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NA CULTURA DO CANCELAMENTO TODOS PODEMOS SER CANCELADOS

por Carolina Rodrigues

Cada vez mais implacáveis, as redes sociais têm sido palco de uma prática que se torna  comum na nossa cultura, o cancelamento. Usado há algum tempo como forma de chamar atenção para questões como justiça social, o boicote a organizações e figuras públicas por meio do cancelamento se tornou uma maneira de forçar ações políticas e chamar à responsabilidade  empresas e personalidades envolvidas em casos de declarações e comportamentos reprováveis, especialmente aqueles ligado ao racismo, misoginia, machismo e LGBTfobia.  

No entanto, o que percebemos é que para além do ato de cancelar  pessoas nas redes sociais, engendrou-se um mecanismo simbólico de negação do sujeito ao tentar destruir sua imagem e invalidar suas ações, que acabou por revelar episódios de profunda intolerância que tem se disseminado. Sob o engodo da prática em favor do “politicamente correto”, tem-se promovido verdadeiros linchamento virtuais, que nada mais são do que a demonstração da cada vez maior incapacidade da nossa sociedade em aceitar a alteridade. 

Mais do que isso, sob a lógica do sistema capitalista, conjugamos relações com consumo e fazemos delas meras utilidades que podem ser facilmente descartadas e substituídas. Nessa esteira, há uma indisposição à escuta, uma recusa ao que vem do outro, uma inabilidade em lidar com aquilo que no outro se revela também em nós. Todo esse desconforto leva ao rechaçamento. Ou seja, quando convocado ao encontro com o outro, que nada mais é que um espelho que reflete uma precária humanidade, o incomodo gerado impele à intolerância, ou a recusa pela identificação.  

Ao tratar do amor, Jacques Lacan nos ajuda a pensar um pouco mais sobre essa questão. A partir do aforismo “amar é dar o que não se tem” Lacan nos ensina que amar é dar ao outro aquilo que nos constitui enquanto sujeitos marcados pela castração. Isto é, amar é reconhecer a nossa falta e, assim, doá-la ao outro. Não somente no amor, mas em todas as nossas relações somos marcados pela insígnia da falta. A falta do outro revelada a mim a partir de uma fala ou atitude indesejada é reveladora também da minha falta; é aquilo que me faz lembrar da minha própria precariedade. É justamente essa incapacidade de se reconhecer faltoso que faz com que o sujeito rechace aquele que assim se apresenta.  

Nada mais sintomático na sociedade capitalista do que a recusa da falta. Isso porque, a dinâmica capitalista se dá a partir da lógica do consumo compulsório. Para tanto, é prometido ao indivíduo, a partir do consumo, uma vida feliz e plena. Porém, esse convite a uma vida “plena” é um chamado ao gozo e uma negação ao desejo. É um convite a preencher um vazio que sempre vai existir a partir de relações de consumo, que incapazes de cobrir esse vazio, são prontamente substituídas. O capitalismo, portanto, tem como imperativo esse movimento coativo de tentar tamponar a falta 

Deste modo, a cultura do cancelamento representa a negação da falta através da intolerância ao outro. Reflete a incapacidade de acesso à palavra, portadora daquilo que nos aproxima em nossa humanidade, justamente porque não queremos nos haver com aquilo que nos identifica. Não queremos fazer parte do grupo dos que falham, dos que mentem, dos que julgam, dos que erram, dos que faltam. Não que sejamos todos iguais. Não que compartilhemos todos dos mesmos pecados. Mas somos todos “demasiado humanos”. Todos, sem exceção, estamos identificados à humanidade em toda sua precariedade. Portanto, todos somos passíveis de sermos cancelados.  

Por Carolina Rodrigues  

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