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RESISTÊNCIA DA LITERATURA BAIANA (II) Direito de resposta

por Paulo Martins

O Estrategizando recebeu, através de e-mail da Sra. Andreza Serapião, cópia da carta que o Sr. Joaci Góes, Presidente da Academia de Letras da Bahia, dirige ao confrade João Carlos Salles, respondendo a carta subscrita por 23 acadêmicos criticando a sua postura em entrevista à Rádio Metrópole.

Ao abrigo da Lei de Imprensa n.º2/99, de 13 de janeiro, artigos 24.º, 25.º e 26.º, atendemos o Direito de Resposta ao artigo RESISTÊNCIA DA LITERATURA BAIANA, publicado no dia 8 de junho de 2020, que aqui reproduzimos.

A íntegra daquela manifestação epistolar foi publicada e comentada aqui no Estrategizando, em matéria intitulada “Resistência da Literatura Baiana”, o que nos obriga, dentro das boas práticas mediáticas, a reproduzir a contestação do Sr. Joaci Góes, na qual tenta esclarecer os fatos relacionados à referida entrevista.

É a seguinte a carta:

“Eminente Confrade João Carlos Salles, não li nem conheço as pessoas citadas pelo ilustre Confrade que comentaram a minha entrevista à Metrópole, a mais aplaudida, nas redes sociais, entre quantas manifestações tenho feito, em letra de forma ou verbalmente, nos últimos quarenta anos, como livre pensador que sou! É natural que haja opiniões em contrário!  Adianto que mais da metade dos signatários que o secundam nesta mensagem já me inteirara de sua elaboração bem como pedindo que não levasse em conta a inclusão dos seus nomes!  Na entrevista, o apresentador do programa incluiu o fato de me encontrar como Presidente da Academia de Letras da Bahia, ao lado de outras atribuições, sem que, em nenhum momento tenha havido a vinculação da vetusta e venerável Instituição às minhas declarações de caráter eminentemente pessoal!

Não fosse pela respeitabilidade do seu nome, utilizado de má-fé por alguém que não tem postura moral para assumir seus complexos e limitações, portanto, um equívoco perfeitamente compreensível, estaria eu livre para imaginar encontrar-me diante de uma lamentável tentativa de patrulhamento ideológico, de natureza fascista, o que, certamente, não é o caso!

Empenhado, desde sempre, em não confundir o que vejo com o que desejo, ao lado das fortes críticas que fiz ao Presidente da República não pude deixar de reconhecer a verdade factual de que ele se revelou o mais produtivo da história Republicana do País, no seu primeiro ano de governo, opinião que me ponho à disposição para discutir, democraticamente, em qualquer colegiado! Quem lhe informou, portanto, e aos demais confrades, sobre o envolvimento da Academia em meu pronunciamento, deve ser incluído nas investigações em curso para apurar os crimes das “fake news”!

Certamente, trata-se de uma pessoa inteiramente destituída de escrúpulos!

Atenciosamente,

Joaci Fonsêca de Góes“

Como se pode ver, o Sr. Joaci Góes esclarece que, na entrevista que concedeu à Rádio Metrópole, o apresentador do programa incluiu o fato de ele se encontrar como Presidente da Academia de Letras da Bahia, ao lado de outras atribuições, mas sem que, “em nenhum momento tenha havido a vinculação da vetusta e venerável Instituição às minhas declarações de caráter eminentemente pessoal!”.

No nosso entender, no entanto, ele deveria ter feito de forma contundente tal separação no momento em que o nome da Academia foi ventilado, não só na entrevista e na publicação de matéria jornalística que a seguiu, como nas redes sociais, o que, obviamente, resultaria de todo desnecessário que 23 membros da “vetusta instituição” se sentissem feridos e obrigados a se manifestarem como o fizeram. Não o tendo feito, o esclarecimento de agora soa tardio, e no mínimo carente de uma postura autocrítica.

Não há dúvida de que, dado a forma como a entrevista veio a público e foi apropriada nas redes sociais, a manifestação de protesto em apreço foi legítima e oportuna, não havendo porquê nenhum de seus signatários ser criticado por dela participar.

Sendo assim, a afirmação de que o nome do confrade João Carlos Salles, primeiro signatário da carta teria sido “utilizado de má fé por alguém que não tem postura moral para assumir seus complexos e limitações”, é acusação gravíssima, que recai sobre outros membros daquela casa.

Seria de bom alvitre que o Sr. Joaci Góes nomeasse o responsável por tal usurpação, para não deixar no ar assunto de tamanha relevância. Mesmo porque, seria duvidoso que o confrade João Carlos Salles, que também é Reitor da Universidade Federal da Bahia, tenha se deixado engabelar de forma leviana por qualquer um de seus pares, assinando uma carta de forma inocente ou irresponsável.

Pela mesma razão, não nos parece procedente a afirmação de que “mais da metade dos signatários” da referida carta tenham pedido ao Sr. Joaci Góes para não levar em conta a inclusão dos seus nomes! Seria admitir que pessoas conscientes, ilustres representantes da literatura e da cultura baianas, voltassem atrás em seus posicionamentos públicos e dissessem que não disseram o que disseram. Isso só seria crível se seus nomes fossem revelados e não contestados pelos mesmos. De onde se conclui que o presidente da ALB talvez fosse muito mais convincente e prestasse melhor serviço à Bahia e ao Brasil se reconhecesse com mais humildade as razões dos signatários daquela carta.

Na pequena sondagem que realizamos não encontramos ninguém disposto a retirar seu nome. E uma prova disso é a entrevista que João Carlos Salles concedeu à mesma Rádio Metrópole no dia 9 deste mês (dois dias depois da contestação do Sr. Joaci Góes), dessa vez diretamente ao seu proprietário e editor-chefe, Mário Kértesz, em que ele confirma suas posições e convicções. Além de responder a diversas questões sobre a UFBA, ele fala da carta dos acadêmicos, reafirmando os seus termos e reprovando de forma veemente qualquer apoio ao governo bolsonazista. Quem quiser comprovar pode assistir a sua entrevista no Youtube.

É bem verdade que João Carlos Salles dá o assunto por encerrado, mostrando-se satisfeito com a resposta do presidente da ALB. Mas é evidente, também, que o fez por educação, e para não acirrar os ânimos em torno de um assunto que não deveria ter se tornado público. No final das contas o objetivo da manifestação dos confrades já havia cumprido o seu papel.

Em sua entrevista, o acadêmico João Carlos Salles declara ainda que “nosso maior patrimônio é o nome da Academia: como somos vistos e como seremos lembrados”. Portanto, seria realmente constrangedor que o nome da ALB fosse vinculado a uma declaração de elogio a um governo liberticida e insano, o pior que o Brasil já teve em toda a sua história, e não o melhor, como defende o Sr. Joaci Góes, numa posição que revoltou até mesmo o editor-chefe da Rádio Metrópole, que comentou, ao lado de suas perguntas, ser “lamentável existirem pessoas que ainda pensam assim”.

Enfim, trata-se de episódio lamentável sob todos os aspetos, que, se por um lado mancha o nome da ALB, por outro lhe enche de glória, mostrando que lá existem cabeças pensantes que não estão dispostas a tolerar o fascismo em marcha no país. Reafirmamos, portanto, o que dissemos na publicação anterior: “A manifestação dos 23 membros da Academia (…) é um acontecimento que honra as tradições libertárias e culturais da Bahia e que serve de exemplo a outras entidades congêneres em todas as esferas da cultura nacional.”

Paulo Martins

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