Home Opinião Em tempos de luta pela vida, não deixemos a arte morrer!

Em tempos de luta pela vida, não deixemos a arte morrer!

por Carolina Rodrigues

No contexto da pandemia do Covid-19 várias são as preocupações que nos assolam. Afora a preocupação com a vida em si, vulnerável à ação de um vírus desconhecido e a inexistência de um remédio para combatê-lo, e a preocupação com a economia, fragilizada pelas consequências do necessário isolamento social, somos acometidos pela inquietude pelo que nos espera num mundo pós-pandemia. Certamente, nada será como antes. Teremos que nos adaptar a um novo tipo de “normalidade”. Para o filósofo e teórico social sul-coreano Byung-Chul Han, devemos nos preparar para um mundo marcado pelo senso de sobrevivência, onde todo o sentido de “boa vida” se perde. 

É nesse contexto que devemos nos preocupar também com a sobrevivência da arte ou a ressignificação do universo cultural, já tão combalido pelo capitalismo, nesse “novo mundo” pós-pandêmico. Isso porque, uma sociedade sem arte, sem cultura, é uma sociedade entregue à apatia e abarbárie, marcada pelo senso único de sobrevivência. 

Remetendo à Antiguidade, lembramos que o teatro possuía grande relevância social na manutenção das cidades. Uma vez que a dinâmica bárbara é “reprimida” com a construção das cidades, o teatro passa a ser o local onde o bárbaro é transfigurado na arte. Para o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), o conceito de catarse, retratado em sua obra “Arte Poética”, representava a purificação das almas, que ocorria através de uma grande descarga de sentimentos e emoções, provocada  pela poesia e pela música, mas mais particularmente pelastragédias. Para o filósofo, quando o público entrava em contato com a linguagem poética, esta suscitava paixões capazes de levar à purificação.  Assim, apesar de tratar-se de sociedades rigidamente hierarquizadas, na Antiguidade todos eram convidados a participarem dos espetáculos, pois era ali, nos teatros, que acontecia a catarse social; o momento de colocar o bárbaro em transfiguração. 

Talvez por isso, dada a natureza tratativa das artes, o capitalismo venha esvaziando seu valor e colocando-a cada dia mais fora do alcance das massas. De acordo com o filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969), a arte autêntica deve ser considerada uma forma de conhecimento e, consequentemente, de crítica social. No entanto, ao transformar a arte em entretenimento, o capitalismo a inseriu no fetichismo de mercado, tirando seu valor em meio a um universo de mercadorias padronizadas. Para o filósofo, a arte que serve aos interesses do capital, com vistas ao entretenimento,  não pode desempenhar o papel de emancipação do sujeito, uma vez que seu objetivo é ser “comercializável”. Assim, a arte só pode ser abarcada numa dimensão social quando está vinculada ao conhecimento e à crítica, para resistir a todo processo de dominação.

Fato é que em momentos de profundas incertezas trazidas pela dinâmica capitalista, a arte nunca foi tão necessária e ao mesmo tempo tão relegada. Das arquibancadas dos teatros da  Antiguidade Clássica à superficialidade do entretenimento oferecido pela moderna Industria Cultural, a deterioração das artes tem significado a deriva de nossa sociedade. Pois, quanto mais a sociedade se esvazia de arte, mais violenta e ignorante ela fica. Incapaz de expurgar suas paixões, as sociedades têm cedido ao fascismo, a intolerância, ao absurdo. 

Em tempos de isolamento, assistimos ao esfacelamento do pouco que nos resta da arte autêntica, que apesar de tentar sobreviver de forma debilitada  aos meios virtuais, sucumbe aos limites que essa dinâmica impõe. E o que será de nós enquanto não houver mais espetáculos, enquanto os museus permanecerem sem visitações e as cortinas nos palcos permanecerem fechadas? Ou pior, o que será de nós se, assim como prevê Byung-Chul Han formos tomados por um senso irrefreável de sobrevivência que nos tire a capacidade de viver a “boa vida”? Cederemos ao empenho capitalista em nos transformar em meros consumidores do mercado cultural, que visa vender um novo (já batido) modo de vida e produtos padronizados para “novos tempos” pós-pandêmicos? Nestes tempos de luta pela vida, fica o apelo para que não deixemos a arte morrer. 

Por Carolina Rodrigues 

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