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Dos Campos de Refugiados de Moria, de Elefsina e de Skaramangas…

por Dulcinha Machado

Um depoimento na primeira pessoa por Dulce Machado,

Ser refugiado é carregar um passado pesado, um presente inconstante e um futuro incerto. Ser refugiado é muito mais do que uma palavra. São pessoas que, a cada minuto que estamos com elas, nos dão uma lição de vida, de coragem e de humildade.

Que, apesar do cansaço da vida e do medo da morte, têm sempre um sorriso para nos oferecer, um obrigado para dizer. Assim foram os meus meses de voluntariado nos Campos de Refugiados de Moria, de Elefsina e de Skaramangas, todos na Grécia. Foram muitos momentos de tristeza, alegria, esperança, de muito amor, generosidade e empatia.

De facto, há experiências que nos mudam. Há momentos que transformam as nossas vidas. E estes, sem dúvida, que transformaram a minha para sempre. Principalmente o Campo de Refugiados de Moria. Este campo, considerado o pior de toda a Europa e um dos piores do mundo, é algo indescritível, inimaginável.

Um campo onde o pesadelo substitui o sonho. Onde é esquecida a dignidade humana. É um verdadeiro inferno na Terra. As condições são desumanas, todos os dias há mortes, violações, lutas. Não há condições de higiene, não há direito à privacidade. A maioria das mulheres dorme com fraldas para não terem de ir, durante a noite, à casa de banho. Têm medo. As crianças pedem um sítio onde podem voltar a sorrir, a sonhar, a brincar, a dançar, a estudar. Onde podem voltar a ser um pouco felizes, esquecer a guerra, as travessias que fizeram através de montanhas ou de botes através do Mediterrâneo.

Um campo de refugiados deveria ser um espaço temporário e não permanente, como infelizmente podemos constatar cada vez mais. Deveria ser um espaço de paz, de esperança e não um ” depósito de seres humanos”.

Seres Humanos! Estamos a falar de seres humanos, como tu, eu, como qualquer um de nós. Seres humanos que foram obrigados a deixar para trás as suas memórias, as suas famílias, os seus sonhos, as suas infâncias, os seus amores, os seus países.

Fugiram de guerras violentas, de perseguições políticas e religiosas, de torturas e violações.

Fugiram para não morrer.

Fugiram para salvar os seus filhos.

Fugiram para salvar as suas famílias.

Fugiram para poder amar.

Fugiram para a Liberdade!

Será que teríamos essa mesma coragem? E se fosse connosco? A verdade é que poderia ser qualquer um de nós. Ninguém está livre de, um dia, ser um refugiado. É importante que nunca esqueçamos isso.
Eu sorri, chorei, aprendi, descobri, amei, cresci muito com todas estas pessoas que abriram os seus corações para mim, que me confiaram as suas vidas, as suas histórias, os seus segredos.

Histórias. Tantas. Tantas. Histórias que trago e guardo dentro de mim. Para sempre. A verdade é que, depois de uma experiência destas, nunca mais voltamos a ser a mesma pessoa, não voltamos a ver o mundo com os mesmos olhos.

Ficamos mais fortes, mais felizes. O nosso coração fica partido mas, ao mesmo tempo, cheio de amor, de esperança e de saudade. Já é altura das pessoas serem mais solidárias, mais genuínas, menos egoístas. É urgente que o mundo comece, finalmente, a olhar para um refugiado como ele é exatamente: um ser humano de verdade.

Que nunca se desista de acreditar na Humanidade!

Foto de destaque: Imagens captadas por Dulcinha Machado nos Campos de Refugiados


Dulce Machado

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