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A propósito de uma rede europeia de alta velocidade

por Vítor Lima

Há 38 anos foi inaugurado o AVE – a linha de alta velocidade Madrid-Sevilha – na comemoração da chegada de Colombo à América.

Em 1998, a imitação lusa (através do centenário da chegada de Gama à Índia) consistiu no projeto imobiliário do Parque das Nações; numa feira, com muito comércio e saloíces tecnológicas; uma nova ponte no Tejo, estupidamente levada para Alcochete e sem via ferroviária; e, o negócio de semoventes do PSD com navios alugados para albergar turistas … que não os chegaram a ocupar. Nos anais de uma terra saloia terá ficado a feijoada no tabuleiro da nova ponte…

Entretanto, houve muitos estudos sobre uma ligação ferroviária em bitola europeia, com discussões infrutíferas sobre um T – deitado, de pé ou de cócoras – de ligação à rede espanhola e que permita a chegada à Europa transpirenaica. Passados esses 28 anos, Portugal está desconectado da Europa ou mesmo, de Espanha por vias ferroviárias modernas; com uma rede ferroviária e material circulante desatualizado e linhas fechadas; com a entrega da exploração de um tráfego rentável (Fertagus) num governo Guterres e a venda do tráfego de mercadorias (antiga CP-Cargo) por parte do primeiro governo Costa. 

Recorde-se ainda que a ponte 25 de Abril, embora construída em 1966 com estrutura para suportar linha ferroviária, só 33 anos depois viu passar os primeiros comboios. As capacidades políticas em Portugal, por norma, não são muito fecundas e,  acrescentam execuções muito retardadas. Um novo aeroporto na área de Lisboa também tem décadas de atraso, para alegria (?) de quantos veem passar os aviões um pouco acima das suas chaminés.

Entretanto, o que não falhou foi a construção de autoestradas com uma densidade muito elevada, com dinheiros comunitários e que constituiu, primeiro, um maná para grupos económicos da área das obras públicas e, depois para os grupos que as exploram e que receberam, como brinde, o valor das portagens da ponte 25 de Abril… que há muito já deveriam ter sido abolidas; a que se somaram as das pontes Vasco da Gama e a de Benavente, casos únicos de pontes portajadas em terras lusas, depois de, no rescaldo do 25 de Abril, a ponte de Vila Franca ter passado a ter uma utilização liberta de portagem.  

Em Portugal há 1 km de autoestrada por cada 30 km2 de território; um valor que apenas ultrapassa países de grande densidade populacional como Alemanha, Eslovénia, Luxemburgo, Países Baixos e Suíça. E, tendo em conta a desertificação do Interior não se poderá dizer que as autoestradas a tenham reduzido, criado postos de trabalho, etc; pelo contrário, constituem mais um elemento de diferenciação entre a faixa litoral, de Setúbal a Viana do Castelo.

O mapa que se transcreve em seguida revela a situação atual, na Europa, quanto às linhas de velocidade elevada (< 250km/h) ou alta velocidade (> 250km/h), em exploração ou projetadas.

Em 2018, Marrocos inaugurou uma linha de velocidade elevada entre Tanger e Casablanca. O troço Tanger-Rabat (235 km) passou a permitir viagens de 1 h e 15 m contra 3h e 30m anteriormente e, por um preço de €15. 

O atraso ferroviário em Portugal não é de hoje, é crónico; é uma inerência do subdesenvolvimento mas, acima de tudo da indigência cultural e política das governações, tradicionalmente atoladas em compadrios e corrupção, usando e abusando de uma população pobre, com um relativo baixo nível educativo e marcada por uma tradição de opressão que vem de 48 anos de um fascismo de pendor beato; por sua vez, herdado de quase 300 anos como “relógio atrasado pela Inquisição”, nas palavras de um “estrangeirado” emigrado do século XVIII, Cavaleiro de Oliveira. 

Os males vêm de muito longe como se pode observar, num mapa da rede ferroviária europeia entre 1850/70[2]; ali, Portugal e os Balcãs são as únicas áreas apresentadas sem rede ferroviária. 

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/                               

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

https://pt.scribd.com/uploads


[1] A propósito de uma carta enviada à Comissão Europeia por um grupo de signatários portugueses na defesa de uma rede ferroviária moderna que ligue Portugal à Europa

[2] National Geographic – O Século XIX, Cem Anos de Progresso e Revolução. Nessa época, na inauguração do primeiro troço ferroviário Lisboa-Carregado, com a presença da Corte, as damas tiveram de regressar pela linha, com as saias arregaçadas, porque o comboio avariou.

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