Home Brasil 100 MIL MORTES: A INDIFERENÇA TAMBÉM É UMA FORMA DE VIOLÊNCIA

100 MIL MORTES: A INDIFERENÇA TAMBÉM É UMA FORMA DE VIOLÊNCIA

por Carolina Rodrigues

Em 1932, indagado por Albert Einstein sobre o que levaria os homens a promoverem guerras, Freud  respondeu que “a violência humana é inerente à condição biológica do homem [e] manifesta-se em todos os conflitos de relação a partir do processo mais remoto de socialização;  o homem é mobilizado por dois instintos ou pulsões, cujas atividades são opostas entre si: a pulsão construtiva, erótica ou Eros e a pulsão destrutiva, de morte ou Tanatos.” 
As considerações de Freud, que encontram consonância no conceito kantiano de “mal radical”,  que designa uma propensão natural ao mal inerente ao ser humano, nos trazem à reflexão a necessidade de mecanismos de controle da violência e da injustiça que sejam capazes de reforçar laços de solidariedade e inibirem nossas pulsões destrutivas. 
Talvez daí parta o grande problema da sociedade atual. Dada a absolutização do indivíduo na sociedade capitalista, isto é, a sobressalência do individual em detrimento do coletivo, os laços comunitários e de solidariedade que seriam capazes de inibir nossa pulsão à violência, estão cada dia mais frouxos. De acordo como filósofo coreano Byung-chul Han, o projeto de individualização é o carro-chefe do sistema capitalista. Dele nasceu o sujeito de desempenho, aquele que já não é explorado por uma força externa, mas por si mesmo , em um processo constante de autossuperação que redundaria em uma falsa impressão de liberdade que seria, na verdade, autoexploração. Esse sujeito que agora é “dono de si” , tão voltado a si mesmo, tornou-se alheio à alteridade. O “superar a si mesmo” virou uma compulsão dos nossos tempos e acabou por criar personalidades anômalas, que não mais reconhecem a si fora das relações de consumo ou que obedeçam essa lógica. E como as relações de consumo na sociedade capitalista são sempre baseadas na competição e na efemeridade, pois obedece a dinâmica da substituição, assim se dão os laços com o outro na nossa sociedade – a partir da dinâmica predatória e superficial. Poderíamos dizer, então, que teríamos na sociedade atual um potencializador das nossas pulsões destrutivas a partir do modus operandi  capitalista, assim como uma flagrante corrosão dos laços comunitários capazes de freá-las. 
Assim, numa sociedade dominada pela pulsão de destruição, e incapaz de forjar laços de solidariedade em meio a cada vez maior atomização do corpo social, o que temos é a banalização de 100 mil mortes, a total dessensibilização ante o sofrimento do outro. 
@profa.carolrodrigues

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