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ANTIBOLSONARISMO NÃO É ANTIFASCISMO

por Carolina Rodrigues

Seguindo as ondas de protestos que eclodiram nos Estados Unidos contra o racismo e a violência policial, muitas vezes encabeçadas por movimentos Antifa, grupos de torcedores de futebol autodenominados antifascistas saíram às ruas de várias cidades do Brasil  para protestar contra as ameaças de ruptura institucional do governo.

Após as manifestações, as redes sociais foram tomadas por posts e hashtags fazendo referência ao movimento e pessoas criaram imagens de perfil com o logotipo  da bandeira Antifa, juntando  profissão e categoria ao adjetivo “antifascista”.

Mas,  apesar de bem intencionada, essa apropriação acrítica e ignorante —enquanto simples falta de conhecimento — é muito perigosa e danosa à luta contra a onda fascista que acomete o Brasil. Isto porque, na esteira dos movimentos autodenomidados antifascistas, grupos políticos contrários ao governo Bolsonaro têm fortalecido a ideia de uma frente ampla em defesa da democraciacapaz de frear o fascismo. Tratam-se de setores oportunistas que defendem a unicidade e os “ movimentos supra partidários” e que são comandados por golpistas “arrependidos” e apoiados por uma esquerda confusa e desnorteada que pensa ser válida qualquer iniciativa que tenha por finalidade o isolamento de Bolsonaro. Ou seja, na prática, o movimento é composto em sua maioria por personalidades que corroboraram com a ascensão do fascismo no país. Assim, a fim de análise de conjuntura, faz-se extremamente necessário a divisão entre antifascismo e antibolsonarismo para que possamos vislumbrar uma possível mudança nos quadros políticos atuais. 

No que tange ao antifascismo, para entendê-lo,primeiramente, precisamos compreender o que é o fascismo. Movimento político, econômico e social, o fascismo  surgiu na Itália liderada por Benito  Mussolini e se desenvolveu em outros países europeus no período após a Primeira Guerra Mundial, tendo sua expressão mais extrema sob a ideologia nazista, desenvolvida por Adolf Hitler na Alemanha. 

Possuindo como elementos  fundantes a exaltação do líder, o nacionalismo exacerbado,  a eleição do inimigo comum, a motivação  pela falsa unidade de Nação e, inicialmente,o anticapitalismo, o fascismo apresenta-se como uma ferramenta de sustentação do sistema vigente e da hierarquia social. A crítica ao capitalismo que existia, portanto, não era da exploração, mas a indiferença para com a nação. Em seu cerne, a reformulação das relações entre indivíduo e coletividade, fez com que o interesse comunitário fosse sempre o do indivíduo – característica também presente no capitalismo.  Foi assim que a burguesia de nosso tempo começou a entender que o fascismo talvez fosse a melhor forma de Estado para o capitalismo, ultrapassando até mesmo o liberalismo. 

Vale destacar, assim, que o fascismo encontrou e encontra lastro nos governos de direita ou extrema-direita quebuscam, sobretudo, a manutenção do capitalismo através da força e da violência, que tem por finalidade alterar substancialmente a correlação de forças na sociedade a favor da grande burguesia. Falar em combater o fascismo e preservar o capitalismo, portanto, denota uma incongruência. 

Nesse ponto é que o movimento antifascista se distancia de maneira significativa do antibolsonarismo. Embora todo antifascista seja antibolsonarista, nem todo antibolsonarista é antifascista. Prova disso é que muitosdos que endossam uma frente ampla entre direita e esquerda, por exemplo, protagonizaram o golpe que tirou Dilma Rousseff da presidência. Certamente, negando todo e qualquer tipo de purismo, reconhecemos que política é feita de negociações e alianças, mas que existem alianças que são desfavoráveis à manutenção do processo democrático e que ensejaram a ascensão do ideário fascista no Brasil. Assim, a frente ampla que se propõe antifascista, na verdade articula-se em torno de um centro e de uma direita que insistem em defender o programa econômico de Paulo Guedes e que se valem do antipetismo como ferramenta programática. Isto é, os “antifascistas” de centro e direita querem um governo Bolsonaro sem Bolsonaro.

Por isso, a luta antifascista está para além de Bolsonaro. Se o presidente do Brasil apresenta-se como a personalização do fascismo, isso não quer dizer em absoluto que sua retirada do poder dará fim ao fascismo no país. De acordo com a filósofa Marilena Chauí, a resposta capitalista à crise é o endurecimento da direita e extrema-direita, o que leva a regimes autoritários. No Brasil,específicamente, sob a forjada aparência da “normalidade democrática”, está o apoio a torturadores, a LGBTfobia, a misoginia, o genocídio da juventude negra, a propagação de fake news. Mesmo tendo sua campanha marcada por falas de ódio, preconceitos e racismo, Bolsonaro teve apoio de setores artísticos, empresariais e da classe média. O fascismo, portanto, é o pilar que sustenta um sistema de opressão que nega direitos, anula vidas e beneficia economicamente a elite, sobretudo branca. 

Por essas razões, ser antifascista é combater com força esse sistema vigente, não apenas o bolsonarismo. É Combater as desigualdades e as leis que a aprofundam e  é lutar contra o regime fascista que, também, se materializa na economia. Assim sendo, os liberais que até ontem compunham o governo e agora dizem estar do lado dos trabalhadores contra o fascismo podem até não ser fascistas, mas tampouco são antifascistas. 

Por Carolina Rodrigues

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