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A educação que ensina sobre a desigualdade

por Carolina Rodrigues

A pandemia do novo coronavírus vem alterando de maneira cada vez mais decisiva as estruturas de nossa sociedade. Pouco a pouco, vamos nos adaptando ao “novo normal”, a uma vida diferente da que conhecíamos antes da pandemia.

Além de todas as modificações no cenário econômico, político e social, a proliferação do vírus acabou por impactar de maneira mais dramática um campo de extrema relevância na sociedade: a educação.

No cenário brasileiro, o sistema educacional, que  há muito tempo se reproduz aos mesmos moldes, foi obrigado a se adequar às demandas tecnológicas concernentes ao momento atual. Nesse sentido,  podemos dizer que além de a pandemia estar nos impondo reflexões importantes acerca do valor da vida, da importância da interação social, da vida em comunidade, ela também tem nos feito atentar para o valor das tecnologias, que não só encontram-se essenciais em tempos de isolamento social, mas também apresentam-se como uma realidade incontestável no novo cenário que se desenha para o futuro.

No meio da crise, padrões de comportamento e hábitos têm sofrido diversas  transformações – desde a adoção do trabalho remoto, passando por  novas experiências de compra e de entretenimento, chegando à educação a distância. A educação, o pilar do desenvolvimento, encurtou distâncias e modificou a relação professor-aluno.  Os teclados dos computadores e celulares ocuparam o lugar da lousa  e a webcam  assumiu a missão de transmitir olhares de dúvida e compreensão dos conteúdos ensinados.

Diante desse novo propósito educacional, questionamos o seu alcance. Educação para todos? O encontro se tornou um risco, mas aprender ainda continua  um direito constitucional para todos, sem distinção. Todavia, na prática, o ensino online/remoto e todas as ferramentas necessárias para que ele ocorra, como o Google Classroom, o Meet e demais plataformas de ensino, acabam por  restringir o direito educacional a todos, já que nem todos os alunos dispõem de internet ou internet de qualidade para desfrutar do ensino a distância, e, quando dispõem, muitas vezes não possuem as habilidades necessárias para utilização das ferramentas virtuais.

Neste contexto, é extremamente necessário enfatizar as particularidades de cada aluno. Entre tantas realidades conflituosas, simplificar o discurso e homogeneizar a realidade educacional tem se tornado um dos maiores equívocos referentes ao assunto no Brasil. Isso porque, ter o acesso a educação restrito a  um único canal que não é atingível a todos nada mais é que uma forma de promover desigualdade social. Como discursar a favor da democratização do ensino se o acesso as ferramentas online de um aluno que está lutando com sua família para não morrer de fome em meio a crise é infinitamente inferior ao de um aluno da classe média, por exemplo? Defrontando as múltiplas realidades as quais os estudantes brasileiros estão imersos, torna-se cada dia mais difícil concebermos um ensino democrático no Brasil, sobretudo no contexto da pandemia, e para depois dela.  

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)-   principal meio de acesso para o ensino superior – é a grande exemplo do abismo que se apresenta na realidade educacional atual,  perpetrado pela desigualdade social. Depois de o governo enfrentar questionamentos judiciais, o exame, que ocorreria em novembro, foi adiado. Embora a nova data para realização da prova não tenha sido anunciada, milhares de estudantes que visam à aprovação no exame têm se questionado a respeito da preparação para essa fase. Como estudar em casa quando os recursos são mínimos, a internet é ruim e a tecnologia ainda não é uma realidade tão presente? Como se preparar  de maneira adequada se faltam materiais, explicações e orientações adequadas? Indo além, como aplicar um exame único a milhões de estudantes sem levar em consideração as desigualdades que tangem o acesso ao ensino em tempos de pandemia?

Em meio à luta para vencer à Covid-19 e a luta pela vida, para muitos existe a luta para que não falte o pão todos os dias, a luta pelas necessidades básicas de sobrevivência. E no contexto de tantas lutas, existe o sonho: ascender através da educação. Transformar uma vida de luta em uma vida de conquistas. Conseguir um diploma. Seguir uma carreira profissional de sucesso.  Os professores, destaques dentro e fora de sala, têm rompido as barreiras tecnológicas e se empenhando ao máximo para oferecer o melhor para que seus alunos alcancem esse objetivo.  Muitas vezes dispondo de parcos recursos e pouca experiência tecnológica, o professor faz com que os obstáculos sejam pouco a pouco substituídos pelo desejo  de compartilhar, de fazer diferente e oferecer, em meio a um momento tão difícil, um pouco de esperança junto ao conhecimento.

Mas, embora os esforços sejam dignos, a verdade sobre o sistema educacional que se desvela com a pandemia é alarmante. Para além do coronavírus, o que vislumbramos é um futuro  de maior desigualdade no contexto de uma nova cultura digital que se desenha. A digitalização da educação em tempos de pandemia expôs o ponto nevrálgico, até agora mal disfarçado pelo discurso de “democratização do ensino”:   aos alunos da rede privada, maioria de classe média, sobram recursos e oportunidades para realizarem seus sonhos. Para os alunos da rede pública, maioria composta por pobres, faltam recursos e oportunidades para conseguir o básico.

Por Carolina Rodrigues e Mirela Cardoso

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