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O volátil domínio da riqueza financeira

por Vítor Lima

0 – Introdução

1 – Como se constrói a riqueza financeira

2 – A (ir)relevância da riqueza financeira por adulto

3 – Onde se acumula a riqueza financeira?

4 – As desigualdades na distribuição da riqueza financeira

0 – Introdução

Expusemos recentemente elementos sobre a riqueza por adulto para os países europeus e, para alguns outros de particular relevância no contexto global, para os anos 2000, 2008 e 2019, procedendo à análise das variações relevantes. Sinteticamente, referimos ali que o valor médio, a nível global, era de $ 70849/adulto em 2019; e de $48507 ou, $31415, respetivamente, em 2008 e 2000. Não é difícil concluir que a crise financeira e as austeridades que têm atingido a grande maioria dos seres humanos, passaram bem ao lado de alguns que acresceram claramente a sua riqueza. Enquanto os governos se afadigam a fazer crescer o diáfano PIB[1], exigindo sacrifícios às populações em geral, a riqueza acumula-se, mormente sob a forma de registos contidos em parques de servidores.

A expressão da riqueza total, para cada país, evidencia que a Europa tinha um indicador duplo do gerado para o conjunto mundial, em 2000; que essa diferença sobe para 2.8 vezes em 2008 mas que se reduz para 2.2 vezes em 2019. São muito poucos os países que melhoram o seu indicador em 2008/2019 acima do verificado em 2000/2008 e, nesse conjunto, encontram-se os mais pobres, do Leste europeu, para além da China, da Índia e do Brasil. A crise financeira global afetou particularmente a Europa cuja riqueza financeira cresceu anualmente 1.25% em 2008/2019 contra 14.7% anuais, no período anterior. É sabido que não há sol que sempre dure… e que a Europa se vai tornando – económica e politicamente – na península asiática que sempre foi, geograficamente.

1 – Como se constrói a riqueza financeira

Mais de metade da riqueza mundial (62% em 2019) é constituída por ativos financeiros, como resultado da maior mobilidade desses ativos, da sua geração e fácil multiplicação, bastas vezes quase instantânea e desligada de qualquer base material conhecida ou, “palpável”. É mais tentador apostar na roleta dos mercados financeiros e acrescer valor aos chamados ativos, do que montar uma empresa industrial, de comércio ou serviços e aguardar – um tempo que pode ser longo – para obter uma reprodução compensadora do capital investido. Por outro lado, essa empresa produtora de bens ou serviços também procura utilizar os seus títulos – ações, obrigações, próprias ou de outras empresas, para aumentar os seus lucros e a valorização que lhe é atribuída pelo… mercado. Essa mobilidade, em substância, conduz a que o sistema financeiro se vá apossando da Humanidade.

A especulação financeira procura valorizar os seus ativos – ou melhor, registos eletrónicos – de modo tão instantâneo quanto possível; e está sempre pronta para valorizar os seus haveres, sem limites, numa lógica que pode ser definida matematicamente sob a forma de pirâmides de Ponzi; ou, como o desejo de um Tântalo, permanentemente a tentar saciar-se sem jamais o conseguir. 

Há, constantemente, subidas e descidas na valorização desses registos eletrónicos que nada, nem ninguém, controla mas onde muitos intervêm, aplicando as suas expectativas reais ou divulgando expectativas falsas para os incautos; e, tudo isso exige decisões rápidas, muito para além das capacidades de discernimento dos seres humanos e entregues a supercomputadores instruídos por aplicações informáticas que vasculham o mercado financeiro, local ou global, na procura de situações conducentes a operações de compra e venda de activos. Daí que a passagem da euforia para a depressão ou, desta para a primeira, possam ser fenómenos tão surpreendentes como incontroláveis. Por exemplo, recentemente, o índice Dow Jones teve quedas de 4.4% em 27/2, de 7.8% em 9/3, atingindo a maior quebra de sempre em 12/3 (10%), sem que houvesse qualquer previsão da quebra e, menos ainda, da sua dimensão.

Os depósitos e as dívidas são, hoje, apenas meros registos eletrónicos e, as conhecidas notas de banco e as moedas metálicas representam apenas 5% do total; e têm, na Europa, a morte anunciada para os próximos anos tornando todas as compras e transações realizadas apenas através de registos e circuitos eletrónicos. Será o tempo do domínio absoluto dos seres humanos pelo sistema financeiro; hoje, em Portugal – e não será caso único, naturalmente – o NIF é atribuído logo após a nascença.

As velhas âncoras para a constituição de moeda e reserva de valor – o ouro e prata – estão avaliadas em cerca de $ 10900 biliões e, não se espera que venham a ter um grande crescimento. E, obviamente, a divida global ($ 253000 biliões) nunca poderá ser trocada, sem uma brutal desvalorização, por metais preciosos, cujo stock no planeta é limitado. Se pretendermos ir mais além e entrar em linha de conta com os produtos derivados (avaliados em $ 1 trilião), é inimaginável o conjunto de conflitos, desordem económica e social que poderão resultar da sua confrontação com uma realidade, na qual é evidente não se poder contar com uma Humanidade capaz de transformar em bens e serviços os tais produtos derivados. 

Um caso típico de criação de moeda/dívida foi criado por Draghi, um homem da Goldman Sachs, enquanto chefe máximo do BCE. O modelo é simples.

Alguns países do sul da Europa, com elevados deficits e dívidas públicas recorrem a emissões de dívida junto do “mercado”; os compradores desses títulos de dívida não ficam sentados e contentes com as baixas ou mesmo negativas taxas de juro e encaminham esses seus créditos para o BCE, como garantia da liquidez fornecida pelo mesmo. Por um lado, assim se articula um acréscimo de dívida pública de um país; e por outro, os títulos são entregues pelos seus tomadores ao BCE que os aceitará como garantia do dinheiro que lhes fornecerá para ser colocado em operações especulativas no âmbito do sistema financeiro global, alimentando o referido esquema das pirâmides de Ponzi… ad infinitum. Nesse contexto, o BCE, o Eurogrupo, a Comissão Europeia, saberão impor as suas regras junto dos países com problemas financeiros, mesmo que daí resulte empobrecimento da sua população; por outro lado, sentir-se-ão felizes pelo seu contributo para a dinamização do sistema financeiro global, sem quaisquer constrangimentos ou controlo. 

Nesse contexto e à medida que o sistema financeiro aumenta o seu papel como detentor do poder, mais insignificantes e voláteis são as reservas monetárias dos bancos (mormente centrais) e maiores as debilidades do sistema financeiro que, tenderá a reproduzir crises financeiras cada vez mais profundas e frequentes. 

O BCE fica contente porque assume direitos sobre o Estado devedor, por um valor que, entretanto entregou por troca, ao especulador. Se o especulador, entretanto, desaparecer na volúpia do mercado especulativo, a relação entre o BCE e o Estado emissor de dívida mantém-se inalterada, com a sua população a ser espremida pelo seu governo, açulado pelo dito BCE, com este a exigir ao Estado emissor e à respetiva classe política que cumpram com rigor e obediência, a exação fiscal, privatizações e todas as políticas de pressão sobre a população. 

Para ir adiando ad infinitum o momento do ajustamento dos encadeados de dívida, o sistema financeiro controla os Estados e as classes políticas para que a população (e o trabalho real ou fictício) vá gerando cascatas de consumos e investimentos onde se ancorem novos e ampliados circuitos de rendimento monetário e as suas antecipações através de novas dívidas. O dito mercado financeiro é, para a multidão dos humanos, volátil como éter, expansivo como um gás, venenoso como arsénico.

Em caso de falência de uma grande instituição bancária, lá estão os Estados a equilibrar as contas de bancos falidos, como, entre outros, o Allied Irish Bank e outros irlandeses, o franco-belga Dexia ou, o conhecido polinómio BES/Banco “bom”/Banco “mau”/Novo Banco/Fundo de Resolução, onde destacamos as moralistas designações de bom e mau[2].

No limite, o capital financeiro, depois de consumir tudo à sua volta, afoga-se em si mesmo[3]; …o que não seria mau se não contaminasse a Humanidade com a sua gula insaciável e demente. 2008, com os milhões despejados das suas casas, lançados no desemprego, onerados pelo crescimento de divida pública, deu uma ligeira amostra de um próximo rebentamento de bolha financeira.

2 – A (ir)relevância da riqueza financeira por adulto

Como se observa no quadro seguinte, a parcela da riqueza financeira no total é, a nível mundial e, em 2019, de 62.1%; um pouco aquém do observado em 2000 mas superior ao registado em 2008. Como se sabe, foi um tempo de dificuldades económicas e financeiras, essencialmente, com a queda da Wall Street, a falência do Lehman Brothers e, na Europa, com vários bancos a beneficiar de apoios públicos para cobertura de ativos tóxicos. Essa situação envolveu e atingiu os Estados que, por sua vez sobrecarregaram as populações com mais encargos de dívida, impostos e desemprego e, os efeitos de intervenções musculadas para precarizarem a vida das pessoas… A covid-19 está a constituir um segundo capítulo da mesma narrativa empobrecedora, protagonizada pelo capitalismo predominantemente financeiro de hoje.

 2000200820192000/082008/19
1 -Riqueza total/adulto ($)314154850770849+54.4%+46.1%
2 – Riqueza financeira/adulto ( $)200602823244022+40.7%+55.9%
                                   2/1  (%)63.958.262.1

O gráfico seguinte individualiza o peso da riqueza financeira para o conjunto de países já escolhidos no texto anteriormente publicado, para os três anos selecionados.

Ali se observa que os casos de subida constante o peso da riqueza financeira são, em geral, aqueles onde a sua parcela se mostra mais baixa, todos do Leste europeu, com destaque para a Albânia e a Bielorrússia, cada qual com 8.5% do total, em 2000. A progressiva integração daqueles países na UE, na sua órbita e, paralelamente, no sistema financeiro global fomenta um maior peso da riqueza financeira por adulto naqueles países. Assim, em 2019, os mais baixos indicadores de participação da riqueza financeira verificam-se na Albânia (14.7%) e Lituânia (12.8%). 

Há um conjunto de países onde a crise de 2008 não provocou quebras no peso da riqueza financeira, que se manteve crescente em 2019. Entre eles, preponderam países do Leste mas também, países ricos como a Dinamarca, o Luxemburgo e a Noruega; para além da Índia e da China, em 2019, com a última a revelar um índice superior à média europeia. 

Inversamente e ainda relativamente a 2008, alguns países reduziram, em 2019, o seu número absoluto de riqueza financeira – Chipre (– 24%), Grécia (– 22%), Itália (– 7%), Portugal (– 2%). Para além da Turquia que mantém o mesmo nível de riqueza financeira em 2008 e 2019 e do Japão (+3%), os casos de reduzido aumento revelam-se na Irlanda (4%) e em Espanha (7%), as outras vítimas das austeridades e das profundas alterações nos sistemas financeiros indígenas.

No ano 2000 e 2008 os maiores indicadores de riqueza financeira revelam-se nos EUA (80.1 e 85.2% do total respetivo) e na Suíça (76.8% e 72.2%). Em 2019, os EUA mantêm o maior coeficiente mundial de riqueza financeira (84.4% do total), seguidos pela Dinamarca (82.6%) e pela Holanda (79.9%).

                              Parcela da riqueza financeira na riqueza total para cada país (%)

                                                                         Fonte primária: Credit Suisse – Global wealth reports

As mudanças reveladas pelo gráfico acima, sinteticamente, evidenciam:

·     Apesar das quebras no peso da riqueza financeira serem aproximadas em 2000/2008 e 2008/2019, a sua dimensão é bem mais acentuada no primeiro período. E isso, reflete-se nos índices globais; em 2000/2008 há uma quebra na Europa de 10.1% e no Mundo de -5.7% e, no último período ambos os  mostram-se positivos e aproximados – 4.1% e 3.9%. Os países com quebras nos dois períodos são: Alemanha, Áustria, Eslovénia, Itália, Lituânia, Portugal e Suíça; 

·         Os maiores níveis de crescimento da riqueza financeira no período 2008/2019, revelam-se em poucos países – Bielorússia, Bulgária, Dinamarca, Holanda e EUA; muito menos numerosos do que no período anterior. A financiarização das economias e o seu domínio sobre Estados, empresas e particulares acentua-se, tendo em consideração o declínio da atividade económica que se seguiu à crise financeira de 2008; como uma sequela desse declínio, com o aumento das dívidas, mormente públicas.

·         O reforço da financiarização é bem visível no período 2000/08 e, nos países do Leste europeu, objeto de transformações visando seguir os passos dos países com economias de mercado mais antigas. Entre outros, a Hungria aumenta a sua riqueza financeira 38 vezes, naquele período, enquanto a Rússia e a Ucrânia a elevam, respetivamente, cerca de 16 e 14 vezes.

3 – Onde se acumula a riqueza financeira ?

Agregámos todos os países em quatro grandes grupos – três de acordo com o volume da sua riqueza financeira por adulto, no âmbito da seleção inicialmente constituída – e um outro, com os restantes países do mundo.

                           Quadro I – Riqueza financeira por grupos de países, por escalão da capitação por adulto

Capitação por adulto 200020082019
$ 1000 milhões%$ 1000 milhões%$ 1000 milhões%
< $ 10000 23743,2106398,434081,5
India2080,36640,527511,2
China13691,875726,0  
Outros7981,124031,96570,3
10000-1000001304317,5107958,54460219,9
China    3619116,2
> $ 1000005206369,78811169,614526764,8
Outros71719,61702113,43078613,7
total74652100,0126566100,0224062100,0

Os mais baixos níveis de riqueza financeira por adulto representam muito pouco no total, em 2000, mesmo que nesse conjunto estejam incluídos os dois países mais populosos do planeta. Em 2008 a sua representatividade aumenta visivelmente devido à evolução registada pela China que, em 2019, passa a deter, de longe, o maior quinhão no conjunto dos países com uma riqueza financeira média por adulto no escalão $10000/100000. Ainda em 2019, o (baixo) volume da riqueza financeira nos países com menores capitações por adulto, após a mudança de escalão da China, passa a ser dominado pela parcela da Índia, entre vários países do Leste europeu.

No grupo dos países com $ 10000/100000 de riqueza financeira por adulto, a representatividade decresce em 2008, como em valores absolutos. 

Há duas razões para essa alteração. Uma, é que em 2008 vários países ricos da Europa passaram a pertencer ao grupo dos mais ricos – são os casos, entre outros, de Bélgica, França, Holanda, Itália e os países escandinavos; e a outra razão é que os países que vieram do escalão inferior (< $ 10000) – países do Leste europeu e balcânicos – apresentam indicadores de menor riqueza financeira do que aqueles que transitaram para o escalão mais elevado. Os únicos países ricos que se mantiveram no grupo dos que têm $ 10000/100000 de riqueza financeira por adulto, são a Alemanha e a Áustria. 

Em 2019, a grande subida do total da riqueza financeira face a 2008 deve-se, especificamente, à inclusão da China que, como se vai observando, assume cada vez mais um papel de potência financeira, o que lhe tem servido, não só para alargar o papel do yuan como divisa internacional, como para financiar os investimentos nos vários países atravessados pelas infraestruturas da Rota da Seda. Assim, a riqueza financeira da China quintuplicou em 2008/19 enquanto a dos EUA aumentou 89%; e, se a referida riqueza norte-americana correspondia, em 2008, a perto de sete vezes a chinesa, em 2019 era apenas de 2.5 vezes.

Quanto ao grupo de países com os mais elevados valores de riqueza financeira por adulto (> $ 100000), a evolução não difere muito (+ 69% e +65%, respetivamente em 2000/2008 e 2008/2019), embora o número dos países incluídos tenha evoluído muito para além dos quatro registados em 2000 (GB, Japão, EUA e Suíça); 14 em 2008 e 16 em 2019, obviamente todos incluídos entre os mais ricos.

Para os curiosos, a riqueza financeira registada para Portugal evoluiu em todo este período do seguinte modo – $ 206.8 mil milhões em 2000, $ 481 mil milhões em 2008 e $ 465 mil milhões em 2019 onde é claro que a perda de riqueza acompanhou a grande subida da dívida e, a despeito da venda de muitas participações públicas em empresas, por imposição da troika

Finalmente, o conjunto dos países não individualizados neste trabalho (Outros[4]) aumentam a sua parcela na riqueza financeira global em 2008, sendo pouco significativa a evolução da sua representatividade nos dados mais recentes.

4 – As desigualdades na distribuição da riqueza financeira

Como é sabido, o capitalismo ao globalizar o seu modelo de acumulação e distribuição gera uma dinâmica onde se formam imensas desigualdades, mormente em termos económicos; e, de onde resultam iniquidades de ordem política, educacional, sanitária e ambiental, entre outras.

A distribuição da população mundial adulta pelos vários níveis de riqueza financeira é claramente evidenciado no quadro seguinte:

                         Quadro II – Distribuição da população adulta por grupos de países e por escalão da capitação por adulto

Riqueza financeira ($)200020082019
milhões%milhões%milhões%
< 100001825,549,12116,147,2993,822,2
India578,615,5731,316,3865,819,3
China862,923,21015,222,6  
Outros384,010,3369,68,2128,02,9
10000-100000253,46,8191,84,31436,932,0
China    1090,224,3
> 100000351,59,4520,311,6669,014,9
Outros1291,034,71655,036,91385,030,9
Mundo3721,4100,04483,6100,05094,6100,0

Observemos algumas das enormes discrepâncias resultantes da comparação entre os Quadros I e II; entre as parcelas na riqueza financeira global e na população adulta mundial. 

No caso dos países escolhidos com níveis de riqueza financeira, por adulto, inferiores a $ 10000, observa-se que no ano 2000, 49.1% das pessoas detinham apenas 3.2% da riqueza financeira global. E, com a saída da China desse conjunto, em 2019, 22.2% da população adulta mundial possuía 1.5% da riqueza financeira, quase toda pertencente à Índia.

No escalão dos $ 10000/100000 de riqueza financeira, em 2000, 6.8% dos adultos possuíam 17.5% daquela riqueza. Em 2008, o fosso mantém-se mas é menos fundo – 4.3% dos adultos com 8.5% dos ativos financeiros, um desequilíbrio que se mantém em 2019, mesmo com a integração da China neste grupo.

O caso da China é particularmente notado uma vez que, mantendo relativamente constante a sua parcela no total mundial de adultos (cerca de 23%), a sua riqueza financeira evolui de 1.8% em 2000 para 16.2% em 2019, com 6% em 2008.

No escalão mais elevado de detenção de riqueza financeira (> $ 100000/adulto), onde predominam os países mais ricos – Europa Ocidental, EUA e Japão – a sua riqueza financeira situa-se pouco abaixo dos 70% do total mundial em 2000 e 2008, para decair até aos 64.8% em 2019. Porém, a sua população adulta passa de 9.4% do total em 2000 e atinge 14.9% em 2019, muito provavelmente, como resultado do envelhecimento, da chegada de muitos imigrantes, tendo como contraponto baixas taxas de natalidade. 

Quanto ao grupo dos “Outros” a população adulta ultrapassa os 30% do total e não vai além dos 13.7% da riqueza financeira total, em 2019. 

O Quadro III sintetiza a evolução da riqueza por adulto para os vários segmentos da sua dimensão:                            

               Quadro III – Riqueza por adulto ($)
Riqueza finan- ceira/adulto ($)200020082019
$
< 100001300,65027,83428,9
India359,0908,03176,9
China1586,07459,1 
Outros2078,06501,15133,1
10000-1000003149,056282,631040,1
China  33196,9
> 100000148116,7169345,9217129,2
Outros5554,610284,522227,9
Mundo20060,128228,643980,2

Para o conjunto dos países de mais baixa riqueza financeira, os seus níveis médios representam em 2019, apenas 7.8% do indicador mundial, com uma quebra face a 2008 após a promoção da China ao nível superior, Esta passagem reflete-se também na quebra observada no intervalo seguinte de riqueza que em 2008 apresentava um volume elevado.

Quanto ao escalão mais elevado de riqueza por adulto, observa-se uma subida nos dois períodos, particularmente no último. Isso significa que os ricos não tiveram um grande abalo com as vicissitudes da conjuntura, mesmo na área financeira, que constitui o seu mundo[5].

No grupo residual dos “Outros” observa-se uma duplicação aproximada do indicador em cada um dos dois intervalos de tempo considerados.

Como dissemos atrás, a evolução da riqueza financeira, mesmo calculada por adulto, é apenas um indicador abstrato e, essa riqueza tem uma grande margem de volatilidade, pela sua natureza de registo eletrónico e pela imprevisibilidade do funcionamento dos chamados mercados financeiros.  

(continua)

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/
http://www.slideshare.net/durgarrai/documents
https://pt.scribd.com/uploads

[1] A fixação dos Estados com o crescimento do PIB, corresponde à dos capitalistas em aumentar constantemente o lucro e a riqueza, a acumulação de capital, mesmo usando guerras, doenças, carências e sacrifícios enormes para a Humanidade, ao ponto de gerar pandemias, destruição e, colocar em risco os equilíbrios que permitem a vida na Terra. Em épocas recuadas geraram-se mitos sobre a tara da acumulação infinita da riqueza, algo de semelhante ao que veio a ser a lógica do crescimento infinito do PIB, atualmente facilitado pela maior presença com o dinheiro virtual que permite uma acumulação infinita de capital. Assim, pode-se pensar na fábula do rei Midas que, em tudo o que tocava se transformava em ouro, seja a comida, um rio ou a sua própria filha; ou, a versão de Calímaco ou Ovídio em que o protagonista é o rei da Tessália, Erisicton que por ter abatido uma árvore sagrada, foi castigado pela deusa Demeter com uma fome insaciável que fê-lo chegar ao ponto de comer o seu próprio corpo.

[2]  http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/08/o-bes-bom-o-bes-mau-e-ma-gestao-dos.html

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/07/hecatombe-bes.html

[3]  Somente o valor dos produtos derivados (noção conservadora) corresponde a $ 558500 biliões (cálculo do BIS) e a dívida global em $ 253000 biliões segundo o IIF Debt Monitor. Se o PIB mundial é da ordem dos $ 86000 biliões, seria necessário que a Humanidade se dedicasse totalmente a amortizar dívida durante mais de três anos para liquidar aquele valor de dívida, admitindo que… entretanto não haveria geração de novas dívidas, nem satisfação de necessidades correntes por parte da Humanidade. Como de facto, a dívida não é pagável, em geral e para muitos países, instituições e famílias, uma solução conservadora seria um retorno aos regulares jubileus já contidos no código de… Hamurabi. No entanto, as ditas direitas ou esquerdas dos espetros partidários são zelosas defensoras da legitimidade e do rigoroso pagamento das dívidas públicas, suplicando apenas uns pequenos abates nas taxas de juro… capitalism must go on

[4] Em Outros estão todos os países africanos, os do continente americano excluindo EUA e Brasil e os da Ásia e Oceânia excepto, China, Índia e Japão

[5]  Observar estes números e compará-los com os $ 414000 milhões que constituem a soma das riquezas dos cinco mais ricos do planeta (Bezos, Gates, Arnaud, Zuckerberg e Ellison) é revoltante.grazia tanta à(s) 13:26Partilhar

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