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A bolsa ou a vida?

por Carolina Rodrigues

A pandemia do novo coronavírus tem mudado nossas vidas  radicalmente. Sobre isto ninguém tem dúvidas. As medidas de distanciamento social, que visam conter a disseminação do vírus na falta da vacina e de uma medicação eficaz contra a doença, têm nos imposto uma nova realidade, a qual muitos chamam de “novo normal”. Neste sentido, as adaptações a essa nova realidade têm atravessado longos debates, sobretudo no que diz respeito às questões referentes às políticas de flexibilização a e economia.

É indubitável que o avanço do desemprego tem posicionado o debate entre “a bolsa ou vida”. Mas, se a dicotomia entre a vida e a economia  é falaciosa, já que a economia só existe se há vida, faz-se necessárias algumas considerações acerca da operacionalidade desse dualismo no seio do governo bolsonarista.  Inequivocamente, o bem jurídico primordial do ser humano é a vida, sem a qual, obviamente, não existiria o trabalho. E sem o trabalho  não haveria capital, que é fruto da mais-valia do trabalhador. Assim, resguardar o direito à vida tornou-se atributo do Estado liberal, zelador da vida e da saúde dos indivíduos – leia-se trabalhadores. No entanto, o Brasil de Bolsonaro, embora reze  a cartilha do capitalismo neoliberal, reza em uma língua particular. E a essa particularidade que devemos nos atentar.

Tendo atingido a marca de 1.188.631 casos confirmados e 53. 830 mortes por Covid-19, paradoxalmente, medidas de flexibilização se espalham entre os estados e municípios. Meios de transporte público lotados, ruas, praias, shoppings e bares cheios nos informam que, à despeito dos dados, as pessoas têm forçado a volta  à normalidade. Mas, se somos tentados a julgar a população por uma suposta inconsequência, numa espécie de moralismo sanitário, antes devemos nos ater à política que rege nossa sociedade, que tem como ferramenta de dominação justamente a  desestabilização pelos extremos: o medo e o negacionismo. 

Incapaz de oferecer respostas eficazes ao combate à pandemia  e  implementação de medidas corretas na contenção da crise que se segue à doença, o governo Bolsonaro vem lançando a população à “cova dos leões”. Sem oferecer subsídios às pequenas empresas e oferecendo um parco auxílio aos trabalhadores informais e desempregados, o Brasil, epicentro da pandemia, caminha a passos largos para se tornar também o epicentro do desemprego. Segundo estimativa da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, a taxa de desemprego pode chegar a 15, 3%  até o  fim deste ano. De acordo com dados do IBGE, no primeiro trimestre de 2020 o Brasil registrou 12, 85 milhões de desempregados. Situação que vem se agravando desde o registro do primeiro caso do Covid-19 no país, no dia 25 de fevereiro. Com menos pessoas saindo de casa , o consumo das famílias caiu. Como consequência, muitas empresas tiveram perdas de receita e tiveram que fechar as portas ou reduzir o quadro de funcionários para tentar enfrentar a crise.

Parte daí o primeiro ponto de desestabilização: o medo do desemprego, que desde o início da pandemia – quando ainda existia um consenso a favor do isolamento social –  lançava os  trabalhadores precarizados nos transportes públicos cheios e tirava-lhes o direito de defender  a vida. O segundo ponto de desestabilização, o negacionismo, embora opere em outra lógica, acomete também os mais vulneráveis. Dada as condições sócio-históricas, o Brasil que já é campeão de mortes de índios, negros, mulheres e transgênero tornou-se cenário perfeito para fingir que o coronavírus não mata. Na verdade, é o desprezo pela vida dos desprivilegiados, a desvalorização da vida dos mais vulneráveis o ponto alto da política nefasta de Bolsonaro. A ele interessa o mercado sob a lógica da substituição – aquele que morre será sempre substituído por outro -, o que torna os trabalhadores cada dia mais fragilizados e, consequentemente, mais precarizados; e os patrões cada vez mais poderosos e propensos a apoiar o projeto autoritário do presidente.

O declínio das ideologias e da crenças política somados ao contexto do coronavírus,  permitiram a construção deste cenário de extrema instabilidade, onde dados desencontrados são apresentados para fortalecer comportamentos que permitam governar mesmo em situação extrema. Assim, se as políticas de biossegurança informadas pela OMS inicialmente foram suficientes para incitar à disposição ao isolamento, a aposta de Bolsonaro no medo da fome e no negacionismo foi determinante para levar as pessoas às ruas em pleno avanço da doença. Afinal, para Bolsonaro mais vale a bolsa (de valores) que a vida.

Por Carolina Rodrigues

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