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CARLOS MUGICA, um Herói da Teologia da Libertação

por Joffre Justino

As visões do mundo pretendem claro existir para intervir nesse mesmo mundo mesmo quando escondem essa perspetiva em discursos de alienação da realidade e há que assumir que quer no campo dos que anseiam por um Mundo onde a Pessoa se sinta tal quer no campo adverso onde se defende a desigualdade política social económica e cultural como “natural” o objetivo é intervir na sociedade sonhando a mudança ou sonhando a continuação para sempre do statusquo 

Temos no Estrategizando trazido à ribalta de novo os ‘esquecidos do neoliberalismo’ como Karl Marx ou Rosa Luxemburgo e desta feita embrenhamo-nos no campo cristão especialmente o latino americano para recordar um padre operário Carlos Mugica e falar um pouco da Teologia da Libertação 

Nasceu Carlos Mugica em Buenos Aires, a 7 de outubro de 1930, de uma familia rica e com significativo poder político sendo o seu pai deputado nacional conservador e ministro das Relações Exteriores e no ramo materno, descende de Pascual Echagüe, ex-governador de Entre Ríos. 

Carlos chegou a inscrever-se para estuda Direito mas deixou sua carreira para ingressar no Seminário Villa Devoto.

Ordenado  sacerdote em 1959 foi nomeado secretário particular do arcebispo de Buenos Aires, cardeal Antonio Caggiano e como consultor da Juventude de Estudantes Católicos conhece Ramus, Firmenich e Abal Medida, futuros líderes de do grupo revolucionário os Montoneros e no final dos anos sessenta exerce o seu sacerdócio na Vila 31 de Retiro ligando-se ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo, onde desenvolve a sua vocação política no contexto da sua vocação social e cristã.

Entretanto conhece em Madrid Perón e adere ao peronismo, que para ele  “é o exemplo histórico que um cristão deve aderir para ver as coisas do lado dos pobres” e em novembro de 1972, faz parte dos que assinaram a Carta que trouxe Perón do exílio. 

Proximo das lutas de libertação nacional e contra a exploração capitalista, ele é crítico da violência de guerrilha e assume repetidamente: “Estou disposto a ser morto, mas não a matar”. 

A 11 de maio de 1974, cumpre-se o pressagio e as balas de uma metralhadora matam-no à saida da Iglesia San Francisco Solano, em Villa Luro.

No entretanto participou nas lutas populares na Argentina nas décadas de 1960 e 1970 e foi fundador da Paróquia do Cristo Operário na Villa 31.

A opção pelos  pobres, um princípio central da teologia da libertação, o intenso ativismo social, gera críticas de vários setores direitistas, que conduzem a ameaças de morte e até a tentativas de assassinato que levam como referimos ao 11 de maio de 1974, ao seu assassinato numa emboscada depois de celebrar a missa na Igreja de São Francisco Solano, em Villa Luro com a justica a declarar que Mugica foi assassinado pela organização paralegal Triple A.

É em 1968, numa viagem para França para estudar onde estudou Epistemologia e Comunicação Social que conhece  o padre Roland Concatti um dos fundadores do Movimento dos Sacerdotes para o Terceiro Mundo e que lhe permite viajar para Madrid onde conheceu o General Peron

O arcebispo coadjutor de Buenos Aires Juan Carlos Aramburu, e que defendia uma Igreja alinhada com os ricos e poderosos, proibiu Carlos Mugica de se manifestar politicamente algo que ele não cedeu e em 1974, surgiu o disco “Misa para el Tercer Mundo“, no qual o Grupo Vocal Argentino cantava sobre textos escritos por Mugica, com ritmos argentinos, africanos e asiáticos! 

É pois este padre que nos leva à Teologia da Libertação, uma corrente teológica cristã surgida depois do Concilio do Vaticano II e da Conferência de Medellin que assume que o Evangelho exige a opção preferencial pelos pobres e especifica que a teologia, para concretizar essa opção, deve usar também as ciências humanas e sociais.

É um movimento supradenominacional, apartidário e inclusivista que engloba várias correntes de pensamento que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em prol de uma libertação face às injustas condições económicas, políticas ou sociais.

Os apoiantes da Teologia da Libertação assumem-na como uma reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, de resposta aos problemas sociais e os seus oponentes descrevem-na como um marxismo e um materialismo cristianizado.

O inicio da Teologia da Libertação terá sido em 1971, quando o padre peruano Gustavo Gutierrez publicou o livro  A Teologia da libertação com o movimento a ser censurado nos Pontificados de João Paulo II e de Bento XVI opusdeistas que foram 

Já no pontificado de Francisco a igreja demonstra uma posição reconciliadora ainda que o pontífice já tenha refutado ligações com a teologia da libertação de Leonardo Boff importante teólogo brasileiro 

A influência da teologia da libertação foi posta em causa dadas as  condenações da Congregação para a Doutrina da Fé dd 1984 e 1986 que contestou  os principais fundamentos da teologia da libertação, como a ênfase exclusiva no pecado institucionalizado, coletivo ou sistêmico, excluindo os pecados individuais, a eliminação da transcendência religiosa, a desvalorização do magistério e o incentivo à luta social ( que curiosamente João Paulo II incentivou na Polonia sovietista) 

A Teologia da libertação nasceu da influência de três linhas de pensamento, o Evangelho Social das igrejas norte-americanas, via o missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull  a Teologia da Esperança do teólogo Jürgen Maltmann e a teologia antropo politica com  o teólogo católico Metz na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox nos Estados Unidos.

Em 1965, o teólogo batista Harvey Cox, contrapõe-se à obra clássica de Santo Agostinho  e defende que a divisão entre a cidade dos homens (o mundo terreno) e a cidade de Deus (o mundo espiritual), a partir do século XX  supera-se pela contraposição entre a cidade dos operários oprimidos (o mundo proletário), a cidade dos donos do poder (o mundo geopolítico) e a cidade dos capatazes opressores (o mundo burguês).

Mas um marco essencial do nascimento da Teologia da libertação  está na publicação da obra Uma teologia da esperança humana, de Rubem Alves, que aliás tinha como título original Em direção a uma Teologia da Libertação a sua tese de doutoramento no Princeton Theological Seminary.

Em 1972, Leonardo Boff inicia a sua atividade publica com a publicação  do livro Jesus Cristo Libertador e com Rubem Alves exilado nos EUA Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica no Brasil, e até dada a proteção da ordem dos franciscanos, a que pertencia. 

A Teologia da Libertação parte da interpretação da realidade da pobreza e e da exclusão e do compromisso com a libertação para desenvolver uma reflexão teológica para uma ação transformadora desta mesma realidade criticando a teologia moderna considerando-a  eurocêntrica não atendendo à realidade dos países periféricos.

O então cardeal Ratzinger no texto Libertatis nuntius em 1984 ja Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé diz que a Teologia da Libertação tem as seguintes motivações – a) impaciência e  desejo de alguns cristãos de serem eficazes levando-os para  a análise marxista; b) uma situação intolerável exige uma ação eficaz que não pode mais ser adiada e pressupõe uma análise científica das causas estruturais da miséria sendo o marxismo o meio para essa análise aplicada àAmérica Latina; c) tendo uma concepção totalizante as teologias da libertação têm de aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem. 

De relevar que algumas mudanças na Igreja Católica possibilitaram o surgimento da Teologia da Libertação tais como a Ação Catolica o seu método Ver – Julgar -Agir que levou à busca de uma compreensão crítica da realidade e o incentivo a uma ação transformadora ou a realização do Concilio do Varicano II entre 1962-1965 e o esforço de diálogo entre a Igreja  e o mundo moderno, ou 

a Segunda Conferencia Geral do Episcopado Latino Americano em Medellin na Colombia, ou as comunidades Eclesiais de Base nascidas com a Conferencia acima a partir da Ação  Católica que iniciaram a sua luta pela mudança social e o confronto com os regimes militares por parte de bispos   como Dom Helder Câmara Dom Pedro Casaldaliga Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Oscar Romero entre outros.

Estes ativistas do movimento da Teologia da Libertação defendem que ele se afirma em ideais de amor e libertação de todas as formas de opressão como afirmam que tem uma forte base nas sagradas escrituras mas como os adeptos da Teologia da Libertação defendem um papel político significativo para as igrejas, e utilizam a filosofia marxista como base ideológica e metodológica do movimento sao alvo de forte critica e entre estes teólogo  como o ex dominicano Mathew Fox, proibido por Ratzinger de ensinar a Teologia da Libertação e mais tarde  expulso da ordem onde estivera durante 34 anos denuncia que “a CIA esteve envolvida, especialmente com o papa João Paulo II nos trabalho de destruição da Teologia da Libertação em toda a América Latina substituindo inclusive bispos e cardeais, para colocar membros da opus dei a seita de José Maria Escrivá 

O cristianismo aproxima-se do marxismo na década de 1960 na América Latina pois o ambiente político de crises e cisões, leva a que a Igreja Católica, não fique de fora e a teologia da libertação surge como resultado de uma prática libertadora de leigos, padres e bispos no seio dos movimentos sociais, que se reforçou nas conferências de Medellin e de Pueblo de onde se reforçaram as atividades da Comissao pastoral da Terra entre os camponeses apoiando e participando na luta oela reforma agrária e no papel das comunidades Eclesiais de Base nas favelas e desta forma vem a incorporação seletiva de aspectos do marxismo 

Surge entretanto uma forma  de Teologia da Libertação a Teologia da Cidadania e também no Vaticano muda a posição face à Teologia da Libertação com a eleição do papa Francisco formado na Teologia do Povo e Logo a seguir a assumir o cargo, o Papa 

Francisco recebeu a 11 de setembro de 2013 ao padre dominicano Gustavo Gutiérrez, um gesto visto por algumas pessoas como “um passo para a reabilitação total da Teologia da Libertação”

Claro que o opusdeismo luso considera a Teologia da Libertação como uma invenção da URSS ao ponto de haver quem escreva eue quem inventou o termo Teologia foi Nikkita Khrushchov 

Imagine-se este mimo “Nikkita Khrushchov inventou a Teologia da Libertação em 1950 e só conseguiu fazer a conferência em 1968. Podem já imaginar a longa preparação que ouve e podem também imaginar quantas pessoas da KGB estiveram envolvidas neste processo. (Noticias Viriato, Tiago Cerejo de Andrade https://www.noticiasviriato.pt/teologia-da-libertacao/ ) !

Ja um ex-reitor do Santuário de Fátima, Luciano Guerra, lá vai reconhecendo generosidade na Teologia da Libertação, nascida na América Latina, mas considera “impossível eliminar” a desigualdade entre ricos e pobres na totalidade algo que o Novo Testamento tão fortemente contesta!

“Há uma parte da Igreja que realmente não conseguiu perceber que é impossível eliminar completamente a desigualdade humana, que ela existe e vinda da própria natureza”, disse Luciano Guerra à Lusa, e concede claro, “… o marxismo fomentou o ódio, ao passo que a Teologia da Libertação não fomenta o ódio para com o rico”. 

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