Home Opinião Da normalização do absurdo à banalização da barbárie

Da normalização do absurdo à banalização da barbárie

por Carolina Rodrigues

Contabilizando mais de 8.500 mortes e 125.218 casos confirmados do novo coronavírus, o Brasil parece, cada dia mais, inclinar-se ladeira abaixo. Isso porque, não bastasse a enorme crise política que atravessa o país, cujas demonstrações mais pungentes estão nas manifestações antidemocráticas e anticonstitucionais incentivadas pelo próprio presidente Jair Bolsonaro em plena pandemia, passamos também por uma enorme crise civilizatória. 

Todos os dias, os jornais nos informam que, por todo país, amontoam-se nos corredores dos hospitais pacientes a espera de leitos; muitos deles em estado gravíssimo. E o sistema de saúde saturado e a meio passo de colapsar, torna-se incapaz de evitar as mortes, que as subnotificações não dão conta de calcular. Milhares de sepulturas são abertas às pressas nos cemitérios das maiores cidades do país e caminhões frigoríficos chegam aos hospitais para recolher os corpos, que os necrotérios já não têm condições de suportar. Mas, ainda assim, uma multidão de idiotizados, feito zumbis acéfalos, aglomeram-se nas ruas em manifestações pró-Bolsonaro e pelo fim do isolamento social; inflamam-se em discussões em defesa do “salvador” eleito e de seus atos e falas criminosos; negam o óbvio ululante do vírus que se espalha, das mortes que se acumulam e da tragédia que se anuncia. O que seria isso senão a normalização do absurdo, a banalização da barbárie? 

No entanto, se ante a total banalidade do mal – tomando de empréstimo um termo arendtiano –  sentimo-nos perdidos e sem esperança, em choque pela vertiginosa disseminação do ódio e da  irracionalidade, e tentados a acusar Bolsonaro de ser responsável pela queda dos valores mais caros em nossa sociedade, somos convocados a lembrar, a partir do própria Hanna Arendt, de episódios como o Holocausto, onde “homens comuns”, “bons cidadãos” como Eichmann,  foram responsáveis  pela logística que levou milhões de judeus ao extermínio na II Guerra Mundial. Antes disso, esses mesmos “cidadãos de bem” foram responsáveis pela ascensão do nazismo, tal qual no Brasil, do bolsonarismo. 

A queda na adesão ao isolamento social, que leva ao agravamento da crise sanitária em nosso país está, sim, atrelada aos atos e falas irresponsáveis do presidente e sua necropolítica. Ao negar assistência digna aos trabalhadores, os obrigando a saírem de casa para trabalhar ou enfrentarem filas quilométricas para sacarem os parcos R$ 600, 00 pagos a contragosto e sob pressão do Congresso, o governo de Jair Bolsonaro põe em prática uma política cruel de extermínio dos indesejáveis; ou seja, os mais vulneráveis, os mais pobres, os excluídos. Qualquer semelhança com outros governos autoritários não é mera coincidência. Bolsonaro é, sim, tal qual outros déspotas da história, o regente que orquestra o caos. Mas, antes disso, ele é aquele que insufla a massa exaltada; porta-voz dos revoltados; personificação do ódio comum. 

Usando outra expressão arendtiana,  talvez tudo isso seja o resultado de “tempos sombrios”. Crise econômica e do sistema financeiro, crise de confiança nas instituições, crise de valores, crise de sustentabilidade, mudanças climáticas e catástrofes ambientais. Seria a intolerância, a falta de empatia, o desrepeito, a irracionalidade e todo esse ódio resultado desses tempos de instabilidade? Fato é que momentos de profunda transformações e instabilidade antecederam eventos profundamente traumáticos como as Grandes Guerras. Em 1932, indagado por Albert Einstein sobre o que levaria os homens a promoverem guerras, Freud  respondeu que “a violência humana é inerente à condição biológica do homem [e] manifesta-se em todos os conflitos de relação a partir do processo mais remoto de socialização;  o homem é mobilizado por dois instintos ou pulsões, cujas atividades são opostas entre si: a pulsão construtiva, erótica ou Eros e a pulsão destrutiva, de morte ou Tanatos.” 

As considerações de Freud, que encontram consonância no conceito kantiano de “mal radical”,  que designa uma propensão natural ao mal inerente ao ser humano, nos trazem à reflexão a necessidade de mecanismos de controle da violência e da injustiça que sejam capazes de reforçar laços de solidariedade e inibirem nossas pulsões destrutivas. 

Talvez daí parta o grande problema da sociedade atual. Dada a absolutização do indivíduo na sociedade capitalista, isto é, a sobressalência do individual em detrimento do coletivo, os laços comunitários e de solidariedade que seriam capazes de inibir nossa pulsão à violência, estão cada dia mais frouxos. De acordo como filósofo coreano Byung-chul Han, o projeto de individualização é o carro-chefe do sistema capitalista. Dele nasceu o sujeito de desempenho, aquele que já não é explorado por uma força externa, mas por si mesmo , em um processo constante de autossuperação que redundaria em uma falsa impressão de liberdade que seria, na verdade, autoexploração. Esse sujeito que agora é “dono de si” , tão voltado a si mesmo, tornou-se alheio à alteridade. O “superar a si mesmo” virou uma compulsão dos nossos tempos e acabou por criar personalidades anômalas, que não mais reconhecem a si fora das relações de consumo ou que obedeçam essa lógica. E como as relações de consumo na sociedade capitalista são sempre baseadas na competição e na efemeridade, pois obedece a dinâmica da substituição, assim se dão os laços com o outro na nossa sociedade – a partir da dinâmica predatória e superficial. Poderíamos dizer, então, que teríamos na sociedade atual um potencializador das nossas pulsões destrutivas a partir do modus operandi  capitalista, assim como uma flagrante corrosão dos laços comunitários capazes de freá-las. 

No Brasil, dada as diversas transformações ocorridas em âmbito político, social e economico durante os governos do PT, que fizeram aumentar o consumo da massa de trabalhadores, levando ao surgimento da denominada “nova classe média”, a força das relações capitalistas fizeram-se sentir sobretudo no espaço do “poder pela narrativa”. Desapropriados do poder de fato por toda uma vida, vencidos pela luta de classes, trabalhadores pertencentes a “nova classe média” passaram a se apropriar da narrativa da elite- raivosa e ressentida pela diminuição do abismo que a isolava em seus privilégios – e começaram a investir contra os governos progressistas, munidos de sentimentos débeis de combate à corrupção, defesa da família e da propriedade. Neste momento, tal qual ocorrido em outros momentos de deflexão na história, elegeu-se um inimigo a ser combatido, e junto a ele um representante do ódio. Assim, numa sociedade dominada pela pulsão de destruição, e incapaz de forjar laços de solidariedade em meio a cada vez maior atomização do corpo social, Jair Bolsonaro tem atendido a todas as expectativas, sobretudo no (não) combate ao coronavírus. 

Por Carolina Rodrigues 

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