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Um breve ensaio sobre a Violência

por Carolina Rodrigues

Comumente, ouvimos falar sobre o aumento da violência. Todos os dias, os jornais nos bombardeiam com episódios de violência que se manifestam no cotidiano das grandes cidades do Brasil e do mundo. As notícias trágicas tornaram-se tão corriqueiras que somos acometidos por sentimentos de vulnerabilidade e desamparo.

Neste contexto, tendemos a pensar que vivemos um processo de “naturalização” da violência e que, diferente de outros tempos, estamos mais suscetíveis a atos violentos. Mas, será que isso é verdade? Para tentar responder essa questão, discorro brevemente sobre a violência ao longo da história e recorro às análises de Zizek para compreendermos a atualidade da violência na nossa sociedade.

Primeiramente, precisamos entender que a violência surge como grande viabilizadora da sobrevivência do ser humano em determinados contextos e períodos históricos, se complexificando para além das primeiras necessidades humanas. Desta forma, nos primórdios da humanidade, diante da necessidade de sobrevivência, o homem natural, para manter-se em condições de produzir e se reproduzir, faz valer a violência como garantia de sua conservação.

Remetendo à Antiguidade, percebemos que a tradição greco-romana deixou como legado a institucionalização da violência a partir da diferenciação entre os seus cidadãos. Ou seja, nessas sociedades a vida política era regulada pela legitimação da violência social. No que se refere ao mundo grego, a violência se exprimia através das diversas  guerras inspiradas em disputas territoriais e  pelo espírito de vingança.  Em Esparta, pólis grega conhecida pelo militarismo, a belicosidade e a violência física dos reis são entendidas por alguns historiadores como os únicos mecanismos que os mesmos dispunham para manter a coesão social e a manutenção de seu poder.

Em Roma, a diferenciação dos grupos sociais se assemelhava à  organização grega, e as leis foram desenvolvidas como instrumentos asseguradores dos privilégios de pequenos grupos em detrimento da maioria marginalizada. As penas, aplicadas após julgamento, ganhavam um sentido religioso. 

Despido de sua humanidade, o réu era declarado homo sacer. Isto é, “um homem a ser julgado pelos deuses” . Expulso do grupo social, excluído de seus direitos civis, a sua vida passava a ser consagrada à divindade e sua morte poderia acontecer a qualquer momento.  Havia também naquela sociedade o propósito de fazer da morte dos condenados um espetáculo de caráter exemplar, revestido de sentido religioso e de dominação, cuja função era o reforço das relações de poder. Este espetáculo assumia diversas formas: decapitação, enforcamento, crucificação, afogamento, morte pelo fogo ou em festas populares, em que se incluíam o circo de feras ou os jogos de gladiadores.                                                                     

Durante a Idade Média, a  violência era utilizada com a finalidade de punir transgressões  e evitar a disseminação do senso crítico entre os grupos sociais marginalizados. Neste período, vemos como a violência se manifesta na religiosidade, sobretudo no movimento das Cruzadas. 

Milhares de pessoas foram guilhotinadas, enforcadas e torturadas cruelmente em praça pública em espetáculos que demonstravam o poder do Estado e da Igreja.

Já na modernidade, o desenvolvimento do comércio impôs a necessidade de expansão dos domínios de terras. Neste contexto, as nações mercantilistas passaram a investir nas navegações, dando início à expansão colonialista, que levou a expropriação de terras, subjugação e violência dos povos colonizados.

Chegando à Idade Contemporânea, a consolidação do capitalismo associado ao nacionalismo  deram origem ao neocolonialismo europeu ou imperialismo, caracterizado pela expansão territorial, pela procura de matéria-prima e mercados consumidores em outros continentes, o que resultou em muita violência imposta aos povos dominados. Soma-se a isto, as ideologias nacionalistas provocaram uma enorme tensão no continente europeu, ensejando as duas Guerras Mundiais  e a manifestação de regimes totalitários em vários países.

Hoje, com o advento da globalização, o paradoxo se impõe quando observamos que o estreitamento das relações entre os homens em escala global, é fortemente acompanhado pelo  particularismo religioso, étnico, cultural e ideológico, promovendo manifestações de ódio e incompreensões crescentes. Nesta esteira, há também o acirramento da desigualdade social, que, como vimos, marca a posição da violência ao longo da maior parte da história da humanidade.

Como podemos observar, a violência ao longo da história está sempre atrelada a relações de poder e domínio pela classe hegemônica. Se em outros tempos, essa relação era bem marcada e era identificável que a vida política se regulava pelo uso da violência, hoje, porém, isso se dá de maneira mais sútil. É o que nos mostra o filósofo esloveno Slavoj Zizek.

Em seu livro Violência, Zizek distingue os tipos de violência, abordando não apenas a violência subjetiva – aquela que é “diretamente visível, exercida por um agente claramente identificável” (ZIZEK, 2009, p.9) – mas também as violências objetivas, referidas como simbólica e sistêmica. Em sua análise,  Zizek demonstra os riscos de se centrar a atenção apenas na chamada violência subjetiva, que exercida pelos diversos atores sociais e de maneira “visível” , acaba por desviar o olhar de outra violência, muito mais nociva, que é a violência objetiva.

A violência simbólica, por exemplo, evidencia a dominação cultural hegemônica. É a violência que se verifica quando uma classe dominante impõe sua cultura às classes dominadas. É aquela que está “encarnada na linguagem e nas suas formas” (ZIZEK, 2009, p. 9). Uma característica essencial desse tipo de violência é que o dominado não se opõe ao dominador, pois não percebe esse processo de violência e não se sente vítima de violência, vivenciando aquela situação como algo natural.  Trata-se da dominação social que as formas de discurso habituais reproduzem.

A violência sistêmica, por seu turno, consiste, segundo Zizek, “nas consequências muitas vezes catastróficas do funcionamento homogéneo dos nossos sistemas econômico e político” (ZIZEK, 2009, p. 10). É fato indubitável que as formas de violência atual impactam a sociedade com a palavra “medo”. 

Segundo Zizek, uma das características mais marcantes de nosso sistema político é um estilo de governo que afirma deixar para trás os combates ideológicos para se centrar na regulação da segurança e do bem-estar das vidas humanas. Esse movimento de despolitização somada à mobilização do medo, garante ao sistema político cumprir o papel de proporcionar soluções mágicas para o problema da segurança pública. E isto, certamente, acirra as desigualdades. Exemplo disso é que violência institucionalizada, representada pelo aumento do contingente policial em bairros periféricos,  tem levado à criminalização da população pobre, sobretudo negra.

Por isso, Zizek  aponta que o foco na violência subjetiva – a violência identificável –  interfere no senso crítico das pessoas, de modo que, quanto mais pessoas falam de violência, menos se reflete criticamente sobre o que ela é realmente, como ela opera e a quem ela beneficia. Isto é, o suposto esgotamento do sentido de violência impede a percepção da violência sistêmica representada pelo capitalismo.

Zizek nos alerta, portanto, que há formas mais sutis de coerção que acabam por sustentar relações de poder, dominação e exploração que não são evidentes – como eram em outras épocas –  e, muitas vezes, anunciam catástrofes bem maiores que a própria violência subjetiva. Isto é, a  força “abstrata” do capital manifesta sua dimensão material na determinação dos processos sociais sem que esse tipo de violência seja atribuída a indivíduos concretos.

Desta forma, devemos entender a constante sensação de suscetibilidade à violência e sua “naturalização” como resultados de um movimento de regressão ideológica pelo sistema, que nos impõe uma vigilância maior contra o perigo, e que se traduz, de maneira sintomática,  em aumento do policiamento, da repressão e da criminalização e do uso da violência do Estado contra a própria população. De acordo com as considerações de Zizek, embora opor-se as mais diversas formas de violência pareça ser hoje a maior preocupação da atitude liberal, não se pode perder de vista que as três formas de violência por ele apresentadas são reflexo do capitalismo defendido intransigentemente pelos mesmos liberais que aparentemente se opõem à violência.  

Por Carolina Rodrigues

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