalismo”, que propagam uma versão elitista e populista da militância política. Toda e qualquer luta da esquerda deve perpassar a luta de classes. 

Em suma, há  urgência no abandono do modus operandi “8 ou 80” da esquerda, que vai do intelectualismo à lacração, em benefício de um tipo de diálogo acessível que alcance as pessoas que de fato precisa alcançar. São nas periferias do país, onde a comida falta à mesa; onde o desemprego assola; onde o jovem negro é “morto por engano” pela polícia; onde a mulher é espancada pelo marido, mas não pode denunciá-lo porque depende de seu sustento; onde transexuais são mortas a pedradas; onde o lixo se acumula à céu aberto e falta saneamento básico,  que a militância política de esquerda tem que atuar de modo a promover meios efetivos que possam romper com a raiz de todo esse estado de coisas – o capitalismo.

Por: Carolina Rodrigues 

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