Home Opinião RESISTÊNCIA DA LITERATURA BAIANA

RESISTÊNCIA DA LITERATURA BAIANA

por Paulo Martins

A Bahia de Gregório de Matos, de Castro Alves e Ruy Barbosa, de João Mangabeira e Waldir Pires,  de Jorge Amado e Dorival Caymmi, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, de João Ubaldo Ribeiro e Antonio Torres, viveu momento glorioso nesta última semana, quando membros da sua Academia de Letras se rebelaram contra o atual presidente da entidade, Joaci Góes, por ter usado o nomeda instituição em manifestação política de elogio ao governo do genocida Jair Bolsonaro. 

Em carta aberta dirigida ao confrade que ocupa a presidência de uma das mais antigas academias de letras do Brasil, fundada em 7 de março de 1917, os signatários pedem-lhe que se abstenha de usar o nome da entidade em declarações públicas ou privadas, seja a que título for, por duas razões inseparáveis: primeiro para não sujar o seu nome, uma vez que a entidade não tem ideologia política e deve conviver com a diversidade de opiniões e com a livre manifestação do pensamento; e segundo porque a maioria deles não concorda com as opiniões emitidas pelo seu presidente, muito pelo contrário, “estão acompanhando com apreensão o cenário político, econômico, social, cultural, ambiental e sanitário do país.”

A manifestação dos 23 membros da Academia que assinam a carta, de um total de 40, é um acontecimento que honra as tradições libertárias e culturais da Bahia e que serve de exemplo a outras entidades congêneres em todas as esferas da cultura nacional. Não há dúvida de que o número de adesões seria ainda maior, não estivessem muitos de seus membros dispersos ou incomunicáveis por outros motivos. O estado de calamidade em que se encontram os órgãos de cultura do país, esvaziados pelo presidente Jair Bolsonaro, não pode ser desprezado por aqueles que deles dependem e a eles se dedicam para fomentar e expandir uma cultura e uma literatura livres e abertas a todos os brasileiros. O momento dramático que se atravessa só pode ser motivo de revolta e de resistência e jamais de elogios baratos àquele que se tornou o principal responsável por tudo isso.

Abaixo a íntegra da Carta e a relação de seus signatários.

Prezado Presidente Joaci Góes,

Tomamos conhecimento de uma recente entrevista sua, concedida ao jornalista José Eduardo, da Rádio Metrópole, no dia quatro próximo passado, na qual o ilustre confrade foi apresentado como presidente da Academia de Letras da Bahia.

A referida entrevista foi objeto de matéria assinada pela jornalista Márcia Guimarães e veiculada no site do entrevistador (Bnews) com o título “‘No primeiro ano de governo, Bolsonaro foi o melhor presidente da história do Brasil’, afirma historiador baiano”. No corpo da matéria, a jornalista se refere ao confrade como “historiador, político e presidente da Academia de Letras da Bahia”.

No dia seguinte, a entrevista foi objeto de outra matéria na imprensa, assinada pelo jornalista João Brandão e publicada pelo jornal Metro1, no site da Rádio Metrópole, com o título “‘Foi melhor presidente no primeiro ano de governo’, avalia Joaci Góes sobre Bolsonaro”, novamente vinculando o confrade à ALB.

Essa segunda matéria foi compartilhada por terceiros no Facebook, onde recebeu diversas “curtidas” e comentários, em sua maioria, desabonadores ao confrade e à Academia.

Gostaríamos de registrar, inicialmente, que todos nós defendemos o entendimento de que a livre manifestação de ideias e opiniões seja um direito universal e inalienável da cidadania, uma conquista da contemporaneidade, um princípio republicano, o qual embasa o estado democrático de direito da nação brasileira.

Todavia, estando o confrade investido do cargo de presidente de nosso centenário silogeu, julgamos que seja de bom mister, ao emitir considerações políticas, deixar claro ao interlocutor e a todos os ouvintes, quer presenciais, quer remotos, em quaisquer circunstâncias, que ali se trata de opinião pessoal, não refletindo necessariamente o entendimento dos acadêmicos ou da instituição sobre aquele assunto.

Acreditamos que esse procedimento contribua para a preservação da imagem da Academia, cujo posicionamento de isenção em questões sensíveis se faz necessário para o diálogo saudável com a sociedade e para as relações com as demais instituições sociais, culturais e políticas, sejam da esfera pública ou da esfera privada.

Ademais, avaliamos que seu pronunciamento não se alinha com a opinião majoritária dos membros de nosso fraternal, dialogal e plural sodalício, que, em sua maioria, conforme as subscrições abaixo podem comprovar, estão acompanhando com apreensão o cenário político, econômico, social, cultural, ambiental e sanitário do país.

Atenciosamente,

João Carlos Salles

Evelina Hoisel

Aleilton Fonseca

Antonio Brasileiro

Antônio Torres

Armando Avena

Carlos Ribeiro

Cleise Mendes

Dom Emanuel d’Able do Amaral

Edilene Matos

Fernando da Rocha Peres

Florisvaldo Mattos

João Eurico Matta

José Carlos Capinan

Juarez Paraíso

Luís Antonio Cajazeira Ramos

Marcus Vinícius Rodrigues

Ordep Serra

Paulo Costa Lima

Paulo Ormindo de Azevedo

Ruy Espinheira Filho

Urania Tourinho Peres

Yeda Pessoa de Castro

0 comentário
0

RECOMENDAMOS

Comente

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e gestão de seus dados por este site.