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UM PAÍS FEBRIL

por Carlos Felipe

Entre 1850 e 1920 o Brasil que passava por uma transição entre o Império e a República registrou pelo menos 7 surtos entre febre amarela, cólera e tuberculose na capital da Corte; a cidade do Rio de Janeiro.

Epidemias que geraram uma série de políticas sanitárias em meio a um período de modernização, urbanização em que se deflagaram os projetos de Brasil que cunhados por uma elite de comerciantes urbanos; grandes proprietários escravistas, militares e políticos que defendiam os interesses desses grupos mas que deram um indício do que viria a definir os caminhos pelos quais o projeto republicano trilharam desde então: suprir as demandas da elite em detrimento das classes menos desfavorecidas – “classes perigosas e viciosas” segundo os termos utilizados por políticos e veiculados nos jornais da época – que eram compostas sobretudo por uma leva de libertos e escravos que viviam em meio a insalubridade e sujeira dos cortiços da cidade, onde as doenças proliferavam e escorriam pelas ruas alcançando, sem escolher nível social, as classes mais altas da sociedade carioca.

O historiador Sidney Chalhoub em Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial nos ajuda a compreender que as políticas sanitárias, higienistas e eugenistas recaíram sobre as classes perigosas como se fossem elas as culpadas por espalhar os surtos endêmicos pela capital da Corte e depois da República.

Fato é que os surtos de febre amarela – que tanto preocupavam os órgãos de saúde da época – foi implacável com os imigrantes europeus que chegavam aos montes nesse período à capital. Mas o vetor, para os médicos sanitaristas e políticos eram os moradores dos cortiços, de pele preta e que viviam em condições precárias de higiene nas habitações coletivas na região central do Rio de Janeiro.

A solução para a época, era extirpar os cortiços, isolar as classes perigosas e enfim acabar com os surtos, além de promover a miscigenação de modo que a população mais clara estava menos sujeita à sujeira moral – associada as doenças na época – e por conseguinte das doenças que causavam pânico às pessoas.

O alerta dessa narrativa recai sobre a problemática questão em que se foram impetradas as políticas que antes de combater as doenças, marginalizavam pretos e pobres e que foram fundamentais para a criação das favelas que conhecemos hoje. Como método profilático, o projeto republicano escolheu o paliativo: afastar o populacho para as zonas periféricas da cidade do Rio de Janeiro e não tornar a vida dessas pessoas melhor, livrando-as das doenças. Se a febre amarela  não matava os pretos da época, a tuberculose por seu turno o fazia; mas a preocupação era de fato a febre amarela que matava os imigrantes vindo da Europa e membros da elite local.

De todo modo, esse paliativo tem causado problemas persistentes até hoje. Com a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) pretos e pobres são os que mais morrem. Com dados recentes do IBGE, até os primeiros dias do mês de maio, a incidência de mortes entre pretos e pardos é de 55% e entre brancos 38%. Num universo em que 75% entre pretos e pardos são mais pobres e 70% dos brancos estão entre os mais ricos no Brasil, é evidente que a doença tende a levar a morte quem tem menos acesso a tratamentos de qualidade.

Que a Covid-19 não escolhe suas vítimas não é novidade e não há contestação. Mas as condições de desenvolvimento humano e condições socioeconômicas são fatores que concedem a morte um caráter social, muito além de uma perspectiva meramente biológica.

Uma pandemia por um novo e até pouco tempo desconhecido vírus se aproveita muito bem das condições sociais de um país ou região e impacta sobretudo quem está nos piores lugares, nas favelas – os cortiços de hoje – e nas zonas periféricas das grandes cidades que abrigam trabalhadores informais e desempregados em que poucos tem condições estruturais e financeiras de enfrentarem uma pandemia sem ter que se expor e seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde e que tiveram seus parcos auxílios eventualmente negados por um governo que tenta se proteger de suas próprias contradições e negligências.

Uma análise que envelheceu muito bem como a de Chalhoub nos obriga a uma reflexão e uma tomada de consciência alarmante – ainda que tardia – sobre quem é que sofreu e sofre mais com as negligências e políticas públicas equivocadas dos governos tanto do passado quanto do presente.

A população negra e pobre do país ainda é acometida pelas chagas dos desgovernos que cumprindo uma agenda racista esquece de 56% da sua população que ainda é aparentemente desumanizada e que sente ainda mais em meio a uma crise política e de saúde sem precedentes nesse país de quase 30 mil mortos por uma doença que deflagra sem nenhum preconceito as péssimas condições sociais de um país ainda febril, acometido pelo vírus da desigualdade.

Foto de destaque: TORLEY  on Visualhunt.com / CC BY-SA

Carlos Felipe Bento Bessa

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